Policiais e PCCs seriam vasos de honra ou desonra?

 PCCs e policiais: dois lados da mesma moeda

Tanto você quanto eu já tivemos a experiência de estar dos dois lados de um mesmo balcão — por vezes somos consumidores de serviços e produtos que nós mesmos prestamos, comercializamos ou fabricamos.

Seguindo os caminhos que a vida traçou, tive a oportunidade de conhecer o mundo do crime: tanto no ambiente policial e judicial quanto na caminhada do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Acompanhei garotos sem ódio no coração começando a trilhar a profissão no mundo do crime e nas forças de segurança: alguns apenas buscavam sustentar seus próprios gastos, enquanto outros entravam nessa por ideologia.

Ler sobre o “Experimento de aprisionamento de Stanford” foi ler sobre coisas que eu mesmo vivenciei — as transformações de personalidade descritas por Philip Zimbardo foram aquelas que vivenciei na polícia e na facção PCC.

PCCs e policiais: agindo de forma nunca esperada

Eu não sei se uma pessoa nasce boa e a sociedade a corrompe, ou se nasce egoísta e má e a sociedade e as instituições colocam limites. O que sei é que os jovens que conheci eram, em sua maioria, gente boa, simples e honesta.

À luz do Experimento da Prisão de Stanford, foi argumentado que, em certos contextos, os comportamentos, bons ou ruins, são legitimados e aceitos pela Sociedade.

Esteja você em uma biqueira ou uma viatura, ou esteja em um presídio ou em um batalhão policial, estará em ambientes que propiciam que o comportamento de manada seja aceito, legitimado e definitivamente incorporado.

E em todos os ambientes que convivi, os indivíduos mudavam o seu comportamento rapidamente, adotando não apenas as gírias e o modo de se portar, mas também a forma de pensar, agir e sentir.

O efeito da adrenalina despejada no sangue do policial e do criminoso durante uma perseguição é o mesmo, assim como o modo como se relacionam entre si e com sua comunidade — Teoria do Efeito Dobradiça de Tarcília Flores.

Conheci gente boa, tanto de um lado quanto de outro, que mataram sem uma justificativa moral ou de legítima defesa, mas por pertencerem a esses grupos.

Philip certa vez me disse que “dependendo do tipo de situação em que nos encontramos, colocamos de lado nossas convicções pessoais, nossos valores morais e agimos de uma forma nunca imaginada”.

PCCs e policiais: agindo conforme esperado

Pelos bairros periféricos, durante a madrugada, desembarcávamos com armas em punho, intimidando quem quiséssemos, muitas vezes com violência, pois tínhamos apenas nossos próprios demônios como testemunhas — estando em uma equipe policial ou com nossos companheiros da quebrada.

acesse artigo do Nexo clicando na imagem

Inconscientemente, nós apenas desejamos aceitação e pertencimento quando estamos em ambientes homogêneos, como em uma igreja, uma festa de família, uma equipe policial, ou com os companheiros de quebrada.

O jovem, policial ou criminoso, age conforme o grupo, abandonando a busca pelo pertencimento na distante ideia de “sociedade” que condena a violência, e procura aceitação junto aos seus companheiros próximos de farda ou do crime.

Vi madrugada adentro nas ruas a Teoria da Conformidade Social de Solomon Asch se comprovando e gerações de jovens policiais e criminosos passarem de doutrinados para doutrinadores, perpetuando a cultura da violência.

Garotos que me diziam que de certo ponto não passariam, que estavam ali apenas para fazer seu trabalho e garantirem seu sustento, pouco tempo depois passavam a posição de defensores e garantidores de uma cultura violenta.

“Solomon Asch mostrou que ao se sentir pressionado por um grupo que sempre deu respostas erradas, uma pessoa pode ser induzida a escolher respostas erradas também. Stanley Milgram sugeriu que, em cada contexto, pessoas comuns trapaceariam ou mentiriam para seus pares.”

PCCs e policiais: não são grupos homogêneos

Aqueles que acompanham esse universo pelos noticiários e filmes veem erroneamente esses grupos antagônicos como homogêneos. Eles não o são.

Os policiais que atuam em viaturas de área ou policiamento escolar, em geral, são mais brandos que seus colegas das viaturas de duas rodas ou táticas; e no mundo do crime, aqueles que comercializam cigarros contrabandeados, drogas em festas ou os assaltantes, cada um deles, têm um perfil diferente.

A seleção é natural: tanto a hierarquia da polícia quanto a do mundo do crime separam os novatos por perfil, e se não o fazem, os grupos criam barreiras para se garantirem da conquista do pertencimento por alguém de fora, levando o próprio indivíduo a buscar outra área mais adequada ao seu perfil.

A seleção é natural, porém é violenta: tanto na polícia quanto no mundo do crime a pressão começa de maneira sutil, através de “zoeiras” e comentários, mas chegará à violência física e ao homicídio se necessário.

Quem acompanha esses universos pelos noticiários e filmes não conhece a realidade, pois “o que acontece na viatura, morre na viatura”, e o mesmo vale para a quebrada, onde “cagueta algo relacionado ao Comando será decretado”.

13º Decreto: Para confirmar um decreto a Sintonia tem que analisar com cautela, por se tratar de uma situação de vida. (…) Quando um decretado chegar em uma quebrada nossa tem que ser cobrado de bate pronto.— Regimento Disciplinar do PCC

Rodrigo Nogueira descreve como essa pressão se dá na Polícia Militar no livro Como Nascem os Monstros, e no ano passado, veio a público o caso do cabo da Rota Fernando Flávio Flores que teria sido morto por seus próprios colegas.

acesse o artigo no UOL clicando na imagem

PCCs e policiais: sob o Efeito Lúcifer

Essa seleção natural feita pelos policiais e pelos integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital não é um comportamento exclusivo desses grupos e, na verdade, replica o que ocorre em qualquer comunidade fechada quando recebe um novo membro — variando apenas o grau de violência.

