O PCC 1533 está selecionando jovens aprendizes

10 milhões de jovens entre 14 e 18 anos estão sendo jogados nos braços do Primeiro Comando da Capital como resultado de nossas escolhas sociais e políticas.

A facção PCC em nossa estrutura social

Lúcia Dammert, professora da Universidade de Santiago, me irritou ao dizer que agimos de forma anedótica quando tentamos resolver a questão das organizações criminosas. Talvez eu tenha errado na tradução da palavra “anedote” do seu artigo Gang Violence in Latin America, então, peço que você dê uma olhada e me diga se me equivoquei.

Você já assistiu Sarkar (सरकार)? Os indianos estão entre os que mais acessam este site no estrangeiro, e assistindo esse filme dá para entender o porquê: não temos uma visão muito diferente da que eles têm de suas facções criminosas e de sua importância dentro da estrutura social e política, seja para o bem ou para o mal.

João Pereira Coutinho diria que eu, Lúcia Dammert e os indianos, assim como Chakib Limane, temos uma queda por torcionários, e que estamos marchando “com o rebanho que procura ‘compreender’, leia-se ‘desculpar’, as atrocidades […]. Não há compreensão nem desculpa para a morte ….”

A professora Dammert afirma que a decisão de um garoto de se juntar a uma facção, em alguns bairros, é uma estratégia de sobrevivência e não uma escolha verdadeira — talvez isso seja verdade, talvez não, mas em muitos lugares com certeza ajuda a proteger os dentes, principalmente na entrada e saída da escola ou nas ruas próximas de suas casas.

Sonhar é preciso, viver não é preciso

Os jovens precisam se unir a grupos, seja em uma metrópole indiana ou em uma pequena cidade brasileira no meio da floresta amazônica, seja agora no início do século XXI ou nos tempo da colônia. A garotada busca seus marcos de referência, que podem ser um ladrão de sinal de telefonia como Steve Jobs ou os líderes das gangues locais ou nacionais.

Se o moleque é estigmatizado ou rejeitado pela sociedade, encontrará e se juntará a outros como ele e, se sozinhos eram fracos, unidos serão invencíveis, ou quase. Assim, um pobre destinado a trabalhar carregando cimento passa a ser membro de uma facção, exibindo os símbolos da gangue tatuados no corpo e outras conquistas, como roupas de marca.

Com isso, apesar de continuar excluído, o jovem passa a ser respeitado, seja por medo ou inveja.

Inicialmente há o sonho de se juntar a outros garotos que, assim como ele, empinam pipa ou jogam futebol, mas que já estão dentro da facção, já que é quase impossível ter um emprego dentro do mercado formal quando se é adolescente, pois construímos um sistema que dificulta o ingresso dos jovens no mercado de trabalho.

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São quase 10 milhões de brasileiros entre 14 e 18 anos, então, se você for me falar sobre o programa “Menor Aprendiz”, só o faça se ele já tiver empregado pelo menos 5 milhões, se não é mais um daqueles “planos. projetos, e programas utópicos”, que só existem para fazer de conta que estamos resolvendo um problema que nós mesmos criamos.

Depois que são aceitos nas facções, buscam subir na hierarquia, como em qualquer empresa. Só que nesse meio a violência é uma ferramenta normal para a interação social dentro e fora do grupo, assim como a prisão é uma consequência natural, que é bem-vinda, pois será a confirmação definitiva de que um jovem se tornou um membro ativo do grupo.

Ao mesmo tempo que a experiência com as forças policiais e com o sistema burocrático da Justiça reforça a posição, piora os vícios e causa um desajuste no equilíbrio mental desse jovem, colocando-o cada vez mais enraizado nas facções e na vida criminal, assim como o coloca em posição de destaque e ganhe admiração entre os novatos.

Lúcia Dammert me irritou ao dizer que agimos de forma anedótica, mas creio que ela não quis dizer que brincamos de educação quando criamos “planos, projetos, e programas utópicos” que, na realidade, impedem os jovens de trabalharem, mas, sim, que não levamos a sério os dados e agimos com o coração, impulsionados por nossas ideologias.

E é por isso, João Pereira Coutinho, que eu e Lúcia Dammert, talvez entendamos o porquê de o povo indiano idolatrar Sarkar, o chefe do tráfico local, que é visto como o farol que ficou aceso no meio da tempestade. Mas, ao contrário de Chakib e de muitos de nossos conterrâneos, não queremos que o predomínio dos líderes das organizações criminosas perdure.

