A companheira PCC e o sistema prisional feminino

O nascimento de uma companheira do Primeiro Comando da Capital dentro do sistema prisional feminino brasileiro e sua morte por decisão do Tribunal do Crime da facção.

A PCC mulher presa por tráfico de drogas arlequina morta.jpg

Nós fomos presos, mas só a arlequina do PCC morreu

Eu, Egeu e Berenice somos primos e crescemos juntos. Ela foi uma companheira do Primeiro Comando da Capital, e isso Egeu não postou, mas não foi ele quem a matou — afirmo com certeza pois a vi morrer.

Egeu se incriminou e foi preso pela morte de nossa Berenice, e eu não o desmenti. Agora, Raíssa tocou em um assunto que se entrelaça com a nossa história, por isso, e só por isso, venho contar para você o que realmente aconteceu.

Há muitos anos, Egeu me disse que “é da alegria que nasce a tristeza, e a felicidade passada é a angústia daquilo que podia ter sido e acabou não sendo” — parece que ele estava prevendo nosso futuro.

O que falei nesse site sobre as arlequinas → ۞

Não devíamos ter sido tão felizes e com tantas esperanças no futuro

Nós três, quando crianças, estávamos sempre juntos. Nossos pais trabalhavam fora e as casas ficavam só para nós, sem ninguém para nos dizer do que podíamos brincar ou não, e assim tivemos todas as aventuras que queríamos.

Também não havia limites fora de casa. As ruas, as praças e até a estrada de ferro eram também parques de diversões, eram palco para nossas apresentações e aventuras — felicidade e aventuras sem limitações.

O que falei nesse site sobre a criança → ۞

Diferentes caminhos para a prisão e para a morte

Após nossa separação, apenas Berenice continuou vivendo, se aventurando e sorrindo; mas se eu e Egeu deixamos de viver, ela, sem perceber, rumou para uma morte cruel em uma véspera de Natal.

Toda vida e alegria que Berenice até então reservava para nós passou a ser entregue aos garotos do bairro, e ela aprendeu rapidamente a se aproveitar das vantagens de ser uma novinha da quebrada.

Eu ainda os via ocasionalmente: Egeu cada vez mais nerd e com o pensamento fixo nela; e ela cada vez mais feliz e pensando em qualquer um menos nele — ela deixou de ser nossa Berenice para ser a Nice Loira.

O que falei nesse site sobre as mulheres → ۞

Nice Loira presa por tráfico de drogas

Não acredite nas manchetes dos jornais, nossa Berenice nunca foi traficante. Um dos garotos com quem ela andava era um vaporzinho, e ela às vezes guardava para ele a droga no sutiã.

Pela letra fria da lei ela foi considerada tão culpada quanto seria o dono da biqueira ou o distribuidor do bairro. Se você considera que ela mereceu o que recebeu, eu respeito seu ponto de vista, mas garanto que nossa Berenice não mereceu.

Ficou quase dois anos presa até conquistar o direito à saidinha: a primeira foi no Dia das Crianças; a segunda no Natal, apenas para ser morta ao entrar na casa de seus pais, que estavam como sempre trabalhando.

O que falei nesse site sobre o Tribunal do Crime → ۞

O sistema prisional feminino e a facção paulista

Raíssa Tavares de Araújo apresentou a tese Privatização do encarceramento da mulher: a inaplicabilidade do contrato de parceria público-privada aos presídios femininos no estado do Rio Grande do Norte à luz da criminologia ao Centro de Ciências Sociais aplicadas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Raíssa contou como as coisas funcionam dentro de um presídio feminino e esclareceu a morte de nossa Berenice.

“Antes do surgimento do PCC, os presídios […] eram conhecidos por suas barbáries entre os próprios apenados. Surge, então, para estabelecer regras de Conduta e solidariedade entre os que se encontram com a liberdade privada. Quem ousasse desestabilizar a ordem imposta, podia ser penalizado com a morte.”

E nossa Berenice foi morta por ordem da organização criminosa, não pelas mãos de Egeu, que nunca foi do mundo do crime — ele confessou um assassinato que não cometeu por amor, amizade e burrice.

