É TD3 passa nada, afirma o Estadão.

Márcio Sérgio Christino conta que o PCC sabe que existe uma lacuna de organizações criminosas na América latina, e que se aproveitará das crises em países vizinhos, como a Venezuela e Bolívia, para preencher este espaço.

Integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a cooptar venezuelanos que entraram no Brasil em busca de uma vida melhor, mas que foram presos por crimes comuns, como roubo de celulares. A situação é verificada na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc), a maior do Estado de Roraima. O procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino, que estuda a atuação do PCC, diz que o objetivo do grupo é se tornar o primeiro cartel brasileiro internacional, e para isso, precisa estender suas raízes na América do Sul. No entanto, o membro do Ministério Público de São Paulo lembra que uma vez dentro da organização, os venezuelanos não poderão mais sair.

Onde citei neste site o Ministério Público de São Paulo MP-SP → ۞

O Governo perdeu o controle dos presídios?

A formação e o fortalecimento das facções dentro dos presídios brasileiros são consequências das práticas de negociação entre os agentes do Estado e as comunidade carcerária.

Facção pcc 1533 o autogoverno dos pretos e pobres

A revolta dos Guardiões do Estado (GDE 745)

É fácil ficar berrando que não se negocia com preso, mas Anália e Wellington já haviam avisado: a coisa não é bem assim.

Ceará news incêndio em Cariri GDE 745Com doze agentes penitenciários para gerir mais de mil cativos na Penitenciária Industrial e Regional do Cariri (PIRC), o Estado deveria se colocar em seu lugar, e fazer o que tem feito desde os tempos da Colônia: garantir a governabilidade através da negociação.

No entanto, o governo preferiu pagar para ver, endureceu as regras, e os aliados do Primeiro Comando da Capital, a facção cearense Guardiões do Estado, mandaram um recado: “devagar com o andor que o santo é de barro!”, e atacaram prédios públicos no Cariri, em Juazeiro do Norte.

A polícia prendeu alguns dos integrantes do GDE 745 que participaram da ação, mas o prejuízo para os cofres públicos, a sensação de insegurança transmitida para a população, a impunidade dos líderes criminosos e a impotência do Estado ficaram.

O que você sabe sobre o controle do Estado?

Você, assim como eu, talvez se pergunte se o governo perdeu o controle sobre o que acontece dentro dos presídios. Lamento dizer, mas Analía e Welliton afirmam que nós nem temos chance de entender o que está realmente acontecendo.

Se for esse seu caso, assim como é o meu, sugiro que, assim como eu o farei, volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news.

Os sociólogos Analía Sória Batista e Welliton Caixeta Maciel desconstroem o conceito de controle social exercido pela sociedade no artigo Prisão como gueto: a dinâmica de controle e de extermínio de jovens negros pobres, publicado pela UNESP.

Nós, pelo menos foi a impressão que tive ao ler o texto, vivemos em um mundo imaginário, acreditando no coelhinho da Páscoa, no Papai-Noel e na aplicabilidade do Positivismo e dos ideais iluministas de Rousseau.

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O sangue lusitano corre em nosso tecido social

Você se lembra de Ganga-Zumba? Eu nunca tinha ouvido falar, mas era ele quem controlava o Quilombo dos Palmares e, quando viu que a casa ia cair, fez um acordo com a Coroa Portuguesa para evitar o massacre. Não me acuse de spoiler, você já sabe que deu errado, o sobrinho dele, chamado Zumbi, recusou o acordo e o resultado foi uma carnificina.

Faz parte da cultura lusitana de base católica, herdada por nós, evitar o quanto possível a interferência armada do Estado nos conflitos. Não que os lusos tivessem uma queda nata e à frente de seu tempo para o liberalismo, mas conheciam as limitações do aparelho repressivo de seu Estado.

Enquanto as outras nações europeias começavam a discutir se o poder dos nobres adivinha do poder de Deus, Portugal já tinha um Estado constituído e contato com pessoas de todo o mundo, adquirido por meio das navegações marítimas.

Sobreviver no canto do continente europeu fez daquele povo especialista em conhecer seus limites. Negociar com o outro foi uma ferramenta de sobrevivência trazida para as terras brasileiras, algo visto nas tentativas de barganha com os revoltosos de Palmares.

