Facção PCC — realidade ou estereótipo

É possível vencer uma lenda? Qual a origem da nossa ideia do que é a organização criminosa Primeiro Comando da Capital e como são e como agem seus membros.

Quem falou para você quem é ou como são os PCCs?

Você não precisa me contar quem foi o cagueta que falou para você sobre a facção ou seus membros, quero, apenas, que diga quem forjou em sua mente aquilo que você acredita que seja o Primeiro Comando da Capital.

Você não nasceu sabendo, tampouco seus pais eram irmãos batizados do 15, companheiros ou aliados da organização criminosa. Então, de onde foi que você tirou a ideia do que é ou de como vivem, agem e pensam os garotos da facção?

Você se lembra? Acho que não.

Essa imagem foi criada ao longo do tempo, paulatinamente recebendo informações por meio de terceiros, seja de fontes primárias nas ruas, biqueiras ou nos presídios, ou secundárias, através da mídia ou de comentários de terceiros.

Leio quase todos os artigos publicados sobre o Primeiro Comando da Capital nos últimos anos, e são poucos os geradores de notícias fora do eixo: Folha de S.Paulo, Estadão, UOL, Globo, Campo Grande News e Diário do Nordeste.

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O PCC 1533 na TV é o mesmo que na mídia digital

A mídia televisiva é um show que não acrescenta informação, mas produz espetáculo. Talvez ainda seja a principal formadora da opinião sobre o que são os facciosos.

As pautas, que ilustram e repercutem o conteúdo já produzidos pelas fontes-eixo — até quando o helicóptero do Datena acompanha uma operação ao vivo do GAECO —, são opiniões e informações reproduzidas da base geral.

Você, o irmão batizado do 15, os companheiros e os aliados da organização criminosa, estiveram expostos e construíram sua imagem ou autoimagem sofrendo influência dessas mesmas fontes, ao mesmo tempo que as influenciavam.

“O que é o grupo criminoso e como agem e são seus membros” são ideias produzidas, e não fatos consumados. A imagem está sendo constantemente reescrita, influenciando e sendo influenciada pela mídia, que a reconstrói em parceria com toda a sociedade.

“… a imagem faz mais do que nos estender a mão. Ela segura a nossa e depois nos puxa – aspira-nos, devora-nos – inteiros no movimento ‘mágico’ e ‘misterioso’ da atração empática e da incorporação”.Georges Didi-Huberman.

A ideia que poderíamos saber definitivamente algo sobre qualquer organização humana foi pensamento predominante em um mundo que já não existe, ruiu com as muralhas da Bastilha em 1789, se bem que algumas pessoas demoraram um pouco a perceber.

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Herói — iguais, porém diferentes?

A representação do que seriam as figuras do vilão e do herói muda de pessoa para pessoa, e o que é considerado “herói” para um grupo de indivíduos e classe social não é obrigatoriamente o mesmo para outros grupos e classes.

No entanto, é preciso entender que essas imagens, tanto do vilão quanto do herói, são construídas por meio da mídia (e essa construção afeta, também, a autoimagem das pessoas).

O Efeito Dobradiça de Tarcília Flores

Um policial pode se ver e ser visto como herói, aquele que “protege a sociedade”, assim como um membro da facção criminosa pode se ver e ser visto como “correndo pelo lado certo da vida errada”, levando paz e segurança à sua quebrada.

“… policiais, que muitas vezes a própria sociedade não reconhece, com justiça, os esforços desses homens e mulheres para a manutenção da paz… que juraram servir e proteger, ainda que seja necessário dar suas vidas no cumprimento dessa promessa” — verso.

“Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila. […] Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas do PCC.” — reverso.

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Vilão — iguais, porém diferentes?

Um policial pode ser visto e descrito como vilão, como alguém que abusa da autoridade, oprime as comunidades pobres e é corrupto, assim como um membro da facção criminosa pode ser visto e descrito como aquele que mata, rouba e toma a comunidade em que vive.

“Agentes penitenciários teriam sufocado detentos do presídio de Avaré 1 (distante 239 km de São Paulo) em sacos pretos com fezes e urina durante uma inspeção de rotina ocorrida nos dias 4 e 5 de dezembro do ano passado.” — verso.