O que falei nesse site sobre o Rio Grande do Norte → ۞

Por que nossa Berenice entrou para o PCC 1533?

“A inércia do executivo e a conivência do Judiciário […] provocam o surgimento de escolas do crime. […] Como consequência, aumenta a criminalidade fora dos muros da prisão. Torna-se um círculo vicioso, em que o Estado ainda não encontrou uma forma de rompê-lo.

A ausência da presença pública gera um vácuo tanto nos presídios como em áreas periféricas São nesses lugares que se legitima essa força paralela, ao passo que prestam serviços assistenciais à comunidade e impõe suas leis. Ainda utilizam-se da miséria desse povo para renovar o quadro de membros de sua facção e se perpetuar no poder.”

A pesquisadora do Rio Grande do Norte disse tudo. Nossa Berenice, alegre, comunicativa e cheia de vida, também era a Berenice aventureira, guerreira e audaz, que aproveitaria a situação para se juntar, dominar e quem sabe liderar as feras.

O que falei nesse site sobre a opressão do Sistema → ۞

A arlequina volta para casa para morrer

Eu não cheguei a ver a nossa Berenice quando ela veio na saidinha do Dia das Crianças, mas Egeu me mandou uma mensagem contando que ela estava irreconhecível.

Arlequina sofrida texto no face.jpg

“Ela está sofrendo de alguma doença que está tomando conta de seu espírito e invadindo a sua mente. Ela mudou, não é mais aquela Berenice que nós conhecemos. É terrível e está mudando sua personalidade quase não se dá para a reconhecer.

Eu choro ao lembrar daquela sua vida alegre e doce, e agora ela vivendo na ruína total, enquanto nós, que nunca levamos alegria para ninguém estamos aqui vivos e com saúde.

Quando ela chegou, sua magreza era excessiva é nada lembrava aquela garota ardente que nos fazia rir o tempo todo. Nunca imaginei que poderia ficar tão pálida e seu cabelo que sempre foi de um castanho quase ruivo que vivia caindo na testa da onde ela tirava sempre com um sorriso, agora estava de um loiro aguado amarrado em um coque.

Por Deus, preferia ter morrido do que vê-la assim. Que agonia ela está passando!”

O que falei nesse site sobre as garotas → ۞

A beleza da vida — a beleza como razão de vida

Raíssa me mostrou a razão do porque nossa Berenice se deixou definhar:

“A prisão neutraliza a pessoa, principalmente as que pertencem às minorias, como é o caso das mulheres, que sempre foram subjugadas e castrados de suas vontades e em uma prisão a realidade da massa carcerária feminina chega a ser próxima à exploração em razão das características que apresentam: mulheres jovens, condenadas por crimes sem violência ou grave ameaça e penas longas.

Essas mulheres são fáceis de serem domadas em razão da vulnerabilidade que apresentam em decorrência do abandono por parte da família.

As prisões não estão preparadas para resolverem os problemas próprios das mulheres como gravidez, cólicas, higiene, limpeza e o cuidado com a beleza para elevação da auto-estima no cárcere.”

O que falei nesse site sobre o PCC nos presídios → ۞

Nice Loira julgada pelo Tribunal do Crime do PCC

Raíssa matou a charada, nossa alegre Berenice não sobreviveria a falta de cuidado pessoal, mas a facção não esperou a morte levá-la aos poucos.

Ao contrário do que Egeu declarou, ele nada teve a ver com a morte de Berenice — por mais que eu gostasse dela, Nice Loira não seguiu as regras de conduta e entregou uma colega para uma agente penitenciária.

Mesmo no lado errado da vida é preciso correr pelo lado certo, pois o errado é cobrado.

Esse texto foi baseado no conto Berenice, de Edgar Allan Poe.

 

O real e o imaginário e os ataques da facção PCC

Um grupo de pessoas se rebelam contra o Estado e a sociedade levando medo e agitação às ruas — o que de fato aconteceu e qual a posição tomada por você e por mim?

