Facção Família do Norte (FDN) — história e análise

Tem uma pedra no caminho… Família do Norte (FDN), uma pedra no caminho do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Rota do Solimões.

A principal pedra no caminho para o controle da Rota do Solimões pelo Primeiro Comando da Capital é a facção amazônica Família do Norte. O site InSight Crime apresenta um resumo histórico e analisa as perspectivas desse grupo criminoso. (link para texto original)

A organização criminosa Família do Norte (FDN)

A Família do Norte (FDN) é o terceiro maior grupo criminoso do Brasil. Possui forte presença no norte do país, embora não seja igual ao do Primeiro Comando da Capital e ao Comando Vermelho em nível nacional.

O FDN foi criado entre 2006 e 2007 por José Roberto Fernandes Barbosa, apelido “ Zé Roberto da Compensa ” e Gelson Carnaúba, apelido “ Mano G ”.

Além de dominar rapidamente o narcotráfico e outras economias criminosas no estado do noroeste do Amazonas, o FDN procurou interromper o avanço do Primeiro Comando da Capital (PCC) ao longo do rio Solimões, uma importante rota de narcotráfico que conecta a tríplice fronteira do Brasil, Colômbia e Peru com o Oceano Atlântico. Embora o FDN permaneça enraizado na Amazônia, estabeleceu conexões com outros estados brasileiros e até com a Venezuela, já tendo feito alianças com outras quadrilhas criminosas no Brasil.

No início de 2020, o FDN recebeu ataques constantes do Comando Vermelho (Comando Vermelho, CV) em Manaus, capital do Amazonas, e embora as consequências reais dessa guerra sejam desconhecidas, é provável que o FDN tenha sido bastante enfraquecido.

Resumo da história da facção Família do Norte (FDN)

O FDN foi formado entre 2006 e 2007 e, como o PCC e o CV, foi organizado por seus dois fundadores e principais líderes no sistema penitenciário brasileiro. No entanto, o grupo só se consolidou quando Fernandes Barbosa e Carnaúba foram libertados da prisão.

A FDN tentou recrutar membros através da luta contra condições perigosas e insalubres dentro das prisões; ofereceu ajuda aos prisioneiros em troca de ingressar na gangue.

Como o PCC e o CV, o FDN mantém controle estrito sobre a identificação de seus membros, a cada um dos quais é atribuído um número de registro. A FDN também é regida por um conjunto de regras, conhecidas como “Doutrinas da Família”, que são zelosamente guardado por um Conselho, que foi feita anteriormente por seus dois fundadores e outros membros de alto escalão.

Conheça a ficha de cadastro da facção Primeiro Comando da Capital

Essas bases permitiram que o grupo se espalhasse rapidamente dentro e fora das prisões do norte do Brasil e se tornasse a terceira maior estrutura criminal do país, mas sem presença em nível nacional. A Procuradoria Geral da República declarou em 2015, após a Operação Muralha, que o FDN estava assumindo dimensões semelhantes às do PCC e do CV, dada a sua estrutura de liderança, suas regras internas, a diversidade de economias criminais e conexões locais, nacional e internacional.

Para impedir a disseminação do PCC no norte, especialmente no Amazonas, o FDN e o CV formaram uma aliança em 2015. Durou três anos, após o qual foi dissolvido e, em 2018, o fundador do FDN, Gelson Carnaúba, mudou de lado e ingressou no CV.

O grupo já havia se separado em 2017, quando um de seus principais membros, João Pinto Carioca, conhecido como “João Branco”, fundou um grupo dissidente, a Família do Norte Pura; Desde então, as duas facções entraram em conflito violento. Os distúrbios nas prisões entre os dois grupos foram particularmente violentos. Em um deles, entre 26 e 27 de maio de 2019,   no qual 55 presos foram mortos.

Quem é quem na liderança da facção Família do Norte (FDN)

No início, os principais líderes do FDN eram Zé Roberto da Compensa e Gelson Carnaúba, seguidos pelos pseudônimos Roque, Copinho, Nanico e João Branco. Além desses líderes, o Conselho da FDN era composto por 13 membros, todos com pleno conhecimento das operações da organização. No entanto, essa liderança foi dividida depois que Carnaúba e João Branco deixaram o grupo.