Estudando esses grupos fechados como sendo sociedades com padrões de relações e interações sociais e cultura da vida cotidiana próprios, vemos que a relação “dos estabelecidos” (antigos membros) e “dos que vêm de fora” (novatos) seguem o padrão descrito por Norbert para descrever a violência, discriminação e exclusão social registradas em uma pequena vila inglesa da metade do século passado.

Ler sobre o “Experimento de aprisionamento de Stanford” foi ler sobre essas coisas que eu mesmo vivenciei e que descrevi para você neste texto — as transformações de personalidade, conforme descritas por Philip Zimbardo.

Seguindo os caminhos que a vida traçou, cada um dos jovens que ingressarem nas forças policiais e no mundo do crime conhecerão sentimentos, formas de pensar e agir, e, independentemente de sua índole, se adaptarão:

Quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? — Romanos 9:19-21

Esse texto foi baseado na introdução do artigo O “Efeito Lúcifer” e “Os Estabelecidos e os Forasteiros”: Diferentes práticas de poder ou facetas de um mesmo contrato? de Claudia Tania Picinin e outros, publicado no Brazilian Applied Science Review (DOI:10.34115/basrv5n1-013)

Policiais e PCCs seriam vasos de honra ou desonra?

É mera ilusão imaginar que é diferente a forma de pensar, sentir e agir de policiais e integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

PCCs e policiais: dois lados da mesma moeda

Tanto você quanto eu já tivemos a experiência de estar dos dois lados de um mesmo balcão — por vezes somos consumidores de serviços e produtos que nós mesmos prestamos, comercializamos ou fabricamos.

Seguindo os caminhos que a vida traçou, tive a oportunidade de conhecer o mundo do crime: tanto no ambiente policial e judicial quanto na caminhada do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Acompanhei garotos sem ódio no coração começando a trilhar a profissão no mundo do crime e nas forças de segurança: alguns apenas buscavam sustentar seus próprios gastos, enquanto outros entravam nessa por ideologia.

Ler sobre o “Experimento de aprisionamento de Stanford” foi ler sobre coisas que eu mesmo vivenciei — as transformações de personalidade descritas por Philip Zimbardo foram aquelas que vivenciei na polícia e na facção PCC.

PCCs e policiais: agindo de forma nunca esperada

Eu não sei se uma pessoa nasce boa e a sociedade a corrompe, ou se nasce egoísta e má e a sociedade e as instituições colocam limites. O que sei é que os jovens que conheci eram, em sua maioria, gente boa, simples e honesta.

À luz do Experimento da Prisão de Stanford, foi argumentado que, em certos contextos, os comportamentos, bons ou ruins, são legitimados e aceitos pela Sociedade.

Esteja você em uma biqueira ou uma viatura, ou esteja em um presídio ou em um batalhão policial, estará em ambientes que propiciam que o comportamento de manada seja aceito, legitimado e definitivamente incorporado.

E em todos os ambientes que convivi, os indivíduos mudavam o seu comportamento rapidamente, adotando não apenas as gírias e o modo de se portar, mas também a forma de pensar, agir e sentir.

O efeito da adrenalina despejada no sangue do policial e do criminoso durante uma perseguição é o mesmo, assim como o modo como se relacionam entre si e com sua comunidade — Teoria do Efeito Dobradiça de Tarcília Flores.

Conheci gente boa, tanto de um lado quanto de outro, que mataram sem uma justificativa moral ou de legítima defesa, mas por pertencerem a esses grupos.

Philip certa vez me disse que “dependendo do tipo de situação em que nos encontramos, colocamos de lado nossas convicções pessoais, nossos valores morais e agimos de uma forma nunca imaginada”.

PCCs e policiais: agindo conforme esperado

Pelos bairros periféricos, durante a madrugada, desembarcávamos com armas em punho, intimidando quem quiséssemos, muitas vezes com violência, pois tínhamos apenas nossos próprios demônios como testemunhas — estando em uma equipe policial ou com nossos companheiros da quebrada.

acesse artigo do Nexo clicando na imagem

Inconscientemente, nós apenas desejamos aceitação e pertencimento quando estamos em ambientes homogêneos, como em uma igreja, uma festa de família, uma equipe policial, ou com os companheiros de quebrada.

O jovem, policial ou criminoso, age conforme o grupo, abandonando a busca pelo pertencimento na distante ideia de “sociedade” que condena a violência, e procura aceitação junto aos seus companheiros próximos de farda ou do crime.

Vi madrugada adentro nas ruas a Teoria da Conformidade Social de Solomon Asch se comprovando e gerações de jovens policiais e criminosos passarem de doutrinados para doutrinadores, perpetuando a cultura da violência.

Garotos que me diziam que de certo ponto não passariam, que estavam ali apenas para fazer seu trabalho e garantirem seu sustento, pouco tempo depois passavam a posição de defensores e garantidores de uma cultura violenta.

“Solomon Asch mostrou que ao se sentir pressionado por um grupo que sempre deu respostas erradas, uma pessoa pode ser induzida a escolher respostas erradas também. Stanley Milgram sugeriu que, em cada contexto, pessoas comuns trapaceariam ou mentiriam para seus pares.”

PCCs e policiais: não são grupos homogêneos

Aqueles que acompanham esse universo pelos noticiários e filmes veem erroneamente esses grupos antagônicos como homogêneos. Eles não o são.