PCC 1533 o Real e o imaginário Jacques Lacan e Gilles Deleuze

Informação certa — conclusão errada (errare humanum est)

Peço que não deixe José ver esse texto — sei lá, use a sua imaginação, se ele chegar enquanto você estiver lendo, coloque as folhas na gaveta ou por baixo do paletó — o importante é não deixar ele ver esse artigo.

Aline Ribeiro, jornalista da Revista Época, escreveu que eu produzo “textos carregados de referências pretensamente filosóficas”, então, optei por chupinhar o trabalho dos outros, e dessa vez a vítima foi o José, por isso lhe peço cuidado.

O que aqui escrevi está na monografia de José Isaías Venera“Da cólera ao acontecimento junho de 2013: do que escapa à representação em Deleuze e Lacan”, apresentada à Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL).

Há tempos, Nicodemos Rocha, da Academia Saltense de Letras, meu mais severo crítico, garantiu que eu tinha a extraordinária capacidade de obter os melhores dados das melhores fontes e chegar às mais errôneas conclusões — e talvez seja o caso de hoje.

Acho que não foi nada disso o que ele disse, ou talvez tenha sido, sei lá; deixo para que você leia o texto e tire suas conclusões.

Pensamos como bicho gente (parentum et magistrorum disciplinam)*

Raíssa e Francisco, da UFPR,  me atentaram para a forma sutil como todos nós recebemos e repassamos informações e conceitos do governo por meio de seus representantes dentro do mais puro e inconsciente conceito de Servidão Voluntária (Etienne de La Boétie).

Sim, nós — não estou falando deles, estou falando de você e de mim, pois nós não somos menos responsáveis que Arnaldo Jabor da CBN ou do blogueiro Reinaldo Azevedo da Revista Vejasomos todos farinha do mesmo saco.

Todos pertencemos à espécie animal Homo sapiens, e nossas sinapses neurais funcionam da mesma forma, em mim, em você, no Lula e no Bolsonaro — processamos de forma similar as informações que o ambiente, as experiências vividas e nossos mentores nos passam…

… e aí é que Raíssa e Francisco entram na história.

Eles demonstraram que a imprensa nos passa as informações que interessam ao governo — até aí sem novidade; mas isso acontece sem premeditação do Estado — os próprios jornalistas buscam por comodidade os agentes públicos para basear suas reportagens…

… e nós buscamos comodamente informações com os jornalistas que nos agradam, consequentemente todos nós nos acomodamos nessa cadeia de servidão voluntária.

O que falei nesse site sobre jornalistas e repórteres → ۞

Pensamos que pensamos fora da caixinha (Quam odi)*

Aí está a dificuldade de todos nós, mesmo daqueles que vivem de transmitir fatos — não podemos deixar de lado toda nossa história de vida, tudo que aprendemos desde criança, e precisamos de um norte, de uma base para chegarmos a uma conclusão.

Movimentos sociais como os estudados por José ou a existência onipresente do Primeiro Comando da Capital impedem que os analistas interpretem o que está acontecendo por meio dos métodos tradicionais de análise — o real não se enquadra no imaginário.

Como em Matrix, a realidade passa a ser incognoscível, e o que foge ao padrão é ignorado e sua existência é negada, pois nossa mente tende a ignorar aquilo que não pode assimilar — confesse que quando você assistiu ao filme não se tocou da relação do Matrix com a organização criminosa.

Fatos atípicos, como a força de movimentos sociais, só são notados com ações grandiosas, como os ataques do PCC de maio de 2006 ou as manifestações dos vinte centavos em junho de 2013, e aí vamos buscar o auxílio de nossos mentores…

… do papai e da mamãe, ou, para não ficar feio, dos órgãos oficiais, ou da imprensa.

O que falei nesse site sobre a imprensa → ۞

Não pensamos fora da caixinha (Non Cogito, ergo sum)*

Somos nós quem buscamos socorro nessas fontes, até como forma de nos proteger, e repetimos o que nos foi passado por nossos mentores como se fossem nossas essa verdades — inconscientemente nos juntamos a uma das manadas…

… e foi assim que Arnaldo Jabor, assim como muitos de nós, viu a imagem da facção Primeiro Comando da Capital nas manifestações dos jovens pelos vinte centavos.