Alguns vídeos dos membros da FDN, respondendo aos ataques do CV em janeiro de 2020, mostram que o que resta do grupo está sob o firme comando de Zé Roberto da Compensa e seu filho Luciano da Silva Barbosa, também conhecido como “L7“, que está emergindo como um novo líder.

VEJA TAMBÉM: Guerra entre facções: Família do Norte nas prisões brasileiras

Onde atua a facção Família do Norte (FDN)

O FDN foi estabelecido principalmente no estado do Amazonas e opera dentro e fora do sistema prisional. O grupo concentra suas principais ações na manutenção do controle do narcotráfico ao longo do rio Solimões, que liga a fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru a Manaus, a maior cidade do norte e o Oceano Atlântico. Enquanto o PCC e o CV avançaram suas operações no estado do Amazonas, o FDN manteve sua presença na maioria das cidades e municípios e na região de fronteira. No entanto, é provável que sua expansão geográfica tenha sido afetada pelos recentes ataques provocados pelo CV e por  lutas internas.

Aliados e inimigos da facção Família do Norte (FDN)

Inicialmente, o FDN buscou uma aliança com o Comando Vermelho para conter o avanço do PCC no Amazonas. No entanto, a aliança FDN-CV, que durou de 2015 a 2018, foi rompida após um desacordo dentro da própria FDN, entre Gelson Carnaúba e Zé da Compensa. Após o colapso desta aliança, a disputa pelo domínio das rotas comerciais ilegais no Amazonas, especialmente pelo rio Solimões, foi violentamente disputada pelas três facções criminosas. Isso levou a tumultos frequentes nas prisões do Amazonas, nas quais centenas de presos foram brutalmente assassinados.

VEJA TAMBÉM: Massacre na prisão no Brasil mostra mudanças na dinâmica criminal

Uma investigação realizada pela Procuradoria Geral da República e pela polícia federal também descobriu que o FDN mantinha contatos com Nelson Flores Collantes, um conhecido fornecedor de drogas e armas para as Forças Revolucionárias da Colômbia (FARC). Também há evidências de que o FDN desenvolveu um relacionamento com gangues criminosas na Colômbia, incluindo a Oficina de Envigado e Los Caqueteños, o que permitiu que esses grupos explorassem conjuntamente o tráfico de drogas transfronteiriço por rotas terrestres e fluviais no estado do Amazonas. .

Análise InSight Crime: Família do Norte (FDN)

As perspectivas para o FDN não são boas, principalmente depois que o CV conseguiu tomar, com relativa facilidade, a capital do Amazonas, Manaus. O que está em jogo é o fluxo de entorpecentes que chega ao estado do Amazonas da Colômbia e do Peru, por rotas terrestres e fluviais. Isso também poderia levar o FDN a perder o controle de seu precioso rio Solimões, através do qual envia cocaína para distribuição dentro e fora do Brasil.

As perdas de João Branco e Gelson Carnaúba foram duras, especialmente porque o último aparentemente está muito envolvido nas tentativas do CV de assumir Manaus.

(link para texto original no site InSight Crime)

Análise do site faccaopcc1533

Administrar um site tido por muitos como oficial do Primeiro Comando da Capital (PCC) tem suas peculiaridades, e uma delas são as correspondências recebidas.

Após um tempo na doutrinação dentro do sistema prisional ou vivendo em cidades maiores, o egresso volta para sua quebrada de origem disposto a correr “pelo lado certo do lado errado da vida” e divulgar a “filosofia do 15”.

Um quinto das mensagens chegam de cidades pequenas da Região Norte do Brasil. São companheiros ou aliados que foram introduzidos na Família 1533, mas que agora se vêem abandonados e pedem minha ajuda.

Em terras inimigas, essas “crias do 15”, sem apoio do Primeiro Comando da Capital, acabam por rasgar a camisa ou terem seus corpos rasgados e seus corações e cabeças arrancados.

Santa Rosa, Peru. A cinco minutos de barco de Letícia e Tabatinga, as crianças brincam na água ao lado das casas de palafitas que mantêm suas casas à tona. Um policial patrulha a única rua de paralelepípedos da região, enquanto seus outros cinco companheiros se sentam ao redor de uma mesa, talvez se perguntando como poderão cobrir os mais de quinhentos quilômetros da margem do rio que separam Santa Rosa de Iquitos, o destacamento mais próximo no território peruano.

