O PCC 1533 está selecionando jovens aprendizes

10 milhões de jovens entre 14 e 18 anos estão sendo jogados nos braços do Primeiro Comando da Capital como resultado de nossas escolhas sociais e políticas.

Lúcia Dammert, Domingos Jorge Velho, e os garotos do PCC.jpg

Lúcia Dammert, professora da Universidade de Santiago, me irritou ao dizer que agimos de forma anedótica quando tentamos resolver a questão das organizações criminosas. Talvez eu tenha errado na tradução da palavra “anedote” do seu artigo Gang Violence in Latin America, então, peço que você dê uma olhada e me diga se me equivoquei.

Você já assistiu Sarkar (सरकार)? Os indianos estão entre os que mais acessam este site no estrangeiro, e assistindo esse filme dá para entender o porquê: não temos uma visão muito diferente da que eles têm de suas facções criminosas e de sua importância dentro da estrutura social e política, seja para o bem ou para o mal.

João Pereira Coutinho diria que eu, Lúcia Dammert e os indianos, assim como Chakib Limane, temos uma queda por torcionários, e que estamos marchando “com o rebanho que procura ‘compreender’, leia-se ‘desculpar’, as atrocidades […]. Não há compreensão nem desculpa para a morte ….”

A professora Dammert afirma que a decisão de um garoto de se juntar a uma facção, em alguns bairros, é uma estratégia de sobrevivência e não uma escolha verdadeira — talvez isso seja verdade, talvez não, mas em muitos lugares com certeza ajuda a proteger os dentes, principalmente na entrada e saída da escola ou nas ruas próximas de suas casas.

Os jovens precisam se unir a grupos, seja em uma metrópole indiana ou em uma pequena cidade brasileira no meio da floresta amazônica, seja agora no início do século XXI ou nos tempo da colônia. A garotada busca seus marcos de referência, que podem ser um ladrão de sinal de telefonia como Steve Jobs ou os líderes das gangues locais ou nacionais.

Se o moleque é estigmatizado ou rejeitado pela sociedade, encontrará e se juntará a outros como ele e, se sozinhos eram fracos, unidos serão invencíveis, ou quase. Assim, um pobre destinado a trabalhar carregando cimento passa a ser membro de uma facção, exibindo os símbolos da gangue tatuados no corpo e outras conquistas, como roupas de marca.

Com isso, apesar de continuar excluído, o jovem passa a ser respeitado, seja por medo ou inveja.

Inicialmente há o sonho de se juntar a outros garotos que, assim como ele, empinam pipa ou jogam futebol, mas que já estão dentro da facção, já que é quase impossível ter um emprego dentro do mercado formal quando se é adolescente, pois construímos um sistema que dificulta o ingresso dos jovens no mercado de trabalho.

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São quase 10 milhões de brasileiros entre 14 e 18 anos, então, se você for me falar sobre o programa “Menor Aprendiz”, só o faça se ele já tiver empregado pelo menos 5 milhões, se não é mais um daqueles “planos. projetos, e programas utópicos”, que só existem para fazer de conta que estamos resolvendo um problema que nós mesmos criamos.

Depois que são aceitos nas facções, buscam subir na hierarquia, como em qualquer empresa. Só que nesse meio a violência é uma ferramenta normal para a interação social dentro e fora do grupo, assim como a prisão é uma consequência natural, que é bem-vinda, pois será a confirmação definitiva de que um jovem se tornou um membro ativo do grupo.

Ao mesmo tempo que a experiência com as forças policiais e com o sistema burocrático da Justiça reforça a posição, piora os vícios e causa um desajuste no equilíbrio mental desse jovem, colocando-o cada vez mais enraizado nas facções e na vida criminal, assim como o coloca em posição de destaque e ganhe admiração entre os novatos.

Lúcia Dammert me irritou ao dizer que agimos de forma anedótica, mas creio que ela não quis dizer que brincamos de educação quando criamos “planos, projetos, e programas utópicos” que, na realidade, impedem os jovens de trabalharem, mas, sim, que não levamos a sério os dados e agimos com o coração, impulsionados por nossas ideologias.