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O habitus de relacionamento entre Estado e sociedade

Sei que o mundo ideal é aquele baseado no neoliberalismo, afinal, procuro ser uma pessoa politicamente correta, e hoje o correto é defender as ideias liberais, principalmente no que tange a vida dos outros.

Pressiono o governo para que me garanta aposentadoria, saúde, segurança, educação e infra-estrutura, mas defendo que o Estado deve interferir minimamente em minha vida — quanto maior for meu poder de influência, mais conquistas terei.

Os governantes nada mais fazem que gerir os interesses diferentes, pressionados pelos mais diversos grupos sociais, e nosso sangue lusitano entra em ação para manter a governabilidade, atendendo, na medida do possível, a todos.

Quanto maior é a capacidade do governante de fazer o controle social por meio da autogestão das diversas comunidades sob seu julgo, melhor será seu resultado administrativo e de manutenção da paz — foi assim na Colônia e é assim hoje.

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Evitando o ponto de ruptura

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Zumbi, que assumiu Palmares e resolveu que a liberdade não se negocia. Por sua vez, os portugueses mandaram Domingos Jorge Velho até lá, que arrasou a vila. À custa de muito sangue, para os dois lados, Zumbi se tornou herói e Palmares um símbolo.

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Fleury, que assumiu o governo e resolveu que não se negocia com presos amotinados. A história se repetiu, e o Cel. Ubiratan arrasou o Carandiru. Dessa vez, também à custa de muito sangue, nasceu o Primeiro Comando da Capital, e Marcola se tornou herói e o PCC um símbolo.

Analía e Welliton analisam as dinâmicas de violência e de negociação entre o Estado e as facções criminosas, levando em conta os complexos processos sociais de produção, controle social e manutenção que formam os guetos — a lógica vale tanto para os atuais presídios, as regiões periféricas e as ocupações urbanas e rurais quanto para os antigos quilombos.

Todos nós estamos o tempo todo sob o julgo do Estado, que interfere de forma abstrata e generalizada em nossas vidas, impondo sua autoridade, e assim também ocorre dentro dos guetos — Zumbi e Fleury optaram quebrar o equilíbrio cada um por um lado e ao seu tempo.

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O controle do estado sobre a massa carcerária

Os meios de comunicação e os políticos defendem soluções fáceis e aceitas pelo público, e o presídio sob controle total dos agentes penitenciários faz parte dessa plataforma, alternativa que tem, no mundo real, tanta chance de se concretizar hoje como se tinha no século XVII.

Quando a facção paulista Primeiro Comando da Capital utiliza os presídios como centros de operações internacionais, fica claro que o Estado perdeu autoridade, no entanto, a pacificação do no sistema prisional prova que o Estado se mantém no controle.

O autogoverno carcerário é responsável por evitar fugas e garantir o retorno das saidinhas e a vida e a segurança de funcionários e sentenciados nos presídios — ou alguém imagina que um preso estuprado, roubado ou ferido por outro preso vai chamar o carcereiro e pedir para ir para a delegacia de polícia para fazer um boletim de ocorrência?

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Abandonando o moralismo para entender o mundo real

Analía e Welliton apresentam números que demonstram que a estrutura social vigente nos presídios, periferias e ocupações contemporâneas foram edificados a partir das décadas de 1970 e 1980, com o envio seletivo de negros pobres para o encarceramento.

Nas décadas seguintes, acrescentou-se ao ambiente prisional jovens, quase sempre pobres e negros com envolvimento com o tráfico de drogas, que traziam consigo das ruas experiência de guerra entre gangues pelo domínio de biqueiras.

A violência e a crueldade sempre existiram dentro das prisões, mas eram atos de desajustados violentos, repudiados e temidos pelos demais; agora, essas forças são organizadas, aplicadas pelos soldados do tráfico sob liderança.

A massa carcerária ganhou um autogoverno com seu próprio sistema de segurança pública, com organização, liderança e aceitação na comunidade que representa, e o Estado Constituído assistiu, depois de cinco séculos, à chegada da paz nos cárceres.

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Em um eterno movimento pendular

As chacinas dentro dos presídios do Norte e do Nordeste e a queda de braço entre os aliados Guardiões do Estado e o governo provam que nem tudo são flores nesse processo. O custo da paz pode ser muito violento, e sua estabilidade depende do uso da força e da negociação, e nunca será definitiva ou terá limites bem delineados.