Três pequenas cidades adjacentes e interconectadas, cercadas por milhares de quilômetros de selva, acessíveis apenas por via aérea ou navegando por horas pelos fluxos da Amazônia. Um contexto de fronteiras porosas, onde em dez minutos você pode transitar pelos três Estados sem precisar passar pela imigração ou pelo controle de fronteiras. Em frente, grupos criminosos que lucram com negócios ilegais extremamente lucrativos: dezenas de laboratórios clandestinos de pasta de cocaína, toneladas de maconha a caminho dos mercados das grandes metrópoles brasileiras, dezenas de dragas ilegais que extraem ouro dos leitos dos rios, e centenas de espécies amazônicas coloridas contrabandeadas para os Estados Unidos e Europa.

E, assim como o rio arrasta seu fluxo, as atividades ilegais são acompanhadas por um fluxo lento, contínuo e ainda mais sombrio: o fluxo de armas e munições. O mesmo fluxo sombrio que matou…

Manuel Martínez Miralles —El País (leia o texto na integra)

A estratégia do 15 no Norte

Não são poucos ou fracos os núcleos dos PCCs na região Norte do Brasil, que tem quase 4 milhões de quilômetros quadrados — uma área equivalente aos territórios da Índia e do Paquistão somados.

O PCC aparentemente optou por se concentrar na disputa pelo controle da Rota do Solimões, das fronteiras e das capitais, e fortalecer os aliados, entre piratas ribeirinhos, quadrilhas locais e facções estruturadas, como o Bonde dos 13 (B13) no Acre.

O Primeiro Comando da Capital há tempos mina as fontes de insumos da Família do Norte (FDN), enquanto o Comando Vermelho (CV) toma suas biqueiras e mata seus integrantes.

No meio dessa guerra, os companheiros e os aliados recém-convertidos e egressos a suas comunidades não podem ser cobertos em núcleos isolados, mas os ventos estão mudando.

O enfraquecimento da Família do Norte

Enfrentando essa guerra de guerrilha das facções do sudeste, a FDN se enfraqueceu e se dividiu, e dividida a Família se enfraqueceu ainda mais — acelerando sua derrocada, até sobrar apenas um núcleo forte no bairro da Compensa, em Manaus.

Famílias que corriam com o Família do Norte estão sendo expulsas em Manaus

Estamos assistindo ao Primeiro Comando da Capital dar mais um passo em sua escalada para o controle hegemônico do mundo do crime sul-americano e a criação de uma eficiente cadeia transnacional de tráfico.

Com o quase desaparecimento dos FDNs, a guerra com o CV só seria evitada com uma nova pacificação, o que seria desinteressante para o Primeiro Comando da Capital nesse momento.

O Comando Vermelho enfrenta derrotas no Rio de Janeiro graças a dois fatores recentes: o fortalecimento das milícias pelo governo Jair Bolsonaro; e uma nova estratégia adotada pelo PCC, que está facilitando que seu aliado carioca Terceiro Comando Puro (TCP) tome comunidades do CV.

A prisão de Thiago Monteiro da Silva demonstrou que se atravessa um momento de transição, no qual os empresários locais, envolvidos com as organizações criminosas mantêm relações comerciais com as duas facções, esperando que elas definam quem sobreviverá.

No Paraguai, o assassinato do empresário Jorge Rafaat Toumani, demonstrou que há um ponto onde essa dualidade deixa de ser aceita, o que ainda não é o caso do Amazonas pós FDN.

O que muda com o domínio da Rota do Solimões

Com o controle da Rota do Solimões, da Rota Caipira, das centenas de distribuidores autônomos, a logística do tráfico internacional gerenciado pela facção paulista passa a integrar toda a cadeia do narcotráfico, desde os produtores rurais sul-americanos até a entrega do produto acabado nos portos da Europa e da África — o mercado interno de drogas do Cone Sul ajuda e também se beneficia dessa logística.

Pesquisa sobre o Primeiro Comando da Capital

Pesquisadores mineiros buscarão entender as razões do sucesso da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

A facção PCC 1533, Lavoisier e o pêndulo de Newton

Para entender o porquê de o Código Penal do PCC, a lei real do narcotráfico brasileiro, atrair tanto os garotos da classe média quanto os mais perigosos criminosos sul-americanos, William Henrique Silva e Caio Augusto Souza Lara se propuseram a pesquisar o tema.