E é por isso, João Pereira Coutinho, que eu e Lúcia Dammert, talvez entendamos o porquê de o povo indiano idolatrar Sarkar, o chefe do tráfico local, que é visto como o farol que ficou aceso no meio da tempestade. Mas, ao contrário de Chakib e de muitos de nossos conterrâneos, não queremos que o predomínio dos líderes das organizações criminosas perdure.

Queremos viver livres das sombras dos líderes de grupos criminosos que se opõe à ordem constituída e a sociedade organizada. Queremos viver em um mundo onde possamos reverenciar aqueles heróis que nos livraram desses desordeiros, restabelecendo a lei e a ordem — começando, talvez, por Domingos Jorge Velho.

A polícia e a chacina de jovens negros e pobres

Direitos Humanos X Direitos dos Manos — enquanto brancos discutem nas redes sociais e nas universidades, garotos negros da periferia e policiais morrem.

A polícia, os acadêmicos, e a chacina dos jovens negros pccsA análise que aqui faço é a de um descontrole coletivo, quando veio à tona um sentimento de justiçamento frente ao expurgo social por parte daqueles envolvidos no mundo do crime, como se se aproveitassem da possibilidade de matar indiscriminadamente qualquer um que trabalhasse para as forças policiais — desculpe, errei, Tarsila Flores escreveu assim:

A análise que aqui faço é a de um descontrole coletivo, quando veio à tona um sentimento de justiçamento frente ao expurgo social por parte dos policiais envolvidos, como se se aproveitassem da possibilidade de matar indiscriminadamente.

Acredito que Tarsila, autora da dissertação Cenas de um Genocídio: Homicídios de Jovens Negros no Brasil e a Ação de Representantes do Estado, concorde comigo e deixe eu inverter algumas palavras, sem comprometer a ideia, afinal ela mesma escreve em outro trecho sobre policiais e bandidos:

[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…

Garotos pobres e policiais morrem em matilha…
… acadêmicos discutem sobre isso como manada

Marcos Beccari e Ivan Mizanzuk se questionam sobre as razões pelas quais o conhecimento acadêmico não consegue fazer com que a luz do conhecimento produzido chegue ao mundo real, e Ivan chega a conclusão que as Ciências Sociais estão em crise e a Filosofia de fato morreu, assim como morrem os garotos e os policiais.

Garotos e policiais não perdem tempo como Marcos Beccari, Ivan Mizanzuk, Tarsila Flores, eu e você discutindo como as coisas devem ser, nos colocando como defensores dos fracos e oprimidos, ou da lei e da ordem — com nossas certezas, repetindo nossas verdades para aqueles que conosco concordam e vendo nos outros o inimigo.

Mas os inimigos somos nós, e essa é nossa sina.

O segredo da sobrevivência do Homo sapiens é a sua capacidade de se fechar instintivamente em grupos. No passado isso garantiu a sobrevivência da espécie e ainda hoje nos unimos em manadas para defender nossas ideias nas academias e redes sociais, ou em matilhas para defender nossas vidas nas periferias.

O que falei sobre a guerra entre facções neste site → ۞

Enquanto alguns discutem cheios de razão, outros morrem sem nenhuma razão, como nos conta Yan Boechat:

A chacina “… segue um padrão macabro: como boa parte dos homicídios no país, ocorreu em uma área pobre da cidade, vitimando em sua maioria jovens e, provavelmente, negros e pardos. Passava da meia noite quando o grupo de homens armados com coletes táticos, fuzis, pistolas e balaclavas apareceu no bairro (…) uma área pobre da periferia (…) chegaram atirando em qualquer pessoa que estivesse pela rua (…)”

Desta vez, os assassinos também eram negros e pobres da periferia.

O sociólogo Sérgio Barreira de Faria Tavolaro, da mesma Universidade de Brasília para qual Tarsila apresentou sua tese, enfim, fez passar uma fresta de luz para fora das muralhas da acadêmica: o problema não é o racismo ou a opressão do Estado, a zica está na testosterona e no comportamento de grupo — seja do jovem marginalizado ou policial.