Os policiais que atuam em viaturas de área ou policiamento escolar, em geral, são mais brandos que seus colegas das viaturas de duas rodas ou táticas; e no mundo do crime, aqueles que comercializam cigarros contrabandeados, drogas em bairros ou os assaltantes, cada um deles, têm um perfil diferente.

A seleção é natural: tanto a hierarquia da polícia quanto a do mundo do crime separam os novatos por perfil, e se não o fazem, os grupos criam barreiras para se garantirem da conquista do pertencimento por alguém de fora, levando o próprio indivíduo a buscar outra área mais adequada ao seu perfil.

A seleção é natural, porém é violenta: tanto na polícia quanto no mundo do crime a pressão começa de maneira sutil, através de “zoeiras” e comentários, mas chegará à violência física e ao homicídio se necessário.

Quem acompanha esses universos pelos noticiários e filmes não conhece a realidade, pois “o que acontece na viatura, morre na viatura”, e o mesmo vale para a quebrada, onde que “cagueta algo relacionado ao Comando será decretado”.

13º Decreto: Para confirmar um decreto a Sintonia tem que analisar com cautela, por se tratar de uma situação de vida. (…) Quando um decretado chegar em uma quebrada nossa tem que ser cobrado de bate pronto. — Regimento Disciplinar do PCC

Rodrigo Nogueira descreve como essa pressão se dá na Polícia Militar no livro Como Nascem os Monstros, e no ano passado, veio a público o caso do cabo da Rota Fernando Flávio Flores que teria sido morto por seus próprios colegas.

acesse o artigo no UOL clicando na imagem

PCCs e policiais: sob o Efeito Lúcifer

Essa seleção natural feita pelos policiais e pelos integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital não é um comportamento exclusivo desses grupos e, na verdade, replica o que ocorre em qualquer comunidade fechada quando recebe um novo membro — variando apenas o grau de violência.

Estudando esses grupos fechados como sendo sociedades com padrões de relações e interações sociais e cultura da vida cotidiana próprios, vemos que a relação “dos estabelecidos” (antigos membros) e “dos que vêm de fora” (novatos) seguem o padrão descrito por Norbert para descrever a violência, discriminação e exclusão social registradas em uma pequena vila inglesa da metade do século passado.

Ler sobre o “Experimento de aprisionamento de Stanford” foi ler sobre essas coisas que eu mesmo vivenciei e que descrevi para você neste texto — as transformações de personalidade, conforme descritas por Philip Zimbardo.

Seguindo os caminhos que a vida traçou, cada um dos jovens que ingressarem nas forças policiais e no mundo do crime conhecerão sentimentos, formas de pensar e agir, e, independentemente de sua índole, se adaptarão:

Quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? — Romanos 9:19-21


Esse texto foi baseado na introdução do artigo O “Efeito Lúcifer” e “Os Estabelecidos e os Forasteiros”: Diferentes práticas de poder ou facetas de um mesmo contrato? de Claudia Tania Picinin e outros, publicado no Brazilian Applied Science Review (DOI:10.34115/basrv5n1-013)

A facção PCC 1533, Bolsonaro e a Tríplice Fronteira

PCC: não há solução simples para problema complexo

O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) não deixará os Estados nacionais da Tríplice Fronteira (TF) entre Argentina, Brasil e Paraguai mais próximos de eliminar o crime organizado da região.

O ativista russo Artemiy Semenovskiy me questionou sobre uma possível ligação entre as lideranças da facção paulista PCC 1533 com os integrantes da facção carioca Comando Vermelho, na região da TF.

A resposta curta é: “faça o que eu mando, não faça o que eu faço”.

A resposta longa é:

Tudo começou com…

O assassinato, na região da Tríplice Fronteira, de Jorge Rafaat Toumani, em 2016 marcou o fim da parceria entre integrantes do Primeiro Comando da Capital e da facção Comando Vermelho (CV).

… que virou uma sangrenta guerra …

Inimigos de ambos os lados são caçados, capturados, torturados e mortos, tanto no Brasil quanto no Paraguai, na Bolívia e até na Argentina — somando milhares de mortos.

… mas enquanto os moleques morrem …

O tempo passou e a guerra esfriou: novas fronteiras foram consolidadas, com escaramuças ocorrendo apenas nas regiões ainda em disputa, no entanto, investigações policiais provaram que integrantes da cúpula do Primeiro Comando da Capital agora negociam armas e drogas com o arqui-rival Comando Vermelho.

… afinal, o buraco é mais embaixo!

Engana-se quem acredita que existe uma resposta simples para uma questão complexa:

O assassinato de Toumani deveria ter eliminado os fornecedores independentes de drogas e armas no Paraguai, sufocando o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, mas deu chabu, porque o Primeiro Comando da Capital não levou em conta a astúcia de Adam Smith e a história da formação sócio econômica daquela região.

O PCC, a formação sócio econômica da TF e a mão invisível do mercado

Há mais de um século a região desenvolve sua vocação de polo de livre circulação de pessoas, serviços e mercadorias, paulatinamente agregando: povos, conhecimento, infraestrutura em uma emaranhada rede internacional de relacionamentos e contatos.

Uma secular, complexa, arraigada e maleável estrutura socioeconômica não se dissolveria em poucas décadas por uma ação orquestrada entre Estados constituídos, e tampouco pela morte de Toumani.

Nas duas últimas décadas, Argentina, Brasil e Paraguai desenvolveram ferramentas jurídicas, institucionais e tecnológicas com o intuito de coibir a atuação das organizações criminosas na região da Tríplice Fronteira.