Homi K. Bhabha talvez dissesse que sem perceber havíamos chegado a um entre-lugar, a um ponto de colapso, em que um grupo de pessoas que não consegue se fazer ouvir abre mão de sua individualidade para ganhar voz.

“As autoridades não tinham ideia de onde aquilo ia parar. Pior do que isso — o que as afligia mais — eram a incredulidade e a incompreensão que as assaltavam diante das cenas dos protestos. Eles não conseguiam compreender como é que a fúria tinha começado. Sem que elas entendessem coisa alguma, o quadro complicava dia após dia, deixando um rastro pesado de desmoralização do Estado, depredações generalizadas — e mortes.”

Eu, você e Arnaldo Jabor teríamos dificuldade em saber a qual evento Eugênio Bucci estaria se referindo nesse trecho: do movimento Diretas Já! de 1984, dos ataques do PCC de 2006 ou das manifestações dos vinte centavos de junho de 2013?

O que falei nesse site sobre os ataques do PCC de maio de 2006 → ۞

Todos iguais, braços dados ou não (Omnes Romani, annon eundem)*

As cóleras de cada tempo, expressas na mobilização de grupos distintos têm a mesma raiz e foram por nós interpretadas de forma diferente por cada uma das manadas; e as vozes do governo e seus representantes demonizaram em cada época aqueles que os impunham oposição.

Todos nós aqui somos pessoas direitas, justas e honestas, então, assim como Arnaldo Jabor, no calor dos acontecimentos, nos opusemos às Diretas Já!, aos ataques do PCC e ao movimento dos vinte centavos — coisas de desajustados e baderneiros criminosos!

Mas acredite em mim quando digo que nem todos são tão certinhos como eu, você e Arnaldo Jabor, havendo quem participasse de algum desses eventos — tal pessoa consideraria que aquele foi um evento por uma causa justa, e apenas as pessoas que participaram dos outros é que são desajustadas, baderneiras e criminosas.

No entanto, parece que lá de Palhoça o barriga-verde José Isaías Venera olha tudo e vê algo mais, que nada tem a ver com o que é certo ou errado, mas, sim, com manifestação de grupos que tentam quebrar o código da Matrix para poderem ser vistas e ouvidas…

… assim conquistamos as Diretas (mas não já), a facção Primeiro Comando da Capital deixou de ser negada pelas autoridades, e se não conseguimos os “vinte centavos” naquele momento, passamos a ver de outra forma a realidade política nacional.

Isso não é um cachimbo (Ceci n´est pas une pipe)

José, o pesquisador da UNISUL, navega entre Jacques Lacan e Gilles Deleuze, colocando em dúvida nossa percepção do que é Real ou Imaginário, usando repetidamente a figura do cachimbo de Magritte.

Após a leitura do trabalho de José, jamais verei uma foto de uma manifestação pública, de ônibus queimados e de presos amotinados sem lembrar que aquela imagem não é a manifestação pública, o ônibus queimado e os presos amotinados.

Post Scriptum (poste pichado pelos manifestantes)

Agora jogue fora essas folhas antes que o José as veja e se some a Nicodemos Rocha confirmando que não adianta eu ter as melhores fontes que eu sempre chegarei as mais erradas conclusões.

  • as frases latinas aqui foram postas apenas para avalizar, eu mesmo, Aline Ribeiro da Revista Época.

Marielle Franco, o PCC e a linguagem jornalística

A importância histórica do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é inegável, mudou nosso comportamento em todas as áreas de nossa vida. Até as notícias que você lê só são escritas hoje, da forma que são, por conta da facção PCC.

A morte de Marielle Franco avançando para trás.jpg

A morte da ativista como fenômeno social

Me surpreende a violência que vive dentro de cada um de nós, parece filme de terror, e a morte da ativista Marielle Franco  trouxe à tona o que temos de pior; mas esse artigo não pretende defender ou condenar a ativista morta ou aqueles que a acusaram.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para a situação no seu artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Inicialmente, só ia aproveitar um fato lembrado nesse artigo produzido para a Universidade Federal do Paraná UFPR: 125 depois de sua fundação, o Jornal do Brasil criou em 2006 uma editoria específica sobre Segurança Pública por conta dos ataques do PCC.