Os garotos da facção Guardiões do Estado (GDE 745), aliados do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), atacaram um reduto do Comando Vermelho (CV) por ousadia e adrenalina, algo que apenas uma matilha jovem e forte possui — os garotos nada mais são que humanos, assim como os policiais paulistas que em 2006 se uniram para sobreviver.

O que falei sobre a facção Guardiões do Estado neste site → ۞

Retornamos então a questão inicial proposta por Tarsila e que ela mesmo responde:

Quem mata os jovens negros e pobres das periferias? 

Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala… Tarsila Flores

A mulher do Acre: a acadêmica e a guerreira do PCC

A Segurança Pública em Roraima, através dos dados estatísticos de 2016, e o aparecimento no estado da facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

A mulher conquista seu maior direito matar e morrer.

É possível levar a sério um artigo acadêmico sobre a violência e a criminalidade urbana em um estado que é só selva? E se eu disser ainda que foi escrito por uma mulher? Este é o caso de Retratos da Violência Urbana e da Criminalidade em Boa Vista — Roraima: A capital mais setentrional do Brasil, de Janaine Voltolini de Oliveira.

Nossa! Me senti agora como Monteiro Lobato!

Você já leu o livro Éramos Seis, de Maria José Dupré? Quem prefaciou a edição que li foi ninguém menos que Monteiro Lobato, ícone de nossa história, responsável por parte da formação cultural de nossa nação, que no prefácio não se vexou em contar que recebeu de seu editor o original do livro de Dupré que narrava a vida de uma mulher que cuidava e seus filhos, desde pequenininhos até a fase adulta — ele se recusou a ler a obra, pois tinha sido escrita por uma mulher e a premissa era ridícula.

Após muita insistência do editor, Monteiro Lobato, acabou lendo e se apaixonando pelo trabalho da autora (assim como eu).

Janaine não é Dupré e eu muito menos sou Monteiro Lobato, mas Dupré não podia prever que Lobato não iria querer lê-la por ser mulher, e Lobato não poderia prever que em cinquenta anos sua obra quase seria proibida por ser sexista e racista, assim como Janaine não poderia prever que um leitor seu chegaria a estas conclusões:

O artigo publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP faz uma avaliação do quadro de violência em Roraima e analisa seus números, apresentando as possíveis causas e soluções para o problema. É um bom resumo do que acontece por lá e um facilitador para quem quer fazer uma análise rápida, mas não profunda, da situação do estado.

O que falamos sobre as mulheres neste site → ۞

A questão da mulher me chamou a atenção assim que peguei o trabalho de Janaine para ler — pensei em criar uma cota para a produção masculina nesse site, pois quase todos os trabalhos que fiz no último mês foram produzidos por mulheres ou o assunto eram as mulheres dentro da hierarquia do PCC.

Não acredito no acaso, e muito menos duvido dele.

A pesquisadora demonstra no artigo o aumento brutal do número de mulheres assassinadas — o Mapa da Violência 2015 denunciou o aumento de 500% da quantidade de homicídios de mulheres em Roraima em relação aos anos de 2003 a 2013. Os números demonstram o aumento da presença das mulheres, que estão dominando cada vez mais todas as áreas.

Quando Janaine escreveu o artigo, não poderia prever que trouxesse, a um de seus leitores, a lembrança de maneira tão viva de uma irmã ou companheira do PCC, que teve seu áudio viralizado um pouco antes dos ataques ocorridos no início de agosto de 2017 em Rio Branco:
Aqui o bagulho tá feio mesmo. Eu sou do Acre, só que os irmãos não estão muito unidos não. Mataram meus companheiros lá. Até perder meu filho já perdi. Tudo por causa dessa guerra. Agora os irmãos tem que tomar atitude aí. Tem Irmão encurralado aí.Tem que ajudar Irmão.

Na voz, uma mulher, fiel de sangue ao Primeiro Comando da Capital, e seu pedido de apoio mobilizou soldados e recursos da facção de diversas partes do Brasil — a situação que estava quente, ferveu, sendo necessária uma operação de guerra envolvendo o governo estadual e federal para conter a situação.