O assassinato de Toumani, ao contrário do que imaginou o Primeiro Comando da Capital, não garantiu sua hegemonia na fronteira, dando lugar a outros fornecedores independentes que trataram de absorver a demanda das facções inimigas.

Os recentes conflitos entre os PCCs da região e os traficantes independentes de Fahd Jamil; e a análise das contas de Maria Alciris Cabral, esposa de Minotauro, e dos traficantes Pavão e Galã comprovam a participação dos próprios líderes PCCs nessa cadeia de fornecimento — a mão invisível do mercado não abandona ninguém.

Do desenvolvimento estratégico para o retrato tirado

A segurança da fronteira brasileira é garantida pela Estratégia Nacional de Segurança Pública nas Fronteiras (ENAFRON), pelo Sistema Integrado de Monitoramento das Fronteiras (SISFRON) e pela Operação Ágata.

Esses programas elaborados e implementados nas gestões Lula e Dilma visavam respaldar com equipamentos, pessoal e informação o combate ao crime organizado, mas tornaram-se uma ferramenta de marketing.

Apesar do empenho dos profissionais participantes do planejamento das operações, o resultado foi um belo espetáculo para a mídia, com fotos dos militares nas estradas e helicópteros sobrevoando as matas e os rios e policiais rodoviários e militares fazendo operações — garantindo um show para o público televisivo!

No entanto, é inegável os avanços feitos nesse período no combate ao crime organizado, criando condições para as futuras administrações.

Michel Temer continuou o processo de integração e aperfeiçoou as ferramentas jurídicas para integrar as diversas esferas de combate ao crime organizado na TF, agora com a presença também da Bolívia.

Jair Bolsonaro foi até a fronteira do Paraguai e bateu um retrato ao lado do presidente Mario Benítez.

Se Bolsonaro deixou de aprofundar os mecanismos transnacionais que visavam quebrar as grandes barreiras culturais, jurídicas e econômicas que poderiam minar as bases das organizações criminosas, pelo menos teve milhares de compartilhamentos entre seus apoiadores de sua selfie com Benítez.

O PCC se beneficia com a política de Bolsonaro

O pesquisador polonês Paweł Trefler afirma que a causa do fracasso dos Estados nacionais no combate ao crime organizado na região é a descontinuidade nos esforços em criar mecanismos permanentes e profundos para a eficácia do combate ao crime organizado na região da Tríplice Fronteira: 

“… mudanças políticas radicais em países individuais, governos alternativos de esquerda e direita, juntamente com atitudes diametralmente opostas em relação à cooperação com os Estados Unidos. Como resultado, não há realmente nenhuma continuação de muitas iniciativas empreendidas em conjunto. No nível mais alto, a rivalidade geopolítica da Argentina e do Brasil, bem como a desconfiança da população local e das elites socioeconômicas em relação à administração central e aos centros de influência estrangeiros, especialmente o antiamericanismo muito forte, permanecem sem dúvida um problema sério.”

E assim, respondo a Artemiy Semenovskiy, e aproveito para deixar o link o PDF do belo trabalho de Pawel, “Las iniciativas de cooperación en seguridad en la Triple Frontera Security cooperation initiatives in the Triple Border Area”, publicado no Anuario Latinoamericano Ciencias Políticas y Relaciones Internacionales v10 2020.

A facção PCC 1533, Bolsonaro e a Tríplice Fronteira

O crime organizado na Tríplice Fronteira: governos e Primeiro Comando da Capital tomando pau de uma secular amarra socioeconômica.

PCC: não há solução simples para problema complexo

O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) não deixará os Estados nacionais da Tríplice Fronteira (TF) entre Argentina, Brasil e Paraguai mais próximos de eliminar o crime organizado da região.

O ativista russo Artemiy Semenovskiy da CTS Command me questionou sobre uma possível ligação entre as lideranças da facção paulista PCC 1533 com os integrantes da facção carioca Comando Vermelho, na região da TF.

A resposta curta é: “faça o que eu mando, não faça o que eu faço”.

A resposta longa é:

Tudo começou com…

O assassinato, na região da Tríplice Fronteira, de Jorge Rafaat Toumani, em 2016 marcou o fim da parceria entre integrantes do Primeiro Comando da Capital e da facção Comando Vermelho (CV).

… que virou uma sangrenta guerra …

Inimigos de ambos os lados são caçados, capturados, torturados e mortos, tanto no Brasil quanto no Paraguai, na Bolívia e até na Argentina — somando milhares de mortos.

… mas enquanto os moleques morrem …

O tempo passou e a guerra esfriou: novas fronteiras foram consolidadas, com escaramuças ocorrendo apenas nas regiões ainda em disputa, no entanto, investigações policiais provaram que integrantes da cúpula do Primeiro Comando da Capital agora negociam armas e drogas com o arqui-rival Comando Vermelho.

… afinal, o buraco é mais embaixo!

Engana-se quem acredita que existe uma resposta simples para uma questão complexa:

O assassinato de Toumani deveria ter eliminado os fornecedores independentes de drogas e armas no Paraguai, sufocando o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, mas deu chabu, porque o Primeiro Comando da Capital não levou em conta a astúcia de Adam Smith e a história da formação sócio econômica daquela região.