“De acordo com uma testemunha, que alega ter sido obrigada a assistir a execução, o crime foi praticado por quatro homens que se intitularam membros de uma facção criminosa de São Paulo (PCC).” — reverso.

Tanto o policial como o faccioso estarão no seu dia a dia alimentando o mito, a construção da imagem, mas, ao mesmo tempo, estarão sendo influenciados pela mídia, que estará sofrendo pressão inconsciente de seus consumidores.

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Você sabe o que é o PCC ou vê um estereótipo?

Outro dia, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde demonstrou como a elite intelectual não conhece o Primeiro Comando da Capital, mas tem uma forte imagem estereotipada da facção — é o exemplo do medo dissecado por Reginaldo em seu trabalho.

Reginaldo Osnildo Barbosa, em sua tese “Análise do fortalecimento da imagem do vilão mediante o medo expresso nas tecnologias do imaginário” (UNISUL), busca compreender a construção pela mídia das figuras distorcidas do herói e do vilão no imaginário social.

Eduardo Portanova Barros explica porque eu, você, a colunista do Estadão e os faccionários, mesmo recebendo as mesmas informações, teremos opiniões e sentimentos tão díspares sobre esse mesmo assunto:

“… o imaginário não é uma coleção de imagens somadas, mas uma rede onde o sentido se encontra na relação.”

O Primeiro Comando da Capital é imbatível, invencível e intocável, independentemente das afirmações de Lincoln e seus colegas, das operações de nomes exóticos do Ministério Público, da Polícia Federal, da Força Nacional ou até mesmo da sua opinião sobre isso.

A facção estará tão viva e fortalecida quanto o imaginário pintado nas mentes e nas almas daqueles que vivem nas prisões e nas periferias, seja com uma liderança una e forte ou descentralizada.

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Se combatermos o mal, poderemos vencê-lo

Um estereótipo, uma imagem construída, não pode ser vencido pela força das armas — isso é fato, o resto é especulação. Como disse o filósofo alagoano Mário Jorge Lobo Zagallo: “É para vocês. Vocês sabem quem são. Não preciso dizer mais nada. Vocês vão ter de me engolir”

Juan Carlos Garzón Vergara afirma que é possível vencer facções, como o Primeiro Comando da Capital, basta eliminar sua causa: o Estado sem capacidade de executar e garantir o respeito por seus próprios regulamentos.

Você não precisa me contar quem foi o cagueta que falou para você sobre a facção ou seus membros, mas quero que reflita sobre como você vê o PCC 1533 hoje e, principalmente, sobre quais partes dessa imagem da facção fazem parte da realidade e quais são construções fantasiosas.

Existirão irmãos e companheiros da organização criminosa, independentemente das ações de Lincoln e seus colegas — a menos que mudemos a forma como nós, os membros das diversas classes de nossa sociedade, se relacionam entre si e em relação ao Estado.

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Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Imagem é tudo: os facciosos do PCC como vilões

A imprensa como construtora do imaginário do membro da facção Primeiro Comando da Capital como vilão e “inimigo público número um”, e os números do Google Trends 2018.

Os ataques do PCC acabaram, mas o pior vem agora

Eu aguardei o fim dos ataques promovidos pelo Primeiro Comando da Capital para fazer uma análise sobre dos números referentes ao período de movimentação da facção. Não pretendo me ater aos ataques e suas causas, e sim no interesse popular.

Este site possui uma página com dados estatísticos em tempo real que podem informar sobre as ações dos membros do PCC na linha do tempo e em sua localização geográfica – ferramentas interessantes para quem estuda a organização criminosa.

Outras ferramentas complementares estão disponíveis em outros pontos do site. Então, esperei os dados indicarem que a turbulência havia passado e fui compilar as informações — simples assim.

Antes de postar os resultados, encontrei-me com Reginaldo. Pior viagem. Se arrependimento matasse, eu teria sido fulminado. Reginaldo destruiu, ou melhor, desconstruiu toda minha linha de raciocínio.