Monteiro Lobato teria que se conformar: a mulher conquistou seu lugar na sociedade, e hoje elas já escrevem tanto quanto os homens sobre a questão criminal, e com o incremento em torno de 1,5% ao mês do número de integrantes femininas nas facções. Dentro de cinco anos elas possivelmente já estarão em pé de igualdade com os homens.

Vídeo da execução de uma guerreira inimiga do PCC (CV) → ۞
Vídeo da execução de uma guerreira aliada do PCC (B13) → ۞

Eu não vou esperar tanto tempo para parabenizar as mulheres que conquistaram o direito de morrer como se fossem homem. Mary Wollstonecraft e Nísia Floresta devem estar muito satisfeitas com as conquistas das mulheres neste século.

Publicarei em breve um texto sobre um artigo de Robert Muggah, que assim como Janaine foi publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP, também conta com fontes recentes, e da mesma forma que ela ignorar a importância dos aliados locais.

Creio que ambos tinham conhecimento da existência e da importância das alianças locais, mas optaram por não publicar em um trabalho acadêmico por falta de comprovação científica verificável, desta forma faço um mea culpa e passo a publicar com a tarja Aliados News na página, Últimas Notícias, atualizações dos aliados do PCC: GDE, B13, ADA, e TCA.

A produção universitária não acompanha a realidade

A evolução das facções criminosas e o Dr. Robert Muggah


Pós-escrito: Demorei algumas semanas entre o começo e a conclusão desse texto, e a estrutura do crime organizado que existia quando comecei desmoronou e outra a substituiu, e quem eu dizia estar desatualizado passou a estar atualizadíssimo, e eu estou agora totalmente perdido.

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Se navegar é preciso, que naveguemos em águas tranquilas. Se a busca pelo conhecimento é fundamental para desenvolvermos uma sociedade segura, com justiça e desenvolvimento social, que busquemos isso em um site que nos dê prazer durante a navegação, e Carlos Coutinho conseguiu isso ao desenvolver esse ambiente para o site do Instituto Igarapé.

O canadense Dr. Robert Muggah é o diretor de pesquisa e coordenador do Programa de Segurança Cidadã do Instituto, e autor do artigo A state of insecurity: the case of Rio de Janeiro publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP Araraquara — cujo texto me chamou a atenção menos por seu conteúdo do que pelo envelhecimento de seu conteúdo.

Se você busca um conhecimento básico sobre o que se passa na segurança pública do Rio de Janeiro, em um texto em inglês, vale a pena a visita, mas se sua intenção for ter uma base sólida ou conhecimento atualizado, neste caso sugiro que procure outras fontes, que estão disponíveis aos montes, em português.

Dr. Robert Muggah não é culpado de ter sido comido pelo tempo, essa é uma característica de quase todos os artigos acadêmicos que se arriscam a analisar a segurança pública carioca contemporânea. Robert cita fontes e dados coletados na segunda metade de 2016 para um artigo publicado na primeira metade de 2017, mas está ultrapassado.

Seu campo de pesquisa é o Rio de Janeiro, e cita no artigo que atuou dentro da máquina de segurança pública carioca, através do Instituto Igarapé, sendo assim, não consigo entender como ele não deixou claro a aliança feita pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) como a facção Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando dos Amigos (TCA).

O que falamos aqui sobre o Rio de Janeiro → ۞

Ressalto que o problema não está no autor do artigo ou no centro acadêmico que o publicou, mas no processo que é utilizado para a produção e publicação de conhecimento nas universidades que, exigindo comprovação científica, tornam tão lento quanto seguro o processo de coleta, compilação e análise de dados.

O resultado desse processo permite devolver metodologias que contribuam para oferecer alternativas às políticas públicas, que depois de discutidas com a sociedade, poderão ser paulatinamente implementadas, mas isso é só na teoria, pois quando o assunto são as facções criminosas, quando o processo chega a termo, a realidade já é outra.