Mas os pesquisadores em Comunicação Política da UFPR apresentaram uma análise histórica de nossa percepção da violência e dos caminhos que levaram o jornal a abandonar o conceito de “páginas policiais”, e essa mudança foi fruto de um fenômeno social nacional: o PCC.

O que falei nesse site sobre o Rio de Janeiro → ۞

Os atentados do PCC de 2006 como fenômeno social

Para muitos de nós, uma morte é uma morte e ponto final. Os críticos de Marielle Franco reclamaram nas redes sociais que a imprensa e grupos de direitos humanos deram demasiada atenção para essa morte em detrimento das outras tantas diárias.

Para muitos de nós, crime é crime e ponto final. Até o fenômeno dos ataques do PCC em maio de 2006, as ações dos criminosos no controle das áreas periféricas e dentro dos presídios eram percebidas como problemas pontuais de polícia.

Mas para alguns de nós a coisa não é bem assim. Deve ser contextualizada e entendida, caso por caso, morte por morte, crime por crime, cada um com seu peso e sua medida, e os pesquisadores Raíssa e Francisco fizeram essa contextualização.

Para isso, utilizaram a ação do Jornal do Brasil, para demonstrar que algumas mortes e alguns crimes são reflexo de uma mudança que já estava em curso dentro da sociedade e, nesse caso, o crime deixava se ser um fato típico.

Com absoluta certeza, os líderes do PCC ao ordenarem os ataques, jamais imaginariam que com essa atitude estariam não apenas jogando uma pá de cal nas editorias policiais como estariam traçando um marco, assim como o grupo que matou a ativista.

O que falei nesse site sobre os ataques de 2006 → ۞

A Segurança Pública analisada como fenômeno Social

A imprensa passou a refletir cada vez mais os anseios de justiça social por parte do cidadão comum, e assim os jornalistas de segurança pública passaram a ter que levar em consideração temas paralelos, como as condições sociais, econômicas e políticas.

Exemplifico com reportagem da prisão de Welinton Xavier dos Santos, o Capuava, um dos líderes do PCC, na qual o repórter Marco Antônio de Carvalho, do Estadão, produziu um texto policial informativo, mas fazendo uma crítica social contra a corrupção no judiciário.

Mas ainda é pouco…

… como ficou claro para mim ao analisar os números do Google Trends para 2017 em relação a facção PCC e verificar que o UOL Notícias foi o veículo mais buscado pelos usuários do site de buscas, e não as tradicionais mídias ou policialescas…

Os repórteres do UOL Notícias fizeram a diferença pela forma como transmitiram as notícias — podia-se perceber as pessoas, sentir suas emoções, entender o fenômeno social que representavam, e tudo isso sem deixar de apresentar os fatos.

Onde citei nesse site sobre o Google Trends → ۞

A imprensa analisando o fenômeno social

A facção criminosa Primeiro Comando da Capital e a morte da ativista Marielle Franco tiveram o poder de mostrar o melhor e o pior de cada um de nós, forçando os governos e a sociedade a abrirem os olhos para aquilo que por muito tempo esteve escondido.

As políticas de Segurança Pública entraram na agenda do dia visto sob outra perspectiva, mesmo para aqueles que preferem manter sua opinião de que no tempo da Rota na Rua e do Regime Militar os números da violência eram menores do que os de hoje, apesar dos fatos…

… mas os fatos são entendidos de formas diferentes por cada um de nós. O gráfico Taxas de Homicídio de 1980 a 2016 (comparativo: Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro) serve como argumento tanto para os adeptos da direita quanto os da esquerda — vai do gosto.

Gráfico Comparativo de Homicídios 1980 a 2016

Nas décadas de 1970 e 1980, os jornais Espreme e sai sangue eram as grandes sensações, e aqueles que, assim como eu, viveram naquele tempo, ouviram em casa que não se podia mais sair nas ruas, que as pessoas ficavam presas em casa e os ladrões livres.