Talvez você conheça Reginaldo Osnildo Barbosa por ter lido seu livro “Vidas quebradas: reflexos do crack”. Eu só vim a conhecê-lo por meio de sua tese “Análise do fortalecimento da imagem do vilão mediante o medo expresso nas tecnologias do imaginário” (UNISUL).

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PCC 1533, poder e medo registrado no Google Trends

Tudo me parecia simples com o fim da onda de ataques, no entanto, Reginaldo mostrou que não, o pior viria agora: é preciso entender o que se passou comigo e contigo, mas, principalmente, o que se passou com a imprensa.

“Quando tiros desferidos contra postos policiais, ônibus queimados e outros incidentes levaram medo para dezenas de cidades…” — É quase impossível afirmar quando essa frase foi pronunciada, encaixando-se perfeitamente em diversos momentos após 2002.

Quem nasceu após 1995 apenas o que ouviu falar sobre o poder e o medo que a facção paulista pode gerar. A média de interesse pelo termo “Primeiro Comando da Capital” segundo o Google Trends, em 2018, até o dia 15 de junho, estava em 9,5 pontos, contra uma média histórica de 3,4 pontos de fevereiro de 2004 até dezembro de 2017.

Eu considerava momentos de pico quando as buscas pelo termo alcançavam a marca de 6 pontos — em catorze anos, esse fenômeno ocorreu em 10 ocasiões, sendo que em 2018 apenas o mês de maio ficou abaixo dessa marca.

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Picos históricos de busca para o termo “Primeiro Comando da Capital”

  1. 2006, de maio, 100 pontos — Mega ataque em São Paulo;
  2. 2006, agosto, 29 pontos — Sequestro de repórter da Globo para divulgação do estatuto;
  3. 2018, junho, 14 pontos — queima de ônibus em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte contra tortura e falta de condições nos presídios, ações de inteligência contra a facção;
  4. 2018, de fevereiro a abril, pico de 14 pontos — Assassinato de Gegê do Mangue;
  5. 2004, junho, 10 pontos — (Deus sabe o porquê);
  6. 2012, outubro e novembro, pico de 10 pontos — 20 anos de Carandiru — eleições municipais;
  7. 2005, dezembro, 8 pontos — balanço geral do ano do Mega ataque;
  8. 2017, janeiro, 7 pontos — Massacre no Presídio de Compaj — Guerra contra a coligação FDN–CV no norte do país;
  9. 2017, de dezembro à janeiro de 2018, 7 pontos — Guerra entre PCC e as facções FDN–CV; e
  10. 2006, dezembro, 6 pontos — PCC e as escolas de samba.

Onde citei neste site os ataques de 2006 → ۞

Eu, você, a imprensa, o PCC e a colunista do Estadão

A colunista do jornal O Estado de S. Paulo, Eliane Cantanhêde, chamou-me a atenção para a forma como a imprensa repercute o ponto de vista do Estado e de suas forças policiais sem se preocupar de fato com a verdade:

“Depois dos caminhoneiros […] o Brasil está tentando respirar, e agora, esses ataques do PCC, e isso é muito grave porque não tem reivindicação nenhuma por trás, eles inventam que é por causa das condições dos presídios, mas não é, né? É uma demonstração de força, né?

E é muito preocupante, num país que está aí machucado por uma série de coisas. Foram 24 ônibus queimados em 24 horas em Minas Gerais por ordem do principal e mais perigoso e aterrorizante grupo criminoso do país, que é o PCC. Os estados estão de cabelo em pé preocupados, porque é ordem do PCC.”

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para a situação no seu artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Onde citei neste site a imprensa → ۞

A imprensa e os ataques do PCC de junho de 2018

A imprensa oficial demoniza as facções criminosas e a crise carcerária, utilizando-as como espetáculo de circo televisivo, como já havia nos contado Gilson César Augusto da Silva, no trabalho “Reality Show das Prisões Brasileiras”.

Por outro lado, há a mídia alternativa fortalecendo a imagem do fora da lei Robin Hood, e dessa forma chegam histórias contadas por pessoas como José Carlos Gregório, mas nos ataques em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte ouviu-se apenas uma voz.