Há quatro semanas, quando li o artigo de Robert, para escrever este texto, achei que ele estava desatualizado. O PCC era há tempos aliado do ADA, e estava mandando soldados e equipamentos para ajudar na consolidação da facção carioca na Rocinha — com o TCA e o TCP (Terceiro Comando Puro) correndo juntos. Robert claramente estava desatualizado!

Há duas semanas, quando reli o artigo, achei que talvez o pesquisador não havia citado a parceria do PCC com o ADA e o TCA por não estar muito claro o resultado dessa aliança. A situação na Rocinha se tornava incerta, e as milícias que não haviam entrado no conflito colocaram suas peças na mesa. Robert claramente havia preferido não se arriscar!

Hoje, ao reler o artigo de Robert, vejo que ele está correto. O PCC teve no passado um aliado forte no Rio de Janeiro chamado ADA, e chegou em determinado momento a formar junto como o TCP uma tríplice aliança chamada TCA, que terminou devido ao arraigado preconceito carioca contra os paulistas e a derrota do ADA na Guerra da Rocinha.

Robert claramente não citou a união ADA – PCC – TCA pois ela foi coisa do passado, ele está corretíssimo!

Nem posso imaginar como estará a situação no Rio quando você estiver lendo esse texto.

O que falamos aqui sobre o ADA → ۞

Radicais afirmam que devemos ignorar as características individuais das facções criminosas quando desenvolvemos ações para seu combate. Isso já foi experimentado no passado sem sucesso, agravando o problema, mas talvez não tenhamos outra solução: ou colocamos mais agilidade nos remos ou teremos que navegar sem leme, ao léu dos ventos e das correntes, torcendo para chegarmos, com sorte, a um porto seguro.

Pesquisas no Google em 2017 — a facção PCC 1533

Google Trends para o termo Primeiro Comando da Capital

Vou lhe contar o que o Google pode nos dizer sobre o que foi pesquisado sobre o Primeiro Comando da Capital em 2017 e o que mudou nos últimos anos. Ao pesquisar sobre o assunto para mostrá-lo a você, me surpreendi com alguns dados que encontrei, mas começo este artigo com um trecho de um conto de Atenéia Araújo:

Quem me conhece, sabe bem que não tenho medo de cachorros, mesmo os de porte grande e, embora pouca gente acredite, quase todos os que encontrei sempre foram amistosos e, embora eu tenha dito isso a pessoas que têm medo deles para convencê-las de que não devemos ter medo deles, ouço muito que confio demais e que cachorros são traiçoeiros e não devemos confiar neles.
Há anos este site monitora os termos que envolvem a facção paulista, e este ano resolvi mostrar para você algumas das conclusões a que cheguei. Caso queira dar uma olhada em alguns dos gráficos, eles estão disponibilizados na página Estatísticas, com dados fornecidos on-line pelo Google Trends — se clicar nos gráficos dinâmicos eles direcionarão você para outra página cheia de opções de refinamento de dados.

Acesso para a página de Estatísticas → ۞

Aliados e Inimigos

Nós dois sabemos que não se pode falar de “crime organizado” no Brasil sem citar o Primeiro Comando da Capital. Acho que o que me surpreendeu foi descobrir que os usuários do Google não vinculam o Comando Vermelho ao tema… desculpa aí 2, no Google é tudo 3!!!

Nas buscas utilizando o termo “facção criminosa” aparecem apenas três gangues: PCC com 45 pontos, CV com 35 pontos, e a ADA com 11 pontos — tentei buscar os estados individualmente para analisar os dados das facções regionais, no entanto o banco de dados não teve fluxo suficiente para disponibilizar o resultado.

Tanto o PCC quanto o CV são buscados em todo o país, já os aliados do Primeiro Comando têm destaque apenas regional, sendo pouco comum pesquisas fora de seu reduto: Amigos dos Amigos (ADA, Rio de Janeiro), Bonde dos 13 (B13, Acre), e Guardiões do Estado (GDE, Ceará), e o Bonde do Maluco (BDM, Bahia).

Sendo assim, sabemos que o diabo existe e é conhecido, mas o Google diz que a população acha que ele não é tão feio quanto as autoridades e a imprensa tentam pintar.