O que falei nesse site sobre as taxas de homicídio → ۞

Tudo mudou para nada mudar

Se Marielle Franco era uma voz a ser ouvida ou criticada, eu não sei — ela foi calada sob os aplausos de parte da sociedade e repúdio de outra parcela — o que sei é que essa morte permitiu que, afinal, sua voz fosse ouvida com a cobertura da imprensa que ela não tinha.

Se os presos que protestavam contra as desumanas condições do sistema carcerário tinham razão em suas reivindicações, eu não sei — eles foram calados na chacina do Carandiru, sob os aplausos de parte da sociedade e repúdio de outra parcela —, o que sei é que essas mortes abriram caminho para o surgimento do PCC, e essas vozes, afinal, conseguiram a cobertura da imprensa que elas não tinham.

Raíssa e Francisco da UFPR, analisando o conteúdo dos jornais, afirmam que estes mostram o ponto de vista dos governos, isso porque boa parte dos textos é reservado às autoridades de forma exclusiva, reprimindo, assim, as demandas sociais até a ruptura.

As vozes dos fenômenos sociais que discordam são mostradas pontualmente e servem para legitimar o discurso oficial. Com isso a morte de Marielle e dos que estão nas periferias ou prisões servem para ressaltar a importância de mais segurança pública com seus…

“… programas direcionados ao policiamento ostensivo, deixando de lado questões paralelas, como sistema penitenciário e a necessidade de avanços na investigação e na legislação.”

O que falei nesse site sobre o Carandiru → ۞

Sangue novo alimenta fascistas e comunistas

Fiquei surpreso ao ver desnudada a violência que vive dentro de cada um de nós, com as reações públicas de alguns grupos sobre o atentado que vitimou Marielle Franco, mais me abismei ao ler a crônica da semana de João Pereira Coutinho, Mãe Rússia.

“Na minha inocência, pensava que os brasileiros nostálgicos [da ditadura militar] eram gente de 70 ou 80 anos. (…) Que nada, (…) são gente que nunca viveu no regime militar. Os nostálgicos sentem nostalgia por algo que nunca conheceram.”

Um cronista do outro lado do oceano teve que vir me explicar as razões pelas quais, apesar de tudo que fizemos, não mudamos:

“… o entusiasmo pela extrema esquerda e pela extrema direita é coisa de jovens. Não apenas porque os jovens são mais impulsivos e ignorantes em assuntos políticos — porque as memórias do comunismo e do fascismo são inexistentes para eles.”

E são esses que exigem mais ou menos segurança com repressão ou trabalhos sociais de acordo com o lado que estão — enquanto o sangue corre, pois a realidade não se preocupa com o ponto de vista e as convicções ideológicas dos jovens impulsivos ou não.

O que falei nesse site sobre João Pereira Coutinho → ۞

 

Como o PCC chegou a outros países sul-americanos

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e sua estratégia de expansão e domínio do mercado transnacional de ilícitos (MTI) na América Latina baseiam-se no uso de mão de obra do sistema prisional.

 

A nistória se repete Centro de Rehabilitacion Santa Cruz Palmasola.jpg

Sem estresse, os negócios vão bem, obrigado.

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continua crescendo, com seus executivos desenvolvendo estratégias e conquistando novos mercados e seus funcionários seguindo motivados em todas as filiais em todos os estados e países.

Quem nos garante isso são os pesquisadores Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing no trabalho “Legitimacy in Criminal Governance: Managing a Drug Empire from Behind Bars”, o qual deverei apresentar aqui em breve.

O que falei nesse site sobre Graham Willis → ۞

Crimes transnacionais nos dias de hoje

Hoje, estou aqui para apresentar o livro Subsistemas fronteiriços do Brasil: mercados ilegais e violência (FLACSO), da pesquisadora Letícia Nuñez Almeida e colegas.

Não há como se estudar os crimes transnacionais do Cone Sul sem entender a facção paulista Primeiro Comando da Capital, e Letícia não se faz de rogada, analisando profundamente a origem e a história da gangue nascida em São Paulo.