Por outro lado, a logística do crime desenvolvido pela facção é invejável, como se tornou público com a Operação Palak da polícia argentina:

As armas chegavam desmontadas e em partes dos Estados Unidos a Buenos Aires, Santiago del Estero, Córdoba, Rio Negro e Santa Fe, já a munição ia da Alemanha para a Espanha e de lá para a Holanda, onde embarcavam para a Argentina. No país, uma rede comandada por um morador de Martínez montou o arsenal de guerra e, junto com as armas vendidas pelos donos de uma antiga fábrica em Córdoba, os enviou à cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, para finalmente entrar no Brasil e alimentar o Primeiro Comando da Capital. laseptma.info

O PCC, a formação sócio econômica da TF e a mão invisível do mercado

Há mais de um século a região desenvolve sua vocação de polo de livre circulação de pessoas, serviços e mercadorias, paulatinamente agregando: povos, conhecimento, infraestrutura em uma emaranhada rede internacional de relacionamentos e contatos.

Uma secular, complexa, arraigada e maleável estrutura socioeconômica não se dissolveria em poucas décadas por uma ação orquestrada entre Estados constituídos, e tampouco pela morte de Toumani.

Nas duas últimas décadas, Argentina, Brasil e Paraguai desenvolveram ferramentas jurídicas, institucionais e tecnológicas com o intuito de coibir a atuação das organizações criminosas na região da Tríplice Fronteira.

O assassinato de Toumani, ao contrário do que imaginou o Primeiro Comando da Capital, não garantiu sua hegemonia na fronteira, dando lugar a outros fornecedores independentes que trataram de absorver a demanda das facções inimigas.

Os recentes conflitos entre os PCCs da região e os traficantes independentes de Fahd Jamil; e a análise das contas de Maria Alciris Cabral, esposa de Minotauro, e dos traficantes Pavão e Galã comprovam a participação dos próprios líderes PCCs nessa cadeia de fornecimento — a mão invisível do mercado não abandona ninguém.

Do desenvolvimento estratégico para o retrato tirado

A segurança da fronteira brasileira é garantida pela Estratégia Nacional de Segurança Pública nas Fronteiras (ENAFRON), pelo Sistema Integrado de Monitoramento das Fronteiras (SISFRON) e pela Operação Ágata.

Esses programas elaborados e implementados nas gestões Lula e Dilma visavam respaldar com equipamentos, pessoal e informação o combate ao crime organizado, mas tornaram-se uma ferramenta de marketing.

Apesar do empenho dos profissionais participantes do planejamento das operações, o resultado foi um belo espetáculo para a mídia, com fotos dos militares nas estradas e helicópteros sobrevoando as matas e os rios e policiais rodoviários e militares fazendo operações — garantindo um show para o público televisivo!

No entanto, é inegável os avanços feitos nesse período no combate ao crime organizado, criando condições para as futuras administrações.

Michel Temer continuou o processo de integração e aperfeiçoou as ferramentas jurídicas para integrar as diversas esferas de combate ao crime organizado na TF, agora com a presença também da Bolívia.

Jair Bolsonaro foi até a fronteira do Paraguai e bateu um retrato ao lado do presidente Mario Benítez.

Se Bolsonaro deixou de aprofundar os mecanismos transnacionais que visavam quebrar as grandes barreiras culturais, jurídicas e econômicas que poderiam minar as bases das organizações criminosas, pelo menos teve milhares de compartilhamentos entre seus apoiadores de sua selfie com Benítez.

O PCC se beneficia com a política de Bolsonaro

O pesquisador polonês Paweł Trefler afirma que a causa do fracasso dos Estados nacionais no combate ao crime organizado na região é a descontinuidade nos esforços em criar mecanismos permanentes e profundos para a eficácia do combate ao crime organizado na região da Tríplice Fronteira:

“… mudanças políticas radicais em países individuais, governos alternativos de esquerda e direita, juntamente com atitudes diametralmente opostas em relação à cooperação com os Estados Unidos. Como resultado, não há realmente nenhuma continuação de muitas iniciativas empreendidas em conjunto. No nível mais alto, a rivalidade geopolítica da Argentina e do Brasil, bem como a desconfiança da população local e das elites socioeconômicas em relação à administração central e aos centros de influência estrangeiros, especialmente o antiamericanismo muito forte, permanecem sem dúvida um problema sério.”

No frigir dos ovos “o secretário de segurança do Mato Grosso do Sul, Antônio Videira, não hesita em cravar: O PCC comanda a fronteira”.

E assim, respondo a Artemiy Semenovskiy da CTS Command, e aproveito para deixar o link o PDF do belo trabalho de Pawel, “Las iniciativas de cooperación en seguridad en la Triple Frontera Security cooperation initiatives in the Triple Border Area”, publicado no Anuario Latinoamericano Ciencias Políticas y Relaciones Internacionales v10 2020.

O PCC Koringa desacreditou que seria preso

O PCC acreditava estar protegido pelo poder da facção Primeiro Comando da Capital.

Chris Dalby para o InSigh Crime — em tradução livre

O suposto líder do PCC no Paraguai, conhecido como “Koringa”, foi extraditado ao Brasil depois de alguns dias tumultuosos nos quais membros da organização criminosa paulista encenaram uma tentativa ousada, mas sem sucesso, de livrá-lo da prisão.

Giovanni Barbosa da Silva, vulgo “Koringa”, foi detido no dia 9 de janeiro pela polícia paraguaia na cidade fronteiriça de Pedro Juan Caballero. Segundo nota da Procuradoria-Geral da República, ele vinha sendo procurado por autoridades do Paraguai desde junho de 2020 sob a acusação de organização criminosa, narcotráfico e tráfico de armas. Barbosa da Silva era considerado o comandante paraguaio do Primeiro Comando da Capital (PCC), informaram as autoridades.