As buscas quando o assunto é insegurança, segurança pública, violência, prisão, morte e medo foram relacionados pelos usuários do Google com fatos específicos como: homicídios, crimes, assaltos, polícia, violência sexual e de gênero e crimes domésticos — o Primeiro Comando da Capital só foi lembrado quando se pergunta sobre os motins no sistema prisional.

Curiosidade: quem pesquisa sobre cocaína no Google procura pelo Primeiro Comando da Capital ou pelo Comando Vermelho? É, meu caro, você errou! As buscas recaem sobre: Aécio Neves, Ivete Sangalo e Blairo Maggi.

O PCC só é lembrado pelo seu líder e pelos motins, e no dia a dia para conhecer como é seu funcionamento e estatuto.

Prova dessa tendência são os momentos em que o termo Primeiro Comando da Capital teve aumento nas buscas: as chacinas de janeiro no COMPAJ de Manaus e seus desdobramentos na Região Norte, e a de Alcaçuz no Rio Grande do Norte; e em novembro o motim no presídio de Cascavel.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola também foi protagonista de dois momentos de pico nas pesquisas, no entanto, não por preocupação, mas, sim, por curiosidade popular. Uma delas se deu em dezembro, quando ocorreu sua transferência para Presidente Venceslau, e a outra foi por causa de uma notícia sem fundamento, vazada de forma irresponsável, em abril, dando conta de um plano de fuga.

O que falei neste site sobre Marcola → ۞

As buscas feitas referentes ao PCC se baseiam principalmente no conhecimento de seu estatuto e em suas relações com o seu arqui-inimigo Comando Vermelho e seu aliado Amigo dos Amigos.

O que falei neste site sobre o Comando Vermelho → ۞

Nas artes, na mídia e na mente da garotada.

O grupo musical Facção Central não é o que já foi, mas ainda é o único vínculado pelos usuários à facção paulista. Não sei você, mas eu esperava encontrar também referência aos Racionais MCs e ao MC Zoi de Gato, mas não, só deu a Facção Central — a banda Racionais MCs tem 7 vezes mais consultas, no entanto não teve sua imagem vinculada ao PCC, e, sim, à luta contra a opressão do sistema sem vestir uma camisa. Algo que me surpreendeu foi o fato de que o público alvo dos dois grupos está majoritariamente fora do eixo Sul-Sudeste.

Os garotos também procuram bastante as frases referentes à facção de seu coração.

Merece destaque o trabalho jornalístico do site UOL Notícias para diversas ações de combate à facção, com artigos meticulosos, agradáveis e elaborados com cuidado para entender o assunto, sem aceitar apenas um ponto de vista. O trabalho foi reconhecido e o UOL foi o único que aparece vinculado pelo Google Trends à facção.

As matérias do UOL que foram citadas aqui neste site → ۞

Quem diria que Rogério 157 mudaria o comportamento de milhares de pessoas em todo o país? Você diria isso? Eu não.

Antes do conflito na Rocinha, o termo Primeiro Comando da Capital só era buscado ocasionalmente no Youtube, mas, durante a guerra pelo domínio da comunidade, vários youtubers cariocas passaram a incluir notícias e histórias da facção paulista — e hoje já são dezenas de páginas espalhadas por todo o país, que criaram um fluxo estável que não mais buscam fatos isolados sobre a facção, mas sim conhecer e divulgar a cultura do PCC 1533.

O que publiquei aqui neste site sobre a Rocinha → ۞

O brasileiro se preocupa cada vez menos com o PCC, principalmente o paulista.

Pela primeira vez o paulista pesquisa menos sobre o PCC — houve uma queda de 34 pontos. Muitos fatores podem ter levado a isso, mas a atuação discreta da facção contendo o número de mortes, as ações feitas exclusivamente contra instituições econômicas e a garantia de paz em áreas com pouca atuação do estado estão entre eles.

