Estou entre trocar umas ideias e matar um preto

A sociedade, em diversos momentos de sua história, fez escolhas, e o Brasil, neste momento, está fazendo uma ao optar pela intervenção militar como forma de combate ao crime organizado. Na prática, o que está ocorrendo?

facção PCC 1533 - Die Erhaltung der bevorzugten Rassen im Kampf.jpg

A antropologia do preto morto “kkk”

Não precisa ser um antropólogo ou um sociólogo para saber que a sociedade é dividida em grupos que têm apenas em comum o ódio por quem pertence a outro grupo, e as redes sociais são, atualmente, o principal meio de difusão dessas ideias.

Claro que, exceto eu, ninguém postaria “kkk mais um preto morto kkk” — todos são pessoas civilizadas. Mas tenho recebido notícias de dezenas de bandidos mortos pelas forças policiais nos últimos dias com “kkk” acompanhando.

Você também deve ter recebido, não? Legal, então busque no Google imagens de “bandido morto no Rio de Janeiro” e conte entre os cadáveres quantos são negros e pardos e quantos são brancos — cada um que clicar terá um resultado diferente, experimente o seu resultado → clicando aqui ←!

No meu caso apareceram 52 defuntos, 8 brancos e 44 negros e pardos. O que isso quer dizer? Que o negro é mais bandido que o branco, e, como “bandido bom é bandido morto”, é natural que surjam entre os resultados mais negros e pardos do que brancos (kkk) — ou será que existe outra explicação para esses números?

Uma antropóloga e um cronista me ajudaram.

Duas pessoas levantaram essa questão: Karina Biondi, no artigo “Uma ética que é disciplina: formulações conceituais a partir do ‘crime’ paulista”, e João Pereira Coutinho, com a crônica “Foi o elitismo de Winston Churchill que derrotou Hitler, não o seu populismo”.

A História se repete bem em frente aos nossos olhos.

A soma dos dois textos e as fotos que têm circulado nas redes sociais me levam a crer que estamos hoje repetindo o momento histórico narrado por Coutinho, no qual Churchill se contrapôs ao Lord Halifax e a Neville Chamberlain.

Naquele tempo havia dois grupos, um que pretendia seguir negociando e buscando soluções que evitassem o confronto com um povo que foi oprimido pelo Tratado de Versalles, empobreceu e lutava por sua sobrevivência.

Uma guerra contra a Alemanha significaria matar milhares de pessoas inocentes no país e que não mereciam ser sacrificadas por viverem em uma região dominada por alguns criminosos.

É um crime contra o estudo da história comparar duas realidades em dois momentos históricos diferentes e em duas sociedades distintas e tentar fazer uma análise — mas será mesmo?

Nós somos como os ingleses, só não sabemos disso.

Boa parte da população brasileira, hoje, está reagindo da mesma forma que a maioria dos britânicos reagiu naquele tempo — preferindo medidas policiais investigativas e ações sociais sem intervenção militar.

Uma intervenção militar nas favelas cariocas significaria matar centenas de pessoas inocentes que não merecem ser sacrificadas por viverem em uma região dominada por alguns criminosos.

O pesquisador canadense Graham Denyer Willis, afirma que esse tipo de ação reforça ainda mais a subvalorização, dentro da polícia, dos agentes que trabalham na investigação dos homicídios…

“…porque as vidas que investigam em geral não têm valor, são pessoas de partes pobres da cidade [já] os batalhões especializados em repressão, como a Rota e a Força Tática da Polícia Militar têm carros incríveis, caveirões, armas de ponta. Isso mostra muito bem a prioridade dos políticos, que é a repressão física a moradores pobres e negros da periferia. Não é investigar a vida dessas pessoas quando morrem.”

Churchill, ao contrário da maioria pacífica da população britânica, apostou na guerra, no enfrentamento armado, com batalhões especializados, táticas militares, tanques de guerra, armas de ponta, e com milhares de inocentes morrendo — mas derrotou a Alemanha e se tornou herói.

Temer e aqueles que optaram por apoiar as ações militares seguem essa mesma linha de raciocínio e, se forem vitoriosos, serão lembrados pela história como tendo sido aqueles que ousaram enfrentar o Crime Organizado de frente.