As origens do PCC definiram seu presente

Fomos você e eu quem definimos a forma como as drogas e armas seriam hoje transportadas do exterior para dentro de nosso território, você se lembra?

Letícia deixa que Camila Caldeira Nunes Dias conte como a semente foi plantada no final de 1993, quando na Casa de Custódia de Taubaté (o Piranhão) os presos se reuniram para protestar contra a crueldade exercida pelos agentes penitenciários.

Talvez você, assim como eu, se lembre que nós entendíamos que preso tinha mesmo é que sofrer, e prisão deveria ter as piores condições de vida; mas, pensando assim, colocávamos no governo pessoas que também professavam as mesmas convicções.

A queda de braço entre governo e presos foi sangrenta, e forjou o espírito dos homens que tomariam em suas mãos, no futuro, o controle do tráfico internacional de drogas e armas — o embrião do PCC foram aqueles prisioneiros.

O que falei nesse site sobre Agentes Penitenciários → ۞

O crescimento acalentado pelo povo brasileiro

Camila conta que nos anos de 1994 e 1995 a base se solidificou graças a intensificação da repressão dentro do sistema carcerário — quanto mais dura se tornava a vida no cárcere, mais presos se aliavam à bandeira de solidariedade empunhada pelo PCC.

Camila Caldeira Nunes Dias PCC

“… as demonstrações de crueldade e de espetacularização da violência […] desempenharam uma série de funções na conquista e na manutenção do poder e do domínio do PCC sobre a população carcerária.”

Enquanto eu e você aplaudíamos as atrocidades que aconteciam dentro dos presídios, o Primeiro Comando da Capital ganhava adeptos fiéis entre a população carcerária, e esses passaram a atuar como soldados da facção dentro e fora dos presídios.

O que falei nesse site sobre Camila Nunes → ۞

O Primeiro Comando da Capital ganha moral e ruas

Entre 2002 e 2004, conquistaram a pacificação dentro dos presídios e começaram a disseminar a cultura de que os presos deveriam eleger um grupo mediador, capaz de estabelecer acordos e manter a paz dentro das muralhas.

Quando os presos deixaram de se enfrentar, ganharam força e organização para exigir do Estado melhores condições de vida dentro dos presídios.

A pena é longa, mas não é eterna, e, paulatinamente, os prisioneiros vão ganhando as ruas e levando consigo as técnicas de negociação, união e pacificação desenvolvidas pela facção dentro das muralhas — graças às escolhas que eu e você fizemos.

O que falei nesse site sobre os ataques de 2006 → ۞

O confronto fortalece o Primeiro Comando nas ruas

As novas lideranças são treinadas dentro das trancas e saem prontas para o gerenciamento do pessoal fora dos presídios. Os escritórios são as celas onde se discutem estratégias, mas a organização ainda tem dificuldade em conseguir adeptos nas ruas.

Nós, eu e você, não satisfeitos por termos criado uma organização estruturada dentro dos presídios, buscamos fortalecer a facção fora. A violência policial e os grupos de extermínio tinham amplo apoio, e jovens eram mortos às pencas.

Se faltava apenas uma razão para a facção justificar para seus membros uma ação contra o “Estado opressor e sua polícia”, nós a entregamos de bandeja, e a liderança do Primeiro Comando da Capital não perdeu a oportunidade e mandou seus soldados atacarem.

Os ataques do PCC de 2006 no estado de São Paulo ficaram registrados na história, mas não era esse não era o principal objetido da liderança, como conta Guaracy Mingardi:

Guaracy Mingardi

“Para todos no sistema, o recado é que o Estado não tinha forças para enfrentar o PCC. Isso aumentou o prestígio do grupo, principalmente, nos presídios e entre os jovens rebeldes da periferia.”

O que falei nesse site sobre o sistema carcerário → ۞

Ordem e Progresso — o céu é o limite

Como filhos, nós os trouxemos ao mundo e lhes mostramos o caminho a seguir, e se eles fizeram as escolhas que fizeram, não podemos nos eximir de nossas parcelas de culpa. O fato é que, crescidos, eles ganharam as ruas do Brasil.