Sua importância para a organização ficou evidente quando, poucas horas após sua prisão, na manhã de 10 de janeiro, cerca de 40 assaltantes armados atacaram a instalação policial onde Barbosa da Silva estava detido. Inicialmente, eles fizeram três policiais como reféns, mas as forças de segurança conseguiram revidar, resgatar seus colegas e capturar dois dos agressores, de acordo com um relatório da EFE citando fontes policiais.

leia também: A ascensão do PCC: Expansão no Brasil e além

Mais tarde naquele dia, Barbosa da Silva foi entregue às autoridades brasileiras na ponte que separa os dois países em Foz do Iguaçu e depois transferido para uma penitenciária federal. Os outros dois membros do PCC presos foram mantidos sob custódia no Paraguai.

Na noite de 11 de janeiro, autoridades brasileiras rastrearam vários integrantes do PCC que participaram do ataque para libertar Barbosa da Silva até uma casa em Ponta Porã, cidade próxima à fronteira com Pedro Juan Caballero, segundo informações da mídia. Houve um tiroteio que acabou se espalhando pelas ruas e deixou oito membros da facção mortos.

A violência continuou ao longo da fronteira com um policial sendo baleado e morto em 12 de janeiro em Pedro Juan Caballero. O mesmo oficial, Fredy César Diaz, teria ajudado a repelir a tentativa de resgate alguns dias antes.

Segundo informes da polícia brasileira, Barbosa da Silva é muito próximo de Anderson Lacerda Pereira, vulgo “Gordão”, suspeito de ser um grande narcotraficante do PCC, responsável por lavar dinheiro da facção e aficionado por arte — já esteve ligado ao furto de obras de Pablo Picasso.

Antes de se instalar no Paraguai, Barbosa da Silva residia em São Paulo, onde supostamente dirigia as operações do PCC na zona norte da cidade e onde foi ferido em um tiroteio em 2017, segundo reportagem do UOL.

Análise de crime InSight

A longa investigação das autoridades brasileiras e paraguaias que levou à identificação e prisão de Barbosa da Silva, bem como à tentativa de resgatá-lo, deixa poucas dúvidas de que ele era um dos principais operadores do PCC no Paraguai.

Koringa ignorou os contínuos e significativos golpes que a facção vinha colecionando, crente que estaria protegido pelo poder da facção Primeiro Comando da Capital.

Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, vulgo “Minotauro”, outro líder do PCC no Paraguai foi preso em fevereiro de 2019, se bem que continuava a exercer influência significativa sobre as operações da organização criminosa de dentro da prisão.

leia também: São Paulo, Paraguai e além: o poder de crescimento do PCC

As forças de segurança paraguaias prenderam dezenas de integrantes do Primeiro Comando da Capital, muitas vezes graças à inteligência de seus colegas brasileiros, mas a organização criminosa paulista costuma aproveitar as prisões para estender sua influência e recrutar novos membros dentro das prisões.

Em janeiro de 2020, 75 faccionados do PCC conseguiram abrir um túnel para fora de uma prisão em Pedro Juan Cabellero — o ministro da Justiça do país acredita que a gangue pode ter pago US $ 80.000 a funcionários da prisão para permitir a fuga.

A incapacidade do Paraguai em avançar na luta contra o Primeiro Comando da Capital permitiu a organização criminosa transformar grande parte do país em base de operações, a partir da qual supre de cocaína o mercado brasileiro.

Hoje, o Brasil se tornou o segundo maior mercado do mundo depois dos Estados Unidos, com dois milhões e oitocentos mil consumidores, obrigando o Primeiro Comando da Capital a desenvolver uma cadeia logística que garantisse o fluxo constante, seguro e em grande escala do produto.

Com integrantes do PCC operando através da fronteira com virtual impunidade, o próximo Bonitão pode não demorar muito para surgir.

A facção PCC e a Covid-19 nas prisões

Diorgeres de Assis Victorio sabe o que ocorre dentro dos presídios: passou parte de sua vida atrás das grades e protagonizou a inesquecível cena na qual integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) mantiveram na ponta de uma faca um agente penitenciário (ASPEN) — ele era o agente.

Reproduzo a seguir alguns trechos de sua autoria publicados na ReVista: The Harvard Review of Latin America :

Esses mais de 24 anos imersos em pesquisas prisionais, vivendo dia após dia às vezes durante o dia, às vezes à noite me fizeram aprender muito com seus habitantes.

Casos de subnotificação estão ocorrendo, o que me lembra os diálogos que tive com os presos que sobreviveram ao Massacre do Carandiru em 1992, em que policiais militares invadiram uma penitenciária após um motim na prisão, e me informaram que ajudaram a colocar os corpos de mortos dentro dos caminhões de lixo para que o número oficial de mortos apresentados fosse menor.

Mesmo antes da decisão judicial, a Terceira Geração do Primeiro Comando da Capital (PCC), criada após o massacre do Carandiru, ordenou que as visitas de presos fossem suspensas para tentar evitar milhares de mortes de presos.

Na década de 1990, vi detentos tendo que sair dos pavilhões várias vezes por causa da AIDS. Eles foram acompanhados por membros do PCC que solicitaram tratamento digno para os presos doentes, alegando que esta é a lei, e que é direito do preso ter sua saúde cuidada pelo Estado.

As unidades prisionais não possuíam clínicas ou medicamentos para cuidar de detentos que contraíram tais doenças. Alguns se enforcaram em suas celas; outros foram transferidos para outros pavilhões e tentaram esconder sua doença de companheiros prisioneiros. Isso é muito difícil de fazer e muitas vezes eles acabaram sendo transferidos para a enfermaria.

Não fiquei surpreso com as reações do Estado, do PCC e de institutos como sindicatos. O que eu esperava encontrar no início da pesquisa tornou-se realidade no final da investigação, incluindo as decisões judiciais.