É um orgulho para a Família 1533 ver sua ideologia se espalhar: a lei do certo pelo certo, na qual o errado é cobrado. No entanto, nem todos nos lembramos como tudo começou, mas foi mais ou menos assim, como eu, com a ajuda de Lavoisier, vou contar para você…

Como previsto por Lavoisier:

“Nada se cria, tudo se transforma”, seja na natureza ou na sociedade, e a facção PCC nada mais é do que um fenômeno social resultante de uma cadeia de eventos que transformou a energia de um impulso inicial — como em um pêndulo de Newton.

Tudo começou durante o Regime Militar…

Imagine uma mão soltando a primeira bolinha do pêndulo de Newton…

José Carlos Gregório, o Gordo, um dos fundadores da Falange Vermelha, nos conta:

Aos presos comuns de alta periculosidade da Ilha Grande foram acrescentados prisioneiros políticos, detidos pelo Regime Militar com a Lei de Segurança Nacional. Esses novos hóspedes, diferente de nós, sabiam o que era uma família, eram mais estruturados, mais educados, e viviam os dois lados: o criminoso e o da sociedade. Esses caras assistiam a tudo aquilo que acontecia dentro do presídio e chegaram para nós e disseram que os crimes que eram praticados pelos funcionários e também pelos próprios presos contra outros presos tinham que acabar.

Até então, dentro do presídio imperava a “lei do mais forte”, a do “todos contra todos” e a do “cada um por si”, mas o Estado soltou a primeira bolinha do pêndulo de Newton ao colocar os presos políticos juntos com os presos comuns do Rio de Janeiro.

Nasce a Falange Vermelha

A energia mecânica do impulso inicial se espalhou até que todos passaram a agir em harmonia, nascendo o primeiro grupo de encarcerados com consciência social dentro do sistema prisional brasileiro com um inimigo comum: os agentes repressores do Estado.

Desde então, dentro do presídio passou a imperar o “sozinhos somos fortes, unidos somos invencíveis”, “todos contra um”, e o “até a última gota de sangue” para defender os irmãos contra a opressão do Estado e dos outros presos.

Repare que, até aqui, o grupo que acabou vindo a se denominar Falange Vermelha buscava somente evitar os abusos do sistema prisional e seus agentes e dos presos mais fortes sobre os mais fracos, além de mediar, em paz, interesses e desavenças.

O correto seria defini-los como um grupo de prisioneiros, e não de criminosos, cujo pacto valia apenas dentro da muralha do Presídio da Ilha Grande. Ao sair, o egresso voltava a agir sozinho ou dentro de sua quadrilha por suas próprias regras e interesses.

A Falange Vermelha teve vida curta, mas deixou filhos, e, para manter o movimento, o Estado deu um novo impulso ao pêndulo: a violência policial nas ruas.

Nasce o Comando Vermelho (CV)

Os egressos do sistema prisional viram que a violência dos agentes do Estado acontecia também fora das muralhas, nas comunidades carentes a que eles pertenciam, e não se restringiam apenas aos criminosos: a covardia incluía trabalhadores, mulheres e crianças.

Agora eles sabem como agir.

Esses que saíram dos presídios passam a aplicar fora das muralhas o que aprenderam lá dentro: a força do “sozinhos somos fortes, unidos somos invencíveis”, “todos contra um”, e o “até a última gota de sangue” para defender os irmãos contra a opressão do Estado.

Nas comunidades cariocas, carentes de serviços públicos, os egressos se travestem de uma justificativa social e passam a ver e serem vistos como defensores dos mais fracos contra os mais fortes e contra a violência policial — síndrome de Robin Hood.

Assim nasce o Comando Vermelho sob o lema: “Liberdade. Paz. Justiça.”.

Diferente das normas de convivência da Falange, cujos conflitos eram negociados caso a caso, o Comando Vermelho cria um conjunto de regras fixas e válidas dentro e fora das trancas e que todos devem respeitar, independentemente da posição dentro da criminalidade.

O grupo criminoso estava restrito ao Rio de Janeiro, e, para manter o movimento, o Estado deu um novo impulso ao pêndulo: os perigosos presos paulistas.