As redes sociais e a rede social da facção PCC 1533

Imagino que se na Segunda Grande Guerra houvesse redes sociais, os americanos estariam postando foto dos garotos alemães e japoneses mortos durante as batalhas acompanhados dos três potássios: kkk, assim como os alemães dos judeus no campo de concentração com a frase “um lixo a menos kkk“, mais ou menos como acontece hoje.

Mas que alternativa tiveram aqueles que morriam — não importa kkk!

Karina Biondi, por outro lado, mostra como a situação é muito diferente nos domínios do Primeiro Comando da Capital.

Até o final do ano passado era proibido o uso de armas nas biqueiras paulistas, e ostentar arma na comunidade era o mesmo que assinar uma sentença de morte.

Todos os problemas são resolvidos dentro de uma estratégia de negociação, a chamada “troca de ideia”, e mesmo o que corre pelo errado tem chance de se explicar e se adequar para ficar dentro da ética da comunidade.

Ética do Crime — por favor, se não concorda com o termo leiam os trabalhos de Biondi e mandem as críticas para ela, aqui eu apenas apresento a todos, que podem concordar ou não com o uso.

A forma de agir da facção paulista é algo que qualquer cidadão branco, intelectual e iluminista diria que é como o Estado de Direito deve agir para manter a paz social, se contrapondo à política de invasão militar.

No artigo “A ocorrência de homicídios no município de São Paulo: mutações e tensões a partir das narrativas de moradores e profissionais” afirma que a partir dos anos 2000 com o estabelecimento do Primeiro Comando da Capital nos bairros periféricos paulistas:

“… a redução[da taxa de homicídios] ocorreu de forma generalizada, ou seja, em todos os grupos etários, de cor e sexo, bem como em todas as áreas do município de São Paulo, classificadas conforme diferentes graus de exclusão social. Contudo, foi ainda mais acentuada entre a população masculina, entre jovens (de 15 a 24 anos) e moradores de áreas de exclusão social extrema.”

A história mostra que não existe certo ou errado, apenas pontos de vista opostos, que serão louvados ou condenados pela história, enquanto a nós cabe apenas aplaudir a morte dos pretos e pardos ou nos contrapor ao genocídio seletivo, deixando para o futuro o julgamento de nossos atos baseados na lógica do vencedor.

Policiais infiltrados entre os Pretos e os Pobres

Não passa de preconceito considerar como organizações criminosas apenas as facções, como o Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e o Comando Vermelho (CV).


O conceito de crime organizado mudou. Sou do tempo em que apenas eram presos os 3Ps: preto, pobre, e puta. O tempo passou, e agora podemos afirmar que aumentou a quantidade de Ps, que passou a incluir policiais e políticos. Para alguns isso é um sinal de evolução, mas para mim isso é apenas uma verdade parcial.

A Polícia Federal está me fazendo acreditar novamente no Brasil ao incluir na listagem o P dos políticos. Mas nós, como povo, não nos acostumamos a pensar fora do antigo 3Ps. Um exemplo é o artigo Infiltração Policial à Luz da Nova Lei Nº 12.850/2013 de Organizações Criminosas, de Raquel Corrêa Netto Ribeiro, que destaca os principais pontos da lei, e serve para quem quer conhecer um pouco sobre esse assunto.

Em seu estudo, a pesquisadora ressalta a importância da ferramenta jurídica para vencer os pretos e os pobres do Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Li com cuidado o texto no Jornal Eletrônico das Faculdades Integradas Vianna Júnior, e a acadêmica repete de forma reduzida o que é publicado há tempos por outros, sem nada acrescentar.

Há algum tempo postei um texto intitulado No Brasil existem policiais infiltrados no crime?, no qual exponho e convido o leitor a conhecer o trabalho de Mariana Fávero Rodrigues. Ela conta como funciona esse tipo de ação policial e esmiúça a Lei 12.850/13, o trabalho da advogada, foi bom para aquela época, um Brasil pré-Lava Jato — ainda sem a releitura da lei feita pela Polícia Federal.