O absurdo comentário de Cantanhêde, de que não havia exigência ou consistência nos ataques do PCC, se explica nesse contexto. A autora estava trabalhando, conscientemente ou não, para a construção de um mito, para o reforço de uma imagem do crime organizado (vilão).

À exceção do trabalho da repórter Carolina Linhares, da Folha de S. Paulo, que destacou tanto a causa do conflito quanto a posição do governo e a ação das forças públicas, em mais de uma centena de reportagens só as consequências e a ação das forças públicas foram noticiadas.

Até mesmo o UOL, em uma reportagem assinada por Carlos Eduardo Cherem, replica o discurso oficial e termina informando que: “A PM ainda informou que uma árvore foi queimada no local.” — mas não citou a demanda dos manifestantes.

“As matérias noticiosas são carregadas de imaginários, que por sua vez geram identificação com a imagem que é fortalecida, angústia diante dos acontecimentos, alegria perante as conquistas coletivas; mas também disseminam o medo já existente, levando a uma interpretação comum entre os consumidores.

Enquanto instituição, o jornal faz circular na sociedade sentidos naturalizados a partir da imagem (validada) que projeta na sociedade, como se estivesse propenso a exercer a função de informar, relatar a verdade”

A falta de espaço para apresentação democrática de um pleito leva às manifestações violentas. A história demonstra que o controle da imprensa somado à ação policial apenas protelam e intensificam as ações seguintes, que tendem a ter cada vez mais força.

Onde citei neste site a queima dos ônibus → ۞

Eu e você na construção da imagem do integrante do PCC

Reginaldo demonstra que todos nós somos responsáveis pela construção da imagem do integrante da facção Primeiro Comando da Capital e, ao mesmo tempo que consumimos a ideia, ajudamos a reforçá-la.

Procuramos as notícias sobre a facção que nos agradam, e os meios de comunicação vão produzir para nosso consumo o produto que nós buscamos; assim, a construção e o reforço da imagem é autoalimentada, e se distancia cada vez mais da realidade.

A qual estereótipo você se alinha? Ou talvez você não esteja entre os dois extremos, e sim perdido na bruma existente entre a luz e as trevas:

  • O membro do PCC é aquele que mantém a ordem, a lei e a disciplina nas periferias e nas prisões, e sem sua presença voltamos ao caos?
  • O membro do PCC é o mais perigoso dos bandidos, capaz dos crimes mais brutais e um câncer a ser extirpado mais rapidamente do seio da sociedade?

Os números do Google Trends demonstram que, independente de seu ponto de vista, a presença do membro da organização criminosa paulista, seja como vilão ou como herói, nunca esteve presente de maneira tão intensa e por tanto tempo ininterrupto.

O que isso pode significar? Bem, eu não sei, mas se você quiser pode perguntar para o Lincoln ou Cantanhêde, ele provavelmente vai lhe dizer que estamos assistindo o colapso do PCC, e o início de uma nova era, ou, talvez – apenas talvez – prefira ter a opinião da repórter Carolina Linhares, da Folha de S. Paulo.

Onde citei neste site o promotor de Justiça Lincoln Gakiya → ۞

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

PCC 1533 — aqui homem é homem

Dois psicólogos questionam as razões pelas quais os traficantes são homofóbicos e prezam por sua masculinidade — mas os traficantes não estão nem aí para os dois.

A questão da masculinidade e da homofobia no PCC

Saída obrigatória para feministas e gays

Às feministas e aos homens que buscam se libertar das amarras estigmatizantes impostas culturalmente sobre sua sexualidade, indico o podcast “Masculinidade e Sentimentos” do programa Mamilos. Se esse não é seu caso, continue a leitura…

Camila, André e Wiliam, cada um sob sua perspectiva profissional, já haviam puxado esse assunto, mas foi o pastor Anderson Silva da Igreja “Vivo por Ti”, afinal, quem me convenceu a preparar este artigo, quando declarou que…

“… sem homem a vida não funciona, não funciona nada, não funciona a igreja, não funciona a família, não funciona a sociedade, pois o homem é a engrenagem central.”

Tentei imaginar um mundo onde a polícia e os criminosos não fossem homens, mas não consegui — tente você, quem sabe se sai melhor que eu (cuidado para não produzir em sua mente um enredo de pornochanchada brasileira da década de setenta).