No Brasil, no geral, a facção está também chamando menos a atenção, havendo uma diminuição média de 11,5 pontos em relação ao registro histórico das 10 regiões que mais pesquisaram sobre o tema — exceções são as áreas onde está sendo travada a guerra entre os PCC e seus inimigos, como no Amazonas, Ceará, Rio Grande do Norte e Acre. Esses últimos dois não aparecem na lista dos TOP 10 possivelmente pela baixa população e acesso à rede, no entanto, pode-se perceber seu efeito quando se estuda a média geral e não a restrita.

Os 10 estados com maior volume de pesquisas 2017 MÉDIA

últimos 5 anos

MÉDIA
édia dos últimos 13 anos
Amazonas 70 100 69
Bahia 39 46 39
Ceará 100 61 76
Goiás 9 33 35
Minas Gerais 26 67 21
Paraná 40 56 45
Rio de Janeiro 19 38 22
Rio Grande do Sul 19 33 24
Santa Catarina 21 19 39
São Paulo 66 95 100

Cada povo pesquisa o PCC com um nome diferente.

Quando é alguém de casa, um amigo, temos costume de chamar pelo apelido ou apenas pelo seu prenome, e é por isso que em São Paulo, no Paraná e na Bahia a facção é mais pesquisada por PCC 1533; já para os que não são tão íntimos, como os que pesquisam do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, preferem chamar a facção pelo nome correto: Primeiro Comando da Capital; agora, quando você não gosta de uma pessoa de jeito nenhum, você não quer nem falar o nome dela — e talvez seja por isso que só o Amazonas, terra da Família do Norte, as pessoas pesquisam utilizando-se da terceira pessoa: a Facção PCC.

Fora do Brasil, neste ano, o termo Primeiro Comando da Capital foi pesquisado principalmente em Portugal, na Argentina e na Holanda.

Na América do Sul, no Paraguai e no Uruguai, o termo buscado é Primer Comando Capital, enquanto na Bolívia e na Argentina eles preferem Primer Comando de la Capital.

Em inglês as pesquisas pelo termo First Commander of the Capital começaram a ser realizadas por ocasião dos ataques de maio de 2006, e eram feitas exclusivamente nos Estados Unidos, assim como, ao mesmo tempo e com muito mais intensidade, se pesquisava sobre o First Capital Command. Após uma matéria publicada pelo News Times, sobre as mortes de policiais em São Paulo na onda de 2012, o padrão utilizado pelo jornal acabou se tornando quase que hegemônico para as pesquisas (First Capital Command), contradizendo a lógica, pois existem três vezes mais material utilizando a outra opção.

CV, FDN e CRBC — táticas de guerrilha em São Paulo

Censura na Imprensa no século XIX e a facção PCC 1533

A imprensa tem esse poder, mas o quanto você acha que eu, você, a imprensa ou o governo tem direito de esconder a verdade, mesmo que ela possa causar a morte ou salvar a sua vida ou a de outras pessoas? A decisão de esconder que a guerra entre facções chegou a São Paulo nada mais é que isso aí.

No fim do ano passado, coloquei em destaque um alerta passado pelo Primeiro Comando da Capital para que todos os seus membros ficassem preparados para a virada — era de conhecimento público que a Família do Norte e o Comando Vermelho haviam planejado ataques ao PCC em seu território, mas havia algo mais na mensagem da facção.

Naquele momento, ao analisar as mensagens, acreditei que eles não estavam apenas alertando os faccionados do norte e nordeste, mas que o salve seria nacional, inclusive para o estado de São Paulo — não consegui acreditar, me senti um americano no 11 de Setembro vendo um grupo rebelde atacar a maior potência militar do mundo.

Logo no primeiro dia do ano recebi as primeiras mensagens narrando as atrocidades que estavam sendo cometidas, principalmente contra os garotos da facção aliada, Guardiões do Estado, GDE 745; dezenas tiveram seus dedos cortados, mas o que mais me assombrou foram as mutilações dentro do estado de São Paulo: mãos cortadas.

A guerra chegou a São Paulo.

A princípio achei que seria apenas o Comando Revolucionário Brasileiro do Crime (CRBC) buscando retomar áreas, mas as informações chegavam indicando que era uma ação conjunta entre o Comando Vermelho (CV) e a Família do Norte (FDN), que teriam enviado células para atacar, sem informação se os alvos seriam aleatórios ou pré-definidos, com método de guerrilha: chegariam à cidade, atacariam e seguiriam para a próxima.