O empresário Joesley Batista contou que o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardoso se arrependeu da aprovação da Lei 12.850/13, que foi, antes, uma vitória dele e do governo Dilma Rousseff, e que hoje é usada na Operação Lava Jato em processos contra políticos. Esse é o Brasil pós-Lava Jato, e é neste contexto que Raquel Corrêa publicou o estudo.

Já, o ex-secretário de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT), Rogers Jarbas, foi a imprensa indignado que devido a Lei 12,850/13 foi jogado na cela junto com membros do PCC e do CV, o que não pode ser verdade, pois ambos não convivem no mesmo ambiente, são como fogo e água, sabe. Mas se as facções são mantidas separadas, a que ele fazia parte também teria esse direito.

E justamente por estarmos dentro deste contexto, que me decepcionou ver que o artigo ainda está focado na caça ao antigo 3Ps — parece que só a Polícia Federal percebeu que os Políticos podem ser incluídos nessa “regra”, pois a pesquisadora nem aventou esta possibilidade. O tempo está provando que o sempre sábio Antonio Carlos Jobim tinha razão: O Brasil não é para Principiantes.

Legalizar as drogas: sim ou não?

Policiais e bandidos concordam pelo menos em uma coisa: as vendas de drogas devem ser proibidas e combatidas, mas há presidentes americanos que discordam — qual a posição da facção paulista Primeiro Comando da Capital?

Liberar ou combater as drogas e a maconha e a facção PCC 1533

Perguntaria para o Marcola em Venceslau sobre essa questão, mas ele não atende ao celular, e está certo ele — então como posso saber qual a posição do Primeiro Comando da Capital, a facção PCC 1533, em relação a legalização das drogas?

Para infelicidade daqueles que trabalham com jornalismo, todas as fontes tem que ser conferidas para não cair em descrédito, mas, para minha felicidade, no mundo das crônicas é diferente.

Na semana que passou, trombei com uma publicação sobre segurança internacional da Conferência do Forte de Copacabana, organizada em conjunto pela Fundação Konrad Adenauer (KAS) e pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), com apoio da Delegação da União Europeia no Brasil:

A visão sul-americana para uma melhor colaboração entre a América do Sul e a Europa contra o Tráfico de Drogas

Thiago Rodrigues e Carol Viviana Porto foram os autores do artigo que, pelo menos para mim, suscitou uma dúvida: Como os traficantes e os líderes do crime organizado analisam a questão da liberação do uso das drogas?

Posso não ter certeza do que Marcola pensa sobre esse tema, mas três presidentes americanos se manifestaram sobre a política de repressão às drogas: Nixon, que considerou que a guerra contra as drogas era um grande fracasso; Obama, que a considerou inútil; e Carter que disse que a punição excessiva destruiu a vida de milhões de famílias.

No Brasil, jogamos no campo da ideologia questões técnicas, e abandonar a atual política de repressão e encarceramento na questão das drogas é um desses exemplos — coisa de comunista e de moleques nóias — mas qual dos dois casos se encaixam então os presidentes americanos Nixon, Obama e Carter?

E no Brasil — Lula e Dilma?

Ambos são assumidamente pessoas ligadas a “esquerda”, e no período de governo dos dois houve uma aceleração dos encarceramentos e do combate as drogas. Se levarmos em conta apenas os fatos aqui citados, veremos então que à “direita” representada pelo ponto de vista dos presidentes americanos é a favor do abrandamento, e a “esquerda” prefere prender os envolvidos.

Mas isso é puro sofisma!

Sabemos então o que pensam cinco presidentes, mas e Marcola, os traficantes e os líderes do crime organizado? Os garotos do corre, a ponta mais conhecida do tráfico, dão de ombros, não pensam sobre isso, os gerentes de biqueira não esquentam, sempre se viraram e sempre se virarão, e a cúpula? É fácil supor ao ler o artigo de Thiago e Carol:

O atual sistema de repressão ao tráfico de entorpecentes nos Estados Unidos não diminuiu o consumo naquela nação, mas impediu que se produzissem as drogas, permitindo rápida expansão das áreas cultivadas e da industrialização dos produtos para suprir o mercado americano — PCC, CV, FDN, GDE, SCRN e ADA agradecem.