Concluo ainda que, mais uma vez, o PCC aboliu a obrigação do Estado em relação aos casos dessa nova pandemia que assola o sistema prisional paulista, e que, sem dúvida, se não fosse a grande interferência do mesmo (e de outras instituições), o número de mortes seria muito maior, devido à alta aglomeração de presos, ao número impressionante da população carcerária e às pessoas que não usam ou usam indevidamente as máscaras. Ficamos com a irresponsabilidade do governo.

Leia o artigo completo na ReVista – Harvard Review Latin America

A Falange Vermelha e o Primeiro Comando da Capital

O que podemos aprender com a entrevista de José Carlos Gregório, o Gordo da Falange Vermelha, e qual a influência dessa protofacção no Primeiro Comando da Capital.

Os fundadores da Falange Vermelha devem estar olhando aqui para baixo (ou para cima, quem sabe?) orgulhosos do Primeiro Comando da Capital, que se não é a facção primogênita da Falange, é seu dileto varão.

Há mais de quatro décadas os fundadores, reunidos no Instituto Penal Cândido Mendes, conhecido como Presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis, lançaram as bases das facções criminosas contemporâneas, que hoje movimentam entre 3,5% e 10% do PIB.

Desenterro entrevista de José Carlos Gregório, o Gordo, reproduzida pelo Canal Histórias Daki. Gravada há mais de 25 anos, está no meio do caminho, entre o antigo mundo do crime no Brasil e o atual modelo brasileiro de organização criminosa transnacional.

Esse novo modelo foi forjado após intelectuais, ex-guerrilheiros políticos e membros de grupos armados que se contrapunham ao Governo Militar serem jogados no Presídio da Ilha Grande, onde o Gordo e outros criminosos comuns estavam presos.

Vavá da Luz “em um texto recheado com o vocabulário e jargões da extrema direita”, me lembrou que o jornalista Carlos Amorim relatou no “O assalto ao poder e a sombra da guerra civil no Brasil” uma fala de Alípio de Freitas sobre sua atuação nas prisões:

“Tudo o que os intelectuais queriam era resistir ao sistema penal. No meio, os presos comuns iam aprendendo a se organizar. (…) Depois, os intelectuais foram embora e deixaram a semente. Os outros se apoderaram.”

“Tenho poder de organização. Organizo grupos por onde ando. Fiz isso em todas as prisões por onde passei. Não me arrependo. Perguntem à polícia por que um grupo de malfeitores se apoderou na cadeia dos princípios da organização dos presos políticos. Primeiro, nos misturaram alegando que ambos assaltávamos bancos. Depois, mataram na cadeia todas as lideranças entre os presos comuns, os que estudaram conosco. Pensavam com isso desmantelar o CV ou o PCC. Mas deixaram os bandidos, a cadeia entregue à bicharada, unida à polícia corrompida.”

Trechos da entrevista de José Carlos Gregório, o Gordo

“Esses novos hóspedes, diferente de nós, sabiam o que era uma família, eram mais estruturados, mais educados, e viviam os dois lados: o criminoso e o da sociedade. Esses caras assistiam a tudo aquilo que acontecia dentro do presídio e chegaram para nós e disseram que os crimes que eram praticados pelos funcionários e também pelos próprios presos contra outros presos tinham que acabar.”

CONCEITO E IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA
Estatuto do PCC, artigos 7º, 16º e 17º
Cartilha de Conscientização da FAMÍLIA 1533

“Quando eles tinham uma banana, eles dividiam a banana e alimentava todo mundo, e nós fomos vendo como eles faziam e aprendemos. […] E foi aí que começou a surgir essa organização, começando a se organizar dentro da cadeia, para depois transpor o muro da prisão e chegar aqui fora.”

A LUTA PELO FIM DA OPRESSÃO CARCERÁRIA
Estatuto do PCC, artigo 4º e 18º e
Cartilha do PCC (11 citações)

Gregório conta que no início as facções se ocupavam de organizar ações e não possuíam chefia, sendo apenas um fórum de mediação entre criminosos: “cada um cuidava da sua vida, decidindo se iam ou não assaltar algum lugar e como fariam isso, eram um grupo de pessoas que são amigos, são uma família, que se unem”.

NINGUÉM É OBRIGADO A ENTRAR OU PERMANECER
Estatuto do PCC, artigo 17:

Entretanto, é preciso cumprir as regras, além do que, caso uma missão seja abraçada, não se pode voltar atrás sem cumpri-la — conforme doutrina guerrilheira.

O LEMA É PAZ, JUSTIÇA, E LIBERDADE
Estatuto do PCC, artigo 2º
Cartilha de Conscientização (2 citações)

Gregório conta que o Comando Vermelho foi fundado já com o lema que hoje é adotado pelo PCC:

“O lema do Comando Vermelho é Paz, Justiça e Liberdade:
Paz: é a paz de você viver em paz dentro da cadeia.
Justiça: você faz justiça todos os dias; é você fazer o que o governo não faz, o que quem deveria fazer não faz e, então, você tenta fazer alguma coisa.
Liberdade: é o que todo mundo sabe, sair do presídio a qualquer custo.”

O estudioso Diorgeres de Assis Victorio, do Canal Ciências Criminais, me lembra que originalmente o lema Paz, Justiça e Liberdade era utilizado apenas pelo Comando Vermelho, enquanto o Primeiro Comando da Capital adotou o Liberdade! Justiça! E Paz!”, conforme consta nos primeiros estatutos.

SOBRE ESSE ASSUNTO MAIS DOIS TEXTOS:
Mensagem Oficial do 24º aniversário do PCC 1533
PCC 1533 – 24 anos – Parabéns pelo aniversário!

