A Umbanda, o Candomblé, e a facção paulista PCC

A agressão sofrida por um pai de santo e uma mãe de santo no Rio de Janeiro levanta dúvidas sobre conduta das facções criminosas quanto ao respeito às religiões afro-brasileiras.

O Primeiro Comando da Capital e as religiões afro-brasileiras

Família 1533 — uma organização conservadora

Talvez, você possa me entender, mesmo que não faça parte de nenhuma organização criminosa. É difícil explicar uma sensação, mas se você já esteve em um estádio lotado em uma final de campeonato, você já sentiu algo parecido com o que se sente quando se está num pátio de uma penitenciária com dezenas ou centenas de homens a gritar:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós? Por que Ele é justo!” – a lembrança me arrepia até hoje.

A socióloga Camila Nunes Dias afirmou que a facção paulista é conservadora e homofóbica, e esse é um dos casos no qual uma verdade esconde uma acusação falsa.

A também socióloga Carla Cristina Garcia demonstrou que não é a facção que é conservadora e homofóbica, mas sim a sociedade brasileira. Isso mesmo: eu, você e as duas também estamos incluídos.

Claro que eu não sou, e nem você é; só os outros que não estão me lendo são.

Onde citei neste site Camila Nunes Dias → ۞

Destruindo o centro de Umbanda e Candomblé

Há alguns dias um vídeo circulou com a chamada “PCC destrói templo de Candomblé”, só que ele mostra membros do Terceiro Comando Puro (TCP) do Morro do Dendê, no Rio de Janeiro, e não do Primeiro Comando da Capital (PCC). As facções são aliadas, mas o grupo paulista não tem influência na conduta do grupo carioca — são independentes.

Vou explicar um pouco a ojeriza que existe hoje na Família 1533 com esse negócio de Candomblé e Umbanda, pois nem sempre a situação foi tensa:

No passado, houve uma facção criminosa chamada Seita Satânica SS. Os caras eram cabulosos e sanguinários. Para se ter uma ideia, para ser batizado, o próprio cara tinha que cortar um pedaço da ponta do dedo e tomar o sangue. Tortura e morte de PCCs e SSs ocorreram dentro dos presídios até que, por volta de 2002, esse grupo foi eliminado.

Os restos desta disputa se somaram ao preconceito enraizado de todo brasileiro. Claro que nem eu, e nem você temos preconceito enraizado; só os outros que não estão me lendo tem.

Onde citei neste site o Terceiro Comando Puro → ۞

Uma lei dentro e outra fora das trancas

Se alguém chega dentro de uma tranca paulista com ideias das religiões afro, essa pessoa é convidada de boa a guardar sua fé para si. O Primeiro Comando tem como regra básica não se meter com a vida de ninguém, mas impõe regras para o espaço comum.

Agora, para ver o bagulho ficar louco na tranca é só encontrar um cigarro de pé, atrás da porta da cela, mas nas comunidades fora das muralhas, a ordem é a da tolerância religiosa.

A paz, próximo às biqueiras, deve imperar para que a polícia não seja chamada e o fluxo continue constante e seguro. Se um templo, seja ele qual for, começar atrair viaturas para a comunidade, ele também será convidado a se retirar, mas só depois disso ser discutido dentro da sintonia e de chegarem a um acordo, se não…

Há alguns anos, um membro do PCC que dominava um bairro fechou uma igreja evangélica que ficava perto da sua biqueira. Agora, ele descansa em paz, sem se preocupar mais com os irmãos orando, sem se preocupar com mais nada, pois agiu por conta própria, sem consentimento da hierarquia do partido, e foi cobrado: ele morreu, e a igreja voltou.

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Não se pode confundir os SSs com as religiões afro

A Seita Satânica e aqueles que pregam o satanismo de qualquer maneira não são aceitos pelos membros do Primeiro Comando da Capital — as seções de autoflagelação e as formas de tortura a que são levados os que vivem nas trancas dos SSs são inarráveis.

Presidiário seita satânica SS BauruEssa talvez tenha sido a causa da ojeriza dos PCCs aos satanistas, mas o que é certo é que nas ruas os representantes os pais e mães de santos tem por vezes encontrado na facção aliados aos seus trabalhos, como me conta um aqui da zona norte da cidade:

“… alguns até participam dos cultos, mas são poucos. Aqui, quase na esquina tem uma biqueira, eles cuidam das vidas deles e nós da nossa. É só agente não atrapalhar eles que está tudo bem — nos dias de movimento no terreiro eles não deixam ninguém mexer nos carros e com as pessoas que frequentam o Centro.”

Todos somos membros da mesma sociedade

O mesmo se daria se o disciplina ou o sintonia da cidade tivesse recebido uma reclamação por parte de um pai de santo, pastor, padre…

Talvez, você possa me entender, mesmo que não faça parte de nenhuma organização criminosa, pois fazemos parte da mesma sociedade e temos a mesma base cultural. É difícil explicar uma sensação, mas sentimos de maneira parecida.

Quando apontamos o dedo acusador para os lados, estamos apontando-o para nós mesmos — claro que nem eu, e nem você apontamos; só os outros que não estão me lendo apontam.

Quando garoto, participei certo tempo da Umbanda em Pirituba. Larguei, mas trago comigo as porradas e os esculachos dados pelos policiais, assim como o preconceito da sociedade. Agora vêm os dois grupos apontar o dedo, se arvorando como defensores das religiões afro: menos, menos, muito menos.

O Primeiro Comando da Capital representa a sociedade brasileira, só não se esconde atrás das suas máscaras, e tenho certeza de que você já sentiu algo parecido com o que eles sentem quando estão num pátio de uma penitenciária, arrepiados, a orar e gritar:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós? Por que Ele é justo!”

Claro que eu, e você somos tudo de bom; até mesmo os outros que não estão me lendo, mas os PCCs, esses não estão nem aí com o que eu, você, e os outros pensam a respeito deles, mas tem clareza na sua conduta, pois alegam com orgulho de ser: “O lado cerdo, do lado errado da vida”.

Ah! Ia me esquecendo de dizer que Luiz Roberto me avisou que agora a mãe-de-santo que foi agredida está pedindo asilo na Suíça e quer deixar o Brasil.

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Autor: Rícard Wagner Rizzi

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