A socióloga Camila Nunes Dias foi a primeira a me chamar a atenção para o machismo e a homofobia dentro da estrutura criminosa, quando, em dezembro de 2016, em entrevista para o repórter Guilherme Azevedo da UOL, ressaltou os costumes conservadores da organização:

… a principal atividade do PCC é ganhar dinheiro com meios ilícitos. Mas só o aspecto econômico não define o grupo. O PCC não é revolucionário, é uma organização conservadora e que tem valores como o machismo e o repúdio aos homossexuais.”

Confesso que ao ler o título da matéria, já, de cara, discordei de Camila, afinal, considerar uma facção criminosa como uma “organização conservadora” me pareceu um absurdo, assim como dizer que polícia e bandido são iguais, como fez Tarsila e Anderson Silva.

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Mulher quer homem de verdade (macho alfa)

A doutora em Direitos Humanos Tarsila Flores me irritou quando veio com essa história de “efeito dobradiça”:

[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…

Tarsila afirma que a violência e o preconceito são características tanto dos criminosos quanto dos policiais. As duas partes, que se achavam antagônicas, na realidade se espelham, e o pastor Anderson Silva expande esse conceito para a sexualidade:

“Inconscientemente, mulher gosta de bandido. Inconscientemente, mulher gosta de policial. Inconscientemente, mulher gosta de um heroísmo. Porque o bandido é o chefe do bairro, e isso sugere o que? Proteção. O policial militar é símbolo de força, farda significa poder. Olha só o recado que é enviado, é subjetivo.”

No entanto, não foi nem Tarsila, nem Camila, e muito menos Anderson Silva, quem me esclareceu sobre a questão da sexualidade dentro da facção PCC. Foram os psicólogos André Masao Peres Tokuda e Wiliam Siqueira Peres.

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Lobos em busca de suas alcateias

O artigo “As relações de gênero e os sujeitos que atuavam, atuam, no comércio de drogas ilícitas”, escrito por eles e publicado na Revista INTERthesis da UFSC, aborda a necessidade de os integrantes desses grupos sociais provarem que são “homens de verdade”.

Ao escolher essas profissões, o indivíduo busca participar de um grupo social, cujo estereótipo melhor se adequa a sua personalidade, e dessa forma acaba alimentando ainda mais o que seria a “realidade das ruas” no imaginário cultural:

Quando não se sente na pele, a mídia se encarrega de fortalecer o sentimento de medo que está em todas as classes sociais, seja temendo o bandido, o traficante, seja, principalmente na classe pobre e com pessoas negras, a violência da polícia.

Os pesquisadores avisam que focaram seu estudo nos traficantes de drogas, e afirmam que a questão da sexualidade é apenas uma das dezenas que influenciaram a escolha daqueles que optaram por esse caminho, mas é um fator que não pode ser ignorado.

Quase todos os que são presos por tráfico são oriundos de regiões conhecidas por serem “berços da criminalidade”; mas quais fatores biológicos, como aqueles genéticos, neurológicos, bioquímicos e psicofisiológicos, somam-se às conhecidas causas sociais e psicológicas na construção desses indivíduos?

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Garotos sem pais descarregando suas frustrações

Quando eu era garoto, apenas nas periferias se viam casos de famílias desestruturadas, sem a tradicional formação de pai, mãe e filhos, todos vivendo sob o mesmo teto até que os filhos se casassem e fossem viver a própria vida.

Todo problema do ser humano é um problema de paternidade, pode observar, os mais alucinados da sociedade tem um problema básico de orfandade, eu tenho, eu estou aqui todo tatuado por uma questão de orfandade, parece uma escolha, mas não é uma escolha…”

André e Wiliam demonstram que o Estado reforçou a ideia de que o aumento da violência estava vinculada às famílias desestruturadas, que viviam fora da concepção de “família nuclear”. Mas e agora que a classe média também abandonou esse modelo?

A mídia e o Estado já estão adequando seu discurso para refletir esses novos valores aceitos pela sociedade, mas, ao abandonarmos o discurso antigo, verificamos