O tempo para o amadorismo passou e o sistema de repressão ao tráfico de entorpecentes obrigou a criação de organizações criminosas com uma intrincada estrutura dentro do território brasileiro e com ramificações internacionais:

  • produção das folhas — Peru e na Bolívia;
  • produção da pasta e distribuição internacional — Colômbia;
  • entrepostos — Caribe, Canárias, Madeira, Guiné-Bissau, Guiné e Costa do Marfim;
  • portos — Galícia, Marselha e Nápoles; e
  • sistema financeiro — China, Uruguai e Caribe.

Enquanto a polícia posta foto de trinta tubetes formando a sigla PCC acompanhada da frase “dando prejuízo ao tráfico”, o mundo gira, a imprensa tem matéria para postar, um outro garoto vai substituir na biqueira aquele que foi levado pela polícia para fazer a doutrinação nas regras da facção dentro do sistema prisional, e o cidadão se sente mais seguro.

Só que a estrutura se fortalece e se profissionaliza ainda mais.

Para infelicidade daqueles que trabalham com jornalismo, todas as fontes tem que ser conferidas para não cair em descrédito, mas, para minha felicidade, no mundo das crônicas é diferente. Eu posso afirmar que Marcola, os traficantes e os líderes do crime organizado analisam a questão da liberação do uso das drogas como sendo prejudicial aos seus negócios — sem ter que perguntar a eles.

Thiago e Carol, em seu trabalho, fazem uma análise do fluxo internacional da cocaína e das metanfetaminas e da política de drogas na América do Sul e as suas consequências no número de homicídios com um quadro comparativo por país, além de uma análise da tendência de combate às drogas em países da União Européia e no Uruguai.

Os dois pesquisadores, o Uruguai e a Europa, estão buscando outras formas de resolver a questão das drogas, sem se preocuparem com o que o policial, você, eu ou Marcola pensamos a esse respeito — é um absurdo!

As razões pelas quais o PCC nunca será vencido

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é a ponta do iceberg de uma sociedade que se curva ante a inconfessável força do lobby dos advogados para que o crime não diminua.

Marcola do PCC para presidente - Santo Ivo apoia.jpg

Santo Ivo é o padroeiro dos advogados, e assim como ele, eu também tenho formação franciscana herdada de minha avó materna, mas não é só isso que nos aproxima: eu devo à classe que ele representa e protege a razão de ser deste site — parte de minha vida foi sustentada graças a existência da laboriosa classe dos causídicos.

O imortal da Academia Saltense de Letras, o mestre dos advogados ituanos, o Dr. Nicodemos Rocha foi sem dúvida o meu maior incentivador. Ele nunca me elogiou, pelo contrário, seus constantes questionamentos e críticas que me incentivavam — ele dizia que eu, mesmo depois de analisar todos os fatos, conseguiria chegar à conclusão mais errada possível.

O Primeiro Comando da Capital é a maior e mais estruturada organização criminosa das Américas graças à classe dos advogados. Não falo daqueles que foram pegos na Operação Ethos que desarticulou a Sintonia dos Gravatas, não, mas daqueles que mantêm o emaranhado legal que foi construído para sustentar essa classe laboriosa.

Elvis morreu, a maioria dos brasileiros nunca ouviu nenhuma de suas músicas. Michael Jackson está morrendo também, na medida que a geração que o conhecia e admirava está envelhecendo e morrendo, mas João Pereira Coutinho mostra o porquê de Che Guevara continuar vivo, e a razão é a mesma pela qual Zumbi, e o PCC jamais deixarão de existir:

“Eles tem sangue verdadeiro para mostrar”

“É um erro afirmar que os ‘intelectuais revolucionários’ que admiram Che Guevara continuam a prestar-lhe homenagem apesar da violência e do crime. Pelo contrário: a violência e o crime estão no centro dessa homenagem. Che sobrevive porque foi capaz de ser o ‘anjo exterminador’ que todos eles sonharam e não conseguiram.”