Se o CRBC estaria atuando em conjunto ou apenas aproveitando o momento, ainda é um mistério.

O que se viu no entanto foi uma operação bem planejada dos CVs e FDNs — os primeiros dias de ataque fizeram os números de whatsapp da facção fervilhar de alertas, levando o terror para as quebradas, para que só então, em alguns pontos, principalmente da região metropolitana, a manobra de tomada de alguma cabeça-de-ponte começasse.

A caça às bruxas começou. Todos os que foram ou vieram da região norte ou nordeste e podem ter alguma ligação com o crime, até mesmo aqueles que já estão morando há décadas em território paulista, podem ser vistos como possíveis infiltrados. Tudo indica que 2018, assim como foram os anos de 1992 e 2006, será fundamental para o futuro da Família 1533.

Se você é do mundo do crime, sabe de tudo isso; se for das forças policiais talvez, mas essa informação quase não chegou à população. O silêncio foi quebrado pela primeira vez pela repórter Tânia Campelo, do site de notícias Meon do Vale do Paraíba, no artigo Homicídios em São José podem ter relação com briga entre facções.

Nele, pela primeira vez é noticiada a ação das facções do norte, e é descrito o ataque de guerrilha de forma bastante clara. A repórter questionou o delegado Célio José da Silva, responsável pelo caso que lhe respondeu que “isso não existe” — dias depois algumas coisas que não existiam foram capturadas e mortas pela facção PCC 1533 em Guarulhos.

Podemos afirmar então que ou as autoridades policiais ainda não sabiam o que estava acontecendo dentro do estado, ou não quiseram admitir, repetindo o que aconteceu em 1995, quando a Secretaria de Segurança Pública afirmou que a imprensa estaria “vendo fantasmas” ao dizer que existia uma facção criminosa chamada PCC em São Paulo.

O assunto voltou com a matéria de Ivan Longo da Revista FórumPeriferias de São Paulo vivem nova onda de terror com guerra entre facções, mas coube ao repórter Lucas Simões do pouco conhecido site O Beltrano trazer um artigo repleto de fatos reais e, por incrível que possa parecer, inéditos: Estoura guerra de facções em SP.

Dizem que as bruxas não existem, mas devemos acreditar nelas. Como a história provou, não acreditar em fantasmas não os fizeram desaparecer ou ficarem menos perigosos. Até quando as autoridades e a imprensa continuarão plagiando o querido Padre Quevedo? “Isso non ecziste”.

Comando Vermelho capturado em São PauloVídeo com coisas que non eczistem capturados pelos PCCs na capital  paulista — note que enquanto nega ser CV, o primeiro deles faz o símbolo da facção com a mão. 

Lucas Simões nos deixa a dúvida: será que a imprensa tem esse direito? O quanto você acha que eu, você, a imprensa ou o governo temos o direito de esconder a verdade, mesmo que ela possa causar a morte ou salvar a sua vida ou a de outras pessoas? A decisão de esconder que a guerra entre facções chegou a São Paulo nada mais é que isso aí.

Nos últimos dias, alguns garotos que vendem umas paradinhas, para sustentar seu vício e ganhar uns trocos, morreram ou tiveram as mãos ou os dedos cortados, agora faltam os policiais, a dona Luíza, eu e você — quando você vai começar a se interessar pelo assunto?

Três mortos em São José do Rio Preto PCC vs CRVCUm setor de Inteligência da SSPDS considera que as tentativas de negar o avanço do crime organizado no Ceará só deram tempo e espaço para as facções se fortalecerem. — reportagem de Márcia Feitosa para o Diário do Nordeste: Crime organizado: um problema nacional que aflige o Ceará.

Mágino Alves Barbosa Filho.jpgNão há guerra entre facções em São Paulo
R7 Notícias
São Paulo — Guerra entre Facções
O secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, garante que aqui esse tipo de ação não tem vez, o governo paulista aposta na eficiência dos setores de inteligência das polícias civil e militar.