Queremos viver livres das sombras dos líderes de grupos criminosos que se opõe à ordem constituída e a sociedade organizada. Queremos viver em um mundo onde possamos reverenciar aqueles heróis que nos livraram desses desordeiros, restabelecendo a lei e a ordem — começando, talvez, por Domingos Jorge Velho.

Rícard Wagner Rizzi

A polícia e a chacina de jovens negros e pobres

Direitos Humanos X Direitos dos Manos — enquanto brancos discutem nas redes sociais e nas universidades, garotos negros da periferia e policiais morrem.

A análise que aqui faço é a de um descontrole coletivo, quando veio à tona um sentimento de justiçamento frente ao expurgo social por parte daqueles envolvidos no mundo do crime, como se se aproveitassem da possibilidade de matar indiscriminadamente qualquer um que trabalhasse para as forças policiais — desculpe, errei, Tarsila Flores escreveu assim:

A análise que aqui faço é a de um descontrole coletivo, quando veio à tona um sentimento de justiçamento frente ao expurgo social por parte dos policiais envolvidos, como se se aproveitassem da possibilidade de matar indiscriminadamente.

Acredito que Tarsila, autora da dissertação Cenas de um Genocídio: Homicídios de Jovens Negros no Brasil e a Ação de Representantes do Estado, concorde comigo e deixe eu inverter algumas palavras, sem comprometer a ideia, afinal ela mesma escreve em outro trecho sobre policiais e bandidos:

[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…

Garotos pobres e policiais morrem em matilha…
… acadêmicos discutem sobre isso como manada

Marcos Beccari e Ivan Mizanzuk se questionam sobre as razões pelas quais o conhecimento acadêmico não consegue fazer com que a luz do conhecimento produzido chegue ao mundo real, e Ivan chega a conclusão que as Ciências Sociais estão em crise e a Filosofia de fato morreu, assim como morrem os garotos e os policiais.

Garotos e policiais não perdem tempo como Marcos Beccari, Ivan Mizanzuk, Tarsila Flores, eu e você discutindo como as coisas devem ser, nos colocando como defensores dos fracos e oprimidos, ou da lei e da ordem — com nossas certezas, repetindo nossas verdades para aqueles que conosco concordam e vendo nos outros o inimigo.

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro

Mas os inimigos somos nós, e essa é nossa sina.

A palavra chacina não tem uma conotação jurídica como homicídio ou latrocínio, sendo representada no âmbito jurídico como “homicídios múltiplos”. Chacina, portanto, é uma expressão popular que desencadeou um acúmulo de violência contra um grupo de pessoas estereotipadas, seja pela classe social, cor da pele ou ação política.

Camila de Lima Vedovello e Arlete Moysés Rodrigues+

O segredo da sobrevivência do Homo sapiens é a sua capacidade de se fechar instintivamente em grupos. No passado isso garantiu a sobrevivência da espécie e ainda hoje nos unimos em manadas para defender nossas ideias nas academias e redes sociais, ou em matilhas para defender nossas vidas nas periferias.

Enquanto alguns discutem cheios de razão, outros morrem sem nenhuma razão, como nos conta Yan Boechat:

A chacina “… segue um padrão macabro: como boa parte dos homicídios no país, ocorreu em uma área pobre da cidade, vitimando em sua maioria jovens e, provavelmente, negros e pardos. Passava da meia noite quando o grupo de homens armados com coletes táticos, fuzis, pistolas e balaclavas apareceu no bairro (…) uma área pobre da periferia (…) chegaram atirando em qualquer pessoa que estivesse pela rua (…)”

Desta vez, os assassinos também eram negros e pobres da periferia.

O sociólogo Sérgio Barreira de Faria Tavolaro, da mesma Universidade de Brasília para qual Tarsila apresentou sua tese, enfim, fez passar uma fresta de luz para fora das muralhas da acadêmica: o problema não é o racismo ou a opressão do Estado, a zica está na testosterona e no comportamento de grupo — seja do jovem marginalizado ou policial.

Os garotos da facção Guardiões do Estado (GDE 745), aliados do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), atacaram um reduto do Comando Vermelho (CV) por ousadia e adrenalina, algo que apenas uma matilha jovem e forte possui — os garotos nada mais são que humanos, assim como os policiais paulistas que em 2006 se uniram para sobreviver.

O que falei sobre a facção Guardiões do Estado neste site → ۞

Retornamos então a questão inicial proposta por Tarsila e que ela mesmo responde:

Quem mata os jovens negros e pobres das periferias? 

Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala… Tarsila Flores

Número de negros mortos pela polícia em São Paulo

A mulher do Acre: a acadêmica e a guerreira do PCC

A Segurança Pública em Roraima, através dos dados estatísticos de 2016, e o aparecimento no estado da facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

É possível levar a sério um artigo acadêmico sobre a violência e a criminalidade urbana em um estado que é só selva? E se eu disser ainda que foi escrito por uma mulher? Este é o caso de Retratos da Violência Urbana e da Criminalidade em Boa Vista — Roraima: A capital mais setentrional do Brasil, de Janaine Voltolini de Oliveira.

Nossa! Me senti agora como Monteiro Lobato!

Você já leu o livro Éramos Seis, de Maria José Dupré? Quem prefaciou a edição que li foi ninguém menos que Monteiro Lobato, ícone de nossa história, responsável por parte da formação cultural de nossa nação, que no prefácio não se vexou em contar que recebeu de seu editor o original do livro de Dupré que narrava a vida de uma mulher que cuidava e seus filhos, desde pequenininhos até a fase adulta — ele se recusou a ler a obra, pois tinha sido escrita por uma mulher e a premissa era ridícula.

Após muita insistência do editor, Monteiro Lobato, acabou lendo e se apaixonando pelo trabalho da autora (assim como eu).

Janaine não é Dupré e eu muito menos sou Monteiro Lobato, mas Dupré não podia prever que Lobato não iria querer lê-la por ser mulher, e Lobato não poderia prever que em cinquenta anos sua obra quase seria proibida por ser sexista e racista, assim como Janaine não poderia prever que um leitor seu chegaria a estas conclusões:

O artigo publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP faz uma avaliação do quadro de violência em Roraima e analisa seus números, apresentando as possíveis causas e soluções para o problema. É um bom resumo do que acontece por lá e um facilitador para quem quer fazer uma análise rápida, mas não profunda, da situação do estado.

O que falamos sobre as mulheres neste site → ۞

A questão da mulher me chamou a atenção assim que peguei o trabalho de Janaine para ler — pensei em criar uma cota para a produção masculina nesse site, pois quase todos os trabalhos que fiz no último mês foram produzidos por mulheres ou o assunto eram as mulheres dentro da hierarquia do PCC.

Não acredito no acaso, e muito menos duvido dele.

A pesquisadora demonstra no artigo o aumento brutal do número de mulheres assassinadas — o Mapa da Violência 2015 denunciou o aumento de 500% da quantidade de homicídios de mulheres em Roraima em relação aos anos de 2003 a 2013. Os números demonstram o aumento da presença das mulheres, que estão dominando cada vez mais todas as áreas.

Quando Janaine escreveu o artigo, não poderia prever que trouxesse, a um de seus leitores, a lembrança de maneira tão viva de uma irmã ou companheira do PCC, que teve seu áudio viralizado um pouco antes dos ataques ocorridos no início de agosto de 2017 em Rio Branco:
Aqui o bagulho tá feio mesmo. Eu sou do Acre, só que os irmãos não estão muito unidos não. Mataram meus companheiros lá. Até perder meu filho já perdi. Tudo por causa dessa guerra. Agora os irmãos tem que tomar atitude aí. Tem Irmão encurralado aí.Tem que ajudar Irmão.

Na voz, uma mulher, fiel de sangue ao Primeiro Comando da Capital, e seu pedido de apoio mobilizou soldados e recursos da facção de diversas partes do Brasil — a situação que estava quente, ferveu, sendo necessária uma operação de guerra envolvendo o governo estadual e federal para conter a situação.

Monteiro Lobato teria que se conformar: a mulher conquistou seu lugar na sociedade, e hoje elas já escrevem tanto quanto os homens sobre a questão criminal, e com o incremento em torno de 1,5% ao mês do número de integrantes femininas nas facções. Dentro de cinco anos elas possivelmente já estarão em pé de igualdade com os homens.

Vídeo da execução de uma guerreira inimiga do PCC (CV) → ۞
Vídeo da execução de uma guerreira aliada do PCC (B13) → ۞

Eu não vou esperar tanto tempo para parabenizar as mulheres que conquistaram o direito de morrer como se fossem homem. Mary Wollstonecraft e Nísia Floresta devem estar muito satisfeitas com as conquistas das mulheres neste século.

Publicarei em breve um texto sobre um artigo de Robert Muggah, que assim como Janaine foi publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP, também conta com fontes recentes, e da mesma forma que ela ignorar a importância dos aliados locais.

Creio que ambos tinham conhecimento da existência e da importância das alianças locais, mas optaram por não publicar em um trabalho acadêmico por falta de comprovação científica verificável, desta forma faço um mea culpa e passo a publicar com a tarja Aliados News na página, Últimas Notícias, atualizações dos aliados do PCC: GDE, B13, ADA, e TCA.

Rícard Wagner Rizzi