Em um processo criminal, todas as provas a serem apresentadas já estão postas no dia da audiência de custódia, mas para que muitos empregos se sustentem é necessário que um processo que durará anos e sustentará muitas famílias seja seguido. Sob o falso manto de que estão protegendo os inocentes, os advogados exploram as famílias dos presos.

Para criar um sistema penal mais humano chamamos a OAB para ajudar na confecção das regras. Fala sério, é como chamar o PCC para discutir os limites legais das forças policiais! É isso! Talvez essa seja a solução, lancemos Marcola como candidato à presidência do Brasil!

Peço que você me ajude a achar o erro na minha linha de raciocínio: Marcola já tem “sangue verdadeiro para mostrar”, o que demonstra que ele sabe usar a força… Marcola criou e desenvolveu uma organização que, apesar de toda sociedade organizada se opor, está presente em todos os estados brasileiros e em mais seis países, o que demonstra capacidade administrativa…

O Dr. Nicodemos Rocha dizia que eu, mesmo depois de analisar todos os fatos, conseguiria chegar à conclusão mais errada possível — bem, talvez seja esse o caso, e como ele não está aqui para chamar minha atenção, estou pedindo a você que o faça, mas, por favor, faça-o com inteligência, como ele o fazia, apontando exatamente qual foi o erro do meu raciocínio.

Se não o fizer, você concorda que estou certo ao imaginar que, sendo o PCC imbatível na guerrilha urbana e tendo o apoio do sistema político dominado pela OAB, só faltaria ajuda divina para garantir a imortalidade da facção paulista — mas quanto a isso, bem… Santo Ivo pode ajudar a proteger e interceder por nós: “se Deus for por nós, quem será contra nós?”.

A produção universitária não acompanha a realidade

A evolução das facções criminosas e o Dr. Robert Muggah


Pós-escrito: Demorei algumas semanas entre o começo e a conclusão desse texto, e a estrutura do crime organizado que existia quando comecei desmoronou e outra a substituiu, e quem eu dizia estar desatualizado passou a estar atualizadíssimo, e eu estou agora totalmente perdido.

̶Ͽ۞Ͼ̶

Se navegar é preciso, que naveguemos em águas tranquilas. Se a busca pelo conhecimento é fundamental para desenvolvermos uma sociedade segura, com justiça e desenvolvimento social, que busquemos isso em um site que nos dê prazer durante a navegação, e Carlos Coutinho conseguiu isso ao desenvolver esse ambiente para o site do Instituto Igarapé.

O canadense Dr. Robert Muggah é o diretor de pesquisa e coordenador do Programa de Segurança Cidadã do Instituto, e autor do artigo A state of insecurity: the case of Rio de Janeiro publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP Araraquara — cujo texto me chamou a atenção menos por seu conteúdo do que pelo envelhecimento de seu conteúdo.

Se você busca um conhecimento básico sobre o que se passa na segurança pública do Rio de Janeiro, em um texto em inglês, vale a pena a visita, mas se sua intenção for ter uma base sólida ou conhecimento atualizado, neste caso sugiro que procure outras fontes, que estão disponíveis aos montes, em português.

Dr. Robert Muggah não é culpado de ter sido comido pelo tempo, essa é uma característica de quase todos os artigos acadêmicos que se arriscam a analisar a segurança pública carioca contemporânea. Robert cita fontes e dados coletados na segunda metade de 2016 para um artigo publicado na primeira metade de 2017, mas está ultrapassado.

Seu campo de pesquisa é o Rio de Janeiro, e cita no artigo que atuou dentro da máquina de segurança pública carioca, através do Instituto Igarapé, sendo assim, não consigo entender como ele não deixou claro a aliança feita pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) como a facção Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando dos Amigos (TCA).

O que falamos aqui sobre o Rio de Janeiro → ۞

Ressalto que o problema não está no autor do artigo ou no centro acadêmico que o publicou, mas no processo que é utilizado para a produção e publicação de conhecimento nas universidades que, exigindo comprovação científica, tornam tão lento quanto seguro o processo de coleta, compilação e análise de dados.

O resultado desse processo permite devolver metodologias que contribuam para oferecer alternativas às políticas públicas, que depois de discutidas com a sociedade, poderão ser paulatinamente implementadas, mas isso é só na teoria, pois quando o assunto são as facções criminosas, quando o processo chega a termo, a realidade já é outra.