Letícia explicou que o PCC cuidou de conseguir apoio dentro do sistema presidiário dos estados fronteiriços antes de cruzar as fronteiras, mas para isso precisaram de ajuda — e claro que eu e você não íamos deixar o pessoal do PCC na mão.

Lembra quando falaram em mandar para bem longe os prisioneiros que lideravam as revoltas? Nós aplaudimos e dissemos “amém”, e quanto mais longe fossem, melhor seria, não é mesmo?

Marcelo Batista Nery conta para Letícia que a consequência de nossa grande ideia foi o fortalecimento da posição do PCC dentro das trancas do Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia, nas fronteiras do Paraguai, da Bolívia, da Venezuela e da Guiana.

O que falei nesse site sobre as fronteiras → ۞

Do Brasil para o mundo

O processo foi o mesmo: das trancas para as ruas, e de lá para o domínio das rotas de importação de drogas e armas.

Essa semana, o ministro do governo da Bolívia Carlos Romero está levando seu país a trilhar o mesmo caminho que nós já percorremos — apoiando a invasão do Centro de Rehabilitacion Santa Cruz “Palmasola”, que deixou mortos e dezenas de feridos.

Na Bolívia e no Paraguai, o mesmo padrão que nós levamos o PCC a desenvolver está servindo para a implantação da facção: aproveitar a opressão dentro do sistema carcerário para conquistar seguidores que, posteriormente, representarão o PCC fora dos presídios.

Marcelo ressalta que hoje a facção paulista tem se mostrado forte o bastante para controlar o comércio de drogas e armas e até gerir atividades econômicas legais, abrindo empresas e usando-as para lavagem de dinheiro.

O que falei nesse site sobre a Bolívia → ۞

O Comando Vermelho (CV), de aliado fiel para inimigo mortal

Em um primeiro momento, o Comando Vermelho foi peça fundamental na estratégia de crescimento internacional do Primeiro Comando da Capital, mas a facção carioca via o Paraguai como fornecedor, enquanto a facção paulista criava raízes.

O PCC implantou a cultura da facção dentro dos presídios paraguaios e começou a doutrinar seguidores — por lá, ninguém imaginava que um grupo de presos poderia financiar os estudos de seus filhos, providenciar tratamento médico e alimentos para suas famílias.

Nas ruas, montaram suas próprias bases de distribuição, inicialmente por meio de parcerias locais, adquirindo aos poucos conhecimento e abrindo os próprios caminhos.

A estratégia do PCC de negociação e ingresso em novos mercados e comunidades se mostrou perfeita para o ambiente de fronteira, onde os marcos divisórios fincados entre os países e entre os diversos setores econômicos e sociais são mais fluídos e pouco claros.

Quando a estrutura estava sólida, a parceria com a facção carioca CV passou a ser um peso que precisou ser eliminado, e a guerra pelo monopólio foi iniciada com uma ação cinematográfica típica da facção 1533: o assassinato de Jorge Rafaat Toumani Letícia resume a história:

Letícia Nuñez Almeida.jpg

“É dessa maneira que o PCC adquiriu a liberdade necessária para fortificar as relações com os nós fronteiriços e as suas conjecturas, transformando, portanto, os sistemas carcerários em pontos intrínsecos às suas redes do mercado ilegal nacional e internacional.”

O que falei nesse site sobre o Comando Vermelho → ۞

Sem estresse: com ordem e progresso

Os escritórios do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continuam atuando, os executivos dos mais diversos níveis continuam com o desenvolvimento de novas estratégias e os funcionários continuam motivados em todas as filiais.

Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing explicam que dentro dos presídios e no meio de milhares de soldados prontos para serem doutrinados na filosofia e nas estratégias da organização fica fácil para as chefias da facção ficarem protegidas de seus inimigos e se dedicarem ao gerenciamento dos negócios da facção.

Se bem que eles não teriam chegado aonde chegaram se não fosse por mim, você e nossas grandes ideias e escolhas de política social, carcerária e de segurança pública.