Nasce o Primeiro Comando da Capital

Como besteira pouca é bobagem e os governos militares não fazem pouca bobagem, o governo de São Paulo, insuflado pelos generais de plantão, transfere para o Rio de Janeiro seus criminosos mais perigosos: assaltantes de bancos e sequestradores.

Os criminosos paulistas, após conhecerem o funcionamento do Comando Vermelho, voltam para São Paulo e organizam, no Presídio do Carandiru, o embrião do Primeiro Comando da Capital, sob o lema: Paz, Justiça, Liberdade, Igualdade, e União (PJLIU).

O embrião do PCC estava restrito ao Carandiru, e, para manter o movimento, o Estado deu um novo impulso ao pêndulo: o massacre dos 111.

A facção PCC após o massacre do Carandiru

Essa história ainda vai longe. Passo a passo, o Estado com a sempre atuante PMSP forneceu as condições favoráveis para a estruturação da mais eficiente organização criminosa da América do Sul.

Após o massacre, o Primeiro Comando da Capital se organizou e se fortaleceu na Unidade de Custódia de Taubaté, produzindo três documentos que definiriam o futuro das organizações criminais: Estatuto, Dicionário e a Cartilha de Conscientização da Família.

É um orgulho para a Família 1533 ver sua ideologia se espalhar: a lei do certo pelo certo, na qual o errado é cobrado. No entanto, nem todos nos lembramos como tudo começou, mas foi mais ou menos assim como eu contei para você.

Os pesquisadores mineiros, no entanto, querem saber

É nesse ponto que entram Willian Henrique, Caio Augusto e você, que talvez possa ajudá-los na busca por essas respostas:

Eles querem saber qual foi a estratégia adotada pela facção paulista para se tornar um modelo internacional de organização criminosa, e qual foi a sua influência nas outras facções brasileiras;

Eles querem saber qual é a razão de o Tribunal do Crime do PCC ser imitado tanto pelos moleques nas brincadeiras nos bairros periféricos quanto por seus inimigos: desde a Família do Norte, no Oiapoque, até aos Bala na Cara, no Chuí;

Eles querem saber qual é a importância do característico respeito à hierarquia e à disciplina dentro da organização criminosa na construção da facção PCC 1533 no imaginário popular; e

Eles querem saber qual é o impacto criado, na imagem da facção, da violenta aplicação de seu sistema de justiça, que utiliza meios bárbaros como:

  • desmembramento de um condenado enquanto o justiçado ainda está vivo;
  • o uso da cabeça arrancada de um inimigo morto para jogar futebol; e
  • filmagem da tortura, confissão ou troca de camisa, e morte.

Mas a pergunta que parece não se calar é: por que um grupo criminoso de grandes proporções chama tanto nossa atenção.

A pesquisa científica e os militares — hoje e ontem

A única resposta que William Henrique e Caio Augusto não precisarão buscar é sobre o responsável pelo sucesso da facção. Essa é conhecida: a mão que impulsionou a primeira bola do pêndulo de Newton e que nunca se omitiu de realimentá-lo com novos impulsos.

Lavoisier nos explicou a transformação de energia em movimento, e você pode ver essa teoria colocada em prática: o Primeiro Comando da Capital é uma daquelas bolinhas do centro do pêndulo, que foi impulsionado e também impulsiona.

Lavoisier pode nos falar sobre o futuro da proposta de pesquisa científica de William Henrique e Caio Augusto: Código Penal do PCC: a lei real do narcotráfico brasileiro, sobre como a facção foi formada e como se fortaleceu dentro do sistema carcerário.

Os pesquisadores mineiros parecem querer questionar a eficácia do “sistema penal e carcerário”, ignorando que as mãos que impulsionaram todos os movimentos aqui mencionados nunca se ocultaram sob o anonimato, tendo nome e patente conhecidas:

Os generais Newton Cruz e Golbery do Couto e Silva foram os idealizadores da transferência dos presos políticos para junto dos criminosos comuns, e depois dos presos mais perigosos de São Paulo para o Rio de Janeiro.

O presidente Jair Bolsonaro afirma que eles estavam no caminho certo e pretende seguir adiante, aperfeiçoando ainda mais esse sistema, que esses pesquisadores parecem querer questionar com sua pesquisa científica.