Há quatro semanas, quando li o artigo de Robert, para escrever este texto, achei que ele estava desatualizado. O PCC era há tempos aliado do ADA, e estava mandando soldados e equipamentos para ajudar na consolidação da facção carioca na Rocinha — com o TCA e o TCP (Terceiro Comando Puro) correndo juntos. Robert claramente estava desatualizado!

Há duas semanas, quando reli o artigo, achei que talvez o pesquisador não havia citado a parceria do PCC com o ADA e o TCA por não estar muito claro o resultado dessa aliança. A situação na Rocinha se tornava incerta, e as milícias que não haviam entrado no conflito colocaram suas peças na mesa. Robert claramente havia preferido não se arriscar!

Hoje, ao reler o artigo de Robert, vejo que ele está correto. O PCC teve no passado um aliado forte no Rio de Janeiro chamado ADA, e chegou em determinado momento a formar junto como o TCP uma tríplice aliança chamada TCA, que terminou devido ao arraigado preconceito carioca contra os paulistas e a derrota do ADA na Guerra da Rocinha.

Robert claramente não citou a união ADA – PCC – TCA pois ela foi coisa do passado, ele está corretíssimo!

Nem posso imaginar como estará a situação no Rio quando você estiver lendo esse texto.

O que falamos aqui sobre o ADA → ۞

Radicais afirmam que devemos ignorar as características individuais das facções criminosas quando desenvolvemos ações para seu combate. Isso já foi experimentado no passado sem sucesso, agravando o problema, mas talvez não tenhamos outra solução: ou colocamos mais agilidade nos remos ou teremos que navegar sem leme, ao léu dos ventos e das correntes, torcendo para chegarmos, com sorte, a um porto seguro.

O exército de 200 mil homens da facção PCC 1533

é verdade 200 mil soldados facção pcc 1533

PCC, onde estão, quantos são, e qual sua força?, este foi o título de um artigo que publiquei no início do ano passado — sua base foi um levantamento feito pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, muito coerente com a realidade das ruas e, sendo assim, o comparei com o mapa do sistema carcerário e o publiquei.

Confio no número passado pelo MP-SP (20 mil — 2016); também creio no resultado dos levantamentos de órgãos de segurança pública (40 mil no início de 2017 com expectativa de 80 mil para o encerramento do ano); e abono a quantidade apontada pelo Gabinete de Segurança da Presidência da República (200 mil) — também acredito no site DefesaNet quando informa que o total do efetivo das forças armadas não chega a 30 mil homens.

Acesso para a página de Estatísticas → ۞

A que ponto chegamos?

Considerando uma taxa de dependentes de 50% e de desemprego de 10%, e levando em conta que o Brasil possui 200 milhões de habitantes, concluímos que o Gabinete da Presidência trabalha com a possibilidade de que o Primeiro Comando da Capital sustente de maneira direta 320.000 habitantes.

Não fique aí só lendo — veja se tem lógica pelo que você conhece da sua cidade.

Corte três zeros do número de habitantes do seu município ou bairro……
Salto de Pirapora SP (40.132 = 40)
Sorocaba SP (586.625 = 586)
Campinas SP (1.080.113 = 1080)

… Lembre dos pontos de vendas de drogas, calcule dois por biqueira. Veja, esse é só um chutão, pois existem biqueiras que nem tem envolvidos com o Comando, por outro lado alguns tem vários, assim como tem aqueles que não se dedicam ao tráfico como os assaltantes, e tem aqueles que nem aparecem nas ruas, cuidando do administrativo, o operacional, e outros profissionais.

Sorocaba coloquei como exemplo propositalmente — apenas uma das unidades prisionais abriga outras facções, e são milhares de presos nas unidades PCCs. Não estou tentando provar que o número do Gabinete de Segurança da Presidência da República é válido ou não — essa parte estou deixando para você fazer, e caso queira, me diga a que conclusão chegou.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, afirmou que ele e a facção paulista não chegam aos pés do que a imprensa pinta, e em 2017, em duas ocasiões, il capo ma non troppo do PCC 1533 provou estar certo — mas não se engane, não vim aqui para criticar a mídia, mas, sim, para fazer um mea culpa: Pater, peccavi, pois me calei diante da injustiça.