Escuta telefônica do PCC — um registro histórico

Diálogo entre integrantes do Primeiro Comando da Capital são um registro histórico de como se deu a expansão da facção paulista.

Há exatos quatorze anos, o repórter Fábio Serapião do jornal O Estado de São Paulo, trouxe a público escutas telefônicas envolvendo presos do Primeiro Comando da Capital.

Não é apenas uma reportagem, é um registro de histórico incluído e disponibilizado na Biblioteca Digital do Senado Federal — os diálogos ocorreram em março de 2014.

Inimigos tiveram tempo para fugir, trocar a camisa ou se converter

Um dos diálogos ocorre entre Sumô e Taylor e mostra que antes de atacar os inimigos dentro do Presídio de Monte Cristo em Roraima, foi dado um prazo de 40 dias para que os inimigos decidissem deixar o presídio — e 145 aproveitaram para fugir.

PCC Sumô (Ozélio de Oliveira) o “geral do estado de Roraima” que estava preso na Casa de Custódia de Piraquara no Paraná, e o PCC Taylor (Diego Mendes de Andrade) que tinha a missão de “pregar a filosofia da família 1533” e arregimentar novos integrantes dentro da Penitenciária Federal de Mato Grosso do Sul, e uma outra com o PCC

Sumô: Quando nós banimos ali o Estado (das prisões de Roraima) a gente pregou a nossa ideologia, que é a paz, justiça, liberdade, igualdade e união, muitos ali tiveram o direito de pular o muro, o outro saiu até aqui no Fantástico irmão, pularam. Quantos que pularam no total ali em 40 dias ali, oh Taylor?

Taylor: 145 irmãos, 145 meu padrinho.

Sumô: 145 só pros irmão ter uma ideia como o barato foi louco. Hoje é … uns quartel do lado porque o barato ficou louco mermo.

Em outra conversa no fim do mês de março daquele ano, Sumô fala com Wax Nunes de Lima, um “salveiro” do PCC, responsável pela transcrição, transmissão e salvaguarda dos “salves” emitidos pelo comando da facção. Os dois falam sobre como conseguir celulares nas prisões. Sumô comenta a facilidade para se conseguir telefone nos presídios de Roraima e diz que onde está preso, no Paraná, são “somente” dois celulares por galeria.

“Eu morro de inveja de vocês aí que todo mundo tem um, isso aqui custa 5 mil real (sic) um aqui dentro moleque”, explica Sumô. “Caro que só né! Padrinho, aqui 5 mil é que nós paga pro cara comprar pra nós aparelho”, responde Wax.

Outra conversa de maio, de um integrante da facção criminosa apontado como “Vandrinho”, revelou a negociação de armas de dentro da cadeia. Segundo a PF, o traficante usa os termos “abacaxi” e “canetas” para se referir a granada e pistolas, respectivamente.

Na mesma interceptação, Vandrinho afirma que a facção criminosa precisa medir forças com a polícia. “Porque parceiro nós tem de somar contra a opressão, contra esses bota preta aí parceiro (sic)”, afirma o traficante.

leia a reportagem na íntegra no site do Senado Federal

A polêmica dança do garoto do PCC com o PM SP

Arte de Alex Donis publicada pelo MASP causou revolta entre os admiradores da política da Lei e da Ordem ao apresentar um integrante do PCC dançando com um Policial Militar.

O artista plástico Alex Donis afirma em sua página oficial que suas polêmicas obras visam gerar debates nacionais, e se essa foi sua intenção, ele teve sucesso na empreitada.

O Museu de Arte de São Paulo (MASP) inseriu sua ilustração que apresenta um integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC) dançando com um Policial Militar do Estado de São Paulo, no catálogo História da Dança 1, organizado por curadores da instituição.

Além das notas de repúdio e protesto nas redes sociais ligadas aos defensores da “Lei e da Ordem”, a deputada Adriana Borgo (PROS) propôs uma moção de repúdio (191/20) aos organizadores Adriano Pedrosa, Julia Bryan-Wilson e Olivia Ardui Léo Lins.

Alex Donis venceu a bancada da bala

As notas de protesto e a moção de repúdio coroaram de sucesso a intenção de Alex Donis de escancarar uma questão tabu — a proximidade dos extremos na Segurança Pública.

Um policial pode se ver e ser visto como herói, aquele que “protege a sociedade”, assim como um membro da facção criminosa pode se ver e ser visto como “correndo pelo lado certo da vida errada”, levando paz e segurança à sua quebrada.

Um policial pode ser visto e descrito como vilão, como alguém que abusa da autoridade, oprime as comunidades pobres e é corrupto, assim como um membro da facção criminosa pode ser visto e descrito como aquele que mata, rouba e toma a comunidade em que vive.

Tanto o policial como o faccioso estarão no seu dia a dia alimentando o mito, a construção da imagem, mas, ao mesmo tempo, estarão sendo influenciados pela mídia, que estará sofrendo pressão inconsciente de seus consumidores.

Tarcila Flores: PCCs e PMs são corpos matáveis

Ambos se odeiam, se caçam e se matam para sustentar os cofres de apresentadores de TV e discurso de políticos da bancada da “Lei e da Ordem”.

Acredito que Tarsila, autora da dissertação Cenas de um Genocídio: Homicídios de Jovens Negros no Brasil e a Ação de Representantes do Estado, concorde comigo e deixe eu inverter algumas palavras, sem comprometer a ideia, afinal ela mesma escreve em outro trecho sobre policiais e bandidos:

[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…

Garotos pobres e policiais morrem em matilha…
Alex Donis joga o holofote e Adriana Borgo protesta.

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