A última lição de Lavoisier:

Jean-Baptiste Coffinhal e seu séquito de mentecaptos cidadãos parisienses gritaram para Antoine Laurent Lavoisier enquanto este subia à guilhotina para ter sua cabeça cortada:

“A França não precisa de cientistas!”

Jair Messias Bolsonaro e seu séquito de mentecaptos “cidadãos de bens” gritarão para William Henrique e Caio Augusto:

O Brasil não precisa de pesquisadores, precisa de polícia nas ruas com licença para matar!

PCC: como surgiu, o que é, e como enfrentar

O pesquisador americano Ryan C. Berg analisa as condições que propiciaram o surgimento e a expansão da facção PCC 1533, a maior organização criminosa sul-americana.

A organização criminosa Primeiro Comando da Capital só terá sua operações transnacionais inibidas se os EUA e o Brasil desenvolverem uma ampla parceria anti-crime para as Américas. Com o governo americano designando a facção PCC como uma organização criminosa transnacional, haverá amparo legal para a extradição dos principais líderes. — conclui o pesquisador americano Ryan C. Berg no estudo Breaking out: Brazil’s First Capital Command and the emerging prison-based threat, publicado pela American Enterprise Institute.

Facção PCC 1533: origem e crescimento

Em apenas alguns anos, o Brasil emergiu como um importante corredor do crime organizado transnacional na América Latina. Os formuladores de políticas brasileiras responderam a insegurança generalizada do país e o aumento da criminalidade construindo prisões e acelerando a política de encarceramento.

No entanto, em vez de manter os brasileiros seguros de criminosos violentos, as prisões estaduais e federais geraram e se tornaram a sede operacional de um dos grupos criminosos com crescimento mais rápido e ameaçador da América Latina: o Primeiro Comando da Capital (PCC).

A estratégia governamental de encarceramento em massa, que lotam as prisões brasileiras com novos detentos exacerba o problema, uma vez que a facção PCC converteu as prisões do país em centros logísticos e centros de treinamento de atividades ilícitas.

Além do tráfico drogas e armas e de megaoperações de assalto a bancos, o PCC construiu uma burocracia altamente funcional para sua governança interna, o que permitiu ampliar seu controle além dos muros da prisão para fornecer ordem aos vastos territórios onde o governo não se fazia presente, executando de maneira altamente eficaz ataques sincronizados contra as forças públicas e passando influenciar a política eleitoral do Brasil.

O rápido crescimento do PCC na América Latina demonstra que os presídios transformaram-se no fator de incremento ao crime organizado. A facção paulista mostrou-se imune ao encarceramento e convertendo as prisões do Brasil, de inibidores da criminalidade para multiplicadores do crime. No Brasil, o encarceramento deixou de ser o caminho para desmantelar o crime organizado transformando-se na porta de entrada para novos integrantes.

Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, são campo fértil para a expansão do Primeiro Comando da Capital. Esses países não têm experiência significativa no combate a grupos criminosos do porte da facção paulista, que pretende aproveitar essa fragilidade para continuar seu desenvolvimento explosivo, tornando-se a organização criminosa com maior domínio na América Latina desde o famoso Cartel de Cali.

Facção PCC 1533: o que você não pode deixar de saber

• Grande parte dos homicídios no Brasil resultam da guerra entre facções pelo domínio de pontos de vendas de drogas no varejo e o domínio das rotas transnacionais, sendo muitas mortes se dão dentro do superlotado sistema prisional.

• O PCC tomou forma em São Paulo durante o início dos anos 90, como presos organizados contra más condições carcerárias para impor ordem e preservar vidas. Eventualmente, a facção passou a projetar sua influência e controle bem além dos muros da prisão, nas vastas favelas urbanas brasileiras.

• O PCC derrotou muitos de seus rivais domésticos, estando hoje presente em todos os estados do Brasil e com operações em quase todos os países da América do Sul. A organização criminosa fechou parcerias comerciais com grupos mafiosos europeus e o Hezbollah libanês, e a recrutar guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e refugiados venezuelanos.

Para ler o estudo completo de Ryan C. Berg acesse: Breaking out: Brazil’s First Capital Command and the emerging prison-based threat, publicado pela American Enterprise Institute.