O que falei neste site sobre Marcola → ۞

Por trás do silêncio existe um ser dizendo que é melhor do que o outro porque não falou ou expressou tamanha barbaridade. Isso é a arrogância do silêncio… Eu sou melhor do que ele porque não falo tantas besteiras! Talvez o indivíduo possa ser um falastrão, mas ele tem a sinceridade e a sensibilidade para expor quem ele é e não esconder sua arrogância por trás do silêncio. Bispo Sérgio Correia

Em uma das ocasiões, foi apresentado um plano de fuga para o Marcola quando até as pedras sabiam que a estratégia não seria essa, mas a outra situação foi ainda mais inusitada.

O repórter Flávio Costa publicou o artigo Em guerra contra rivais, PCC afrouxa regras de “batismo” para ter cada vez mais membros, no qual torna pública a campanha para o ingresso de novos membros para a facção, mas, ao contrário do que afirmou, a razão principal para o recrutamento é econômica, e não para aumentar o poder ofensivo.

Não é necessário ser um irmão batizado para ser enviado para as zonas onde o PCC está em guerra com o Comando Vermelho (CV), a Família do Norte (FDN) e o Sindicato do Crime do Rio Grande do Norte (SDC RN) — companheiros, aliados e até simpatizantes podem lutar e morrer, mas contribuir para o caixa da facção é só para os irmãos.

O que falei neste site sobre o Comando Vermelho → ۞
O que falei neste site sobre a Família do Norte → ۞
O que falei neste site sobre Sindicato do Crime → ۞

O sol nem se tinha posto no dia em que a matéria foi publicada e o site amazônico Brasil Norte Comunicação (BDC) aproveitou a chance para colocar uma chamada para a matéria, destacando a criação de um “exército” do crime: PCC cria exército para enfrentar FDN e novo massacre é ameaça.

O sol nem havia nascido novamente e o exército do crime, que foi criado a poucas publicações, duplicou na manchete do site português Jornal de Notícias: Grupo criminoso duplica “exército” para enfrentar guerra com rival em 2018.

Os repórteres Clayton Neves e Arlindo Florentino, do site MidiaMax, foram atrás da informação e produziram o sóbrio artigo Cada vez mais presente em Mato Grosso do Sul, PCC faz mutirão de filiações — foi a última reportagem que se pôde levar a sério sobre o assunto, as demais ou replicaram, ou acrescentaram mais pontos ao contar o conto.

Esta manhã acordo com essa manchete no Estadão, Uso do Exército para combater o crime nos Estados cresce pelo menos 3 vezes, na qual o repórter Marcelo Godoy expõe os dados que coletou sobre a utilização das forças armadas como ferramenta complementar das forças de segurança pública.

Gato escaldado tem medo de água fria, e eu gelei…

Em determinado ponto da reportagem, Godoy entrevista o cientista político Eliezer Rizzo de Oliveira, que afirma que o Gabinete de Segurança Institucional estima em 200 mil só os adeptos do Primeiro Comando da Capital (PCC) no País.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, tinha razão, o diabo talvez não seja tão preto quanto o estão pintando, mas desta vez, ao menos, não terei que vir até você para fazer um mea culpa: pois diante do perigo eu venho trazer o alerta e o esclarecimento:

Existem, sim, 200 mil pessoas envolvidas ao PCC no Brasil, que não formam um exército, muito longe disso — esse número compreende batizados e companheiros, se acrescentarmos aliados e simpatizantes, talvez esse número dobre, se acrescentarmos inimigos e criminosos sem camisa que aceitariam participar de ações, talvez esse número quadruplique, mas…

… nem esquenta, qualquer coisa é só colocar os 30 mil homens das forças armadas nas ruas, 20 mil se tirarmos os administrativos e os impossibilitados de ações de campo, 10 mil se tiramos os que tem que manter os postos e quartéis seguros e os que cuidam da logística e, no fim, se não errei nas contas, seria algo como dois soldados para cada cidade do país.