A mídia, em busca de espetáculo, cobra das autoridades uma maior presença do Estado no controle do dia a dia carcerário, assim como alguns políticos que visam lucro eleitoral. No entanto, a realidade é que o governo não tem condições efetivas de gerir essa questão — alguns acreditam que com a privatização dos presídios, quem sabe?

Em Portugal do Século XV, já analisava-se a capacidade real de ação do Estado. Eles agiam por pura emoção, e o mais incrível é que os antigos lusos ainda sequer tinham recebido as luzes do Iluminismo e do Racionalismo.

Por isso, sugiro que você faça como eu: volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news, em que nossos amigos neoliberais e progressistas podem demonstrar para seus iguais que têm razão, sem se preocupar com a opinião de Analía e Welliton.

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A capital do Primeiro Comando é no interior

A região é um ponto estratégico, caminho entre os países produtores da droga – Colômbia, Bolívia, Peru – de um lado, e os grandes centros de consumo, São Paulo e Rio de Janeiro, de outro.

A rota das drogas pelo interior do brasil a rota caipira

Estranhos caminhos, trilhas e matas

A visão que a polícia e a sociedade tem do integrante da facção Primeiro Comando da Capital foi construída pela mídia e pelo preconceito social — isso não é uma crítica, apenas uma constatação.

Não venha você reclamar comigo, procure Allan de Abreu e questione sobre o que ele publicou na obra “Cocaína. A Rota Caipira“, onde desvenda de maneira sutil o esquema de tráfico da facção paulista.

Allan não se satisfez fazendo apenas um levantamento do que acontece, ele estudou a fundo a história do narcotráfico no estado de São Paulo — surgimento, desenvolvimento, e internacionalização.

Como ele conta, a malha se espalhou pelo interior mineiro, e hoje, sabemos pela imprensa, já movimenta milhões no Mato Grosso do Sul, Goiás e pelo interior de diversos estados dentro da rota de tráfico.

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Dos países produtores ao consumidor

O pesquisador não deixou de seguir a rota, da Colômbia, Bolívia e Peru de um lado até chegar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Foram quatro anos de entrevistas e coleta de milhares de documentos.

Policiais, juízes, promotores, traficantes e produtores, ninguém ficou de fora, e todos estão em “Cocaína. A Rota Caipira“.

Para que o leitor sinta o clima e perceba oque está acontecendo e como pensam todos os integrantes desse imenso mercado, Allan narra as estratégias utilizadas pelas mulas para evitarem ser capturadas pela polícia…

… e as estratégias utilizadas pela polícia para capturar as mulas.

A guerra pelo poder dentro das organizações criminosas também não ficaram de fora, assim como o trajeto que foi feito de simples gangues de rua para a construção de uma organização multinacional de tráfico de drogas e armas.

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Trecho de “Cocaína. A Rota Caipira“:

“Cléber tentou facilitar o acesso dos comparsas de Joseph à cela da PF, onde o italiano estava detido. Mas não conseguiu. Dias depois, George foi transferido para o CDP de Guarulhos. Aí entrou em cena outro comparsa do Sheik, Wagner Meira Alves, que se valeu de lideranças da facção PCC dentro do presídio para pressionar George:

— Hoje a gente vai dar um xeque-mate — disse um dos sicários, identificado como Velho, para Wagner. — O Dudu vai entrar na linha com os meninos e você vai tá na linha com eles e que tiver na situação lá vai estar junto dele. Isso vai ser esclarecido hoje, vamos dá um prazo para o italiano, que o irmão lá e da geral, vamos dar vinte dias de prazo para ele. Se quiser, em último caso, é aquilo que o Cabeção falou [matar o George], não tem problema. É para tentar receber e em último caso é aquilo lá.

— O interesse é receber — disse Wagner. — Se receber, 30% é de vocês, pode falar lá e sacramentar. […] Ele sabe que deve e pode se esquivar, mas, se ele quiser devolver, em imóvel ou espécie, a gente vai até lá, pega o que tem e tira a parte do PCC na hora.

Minutos depois, os ‘irmãos’ do PCC colocaram George na linha para falar com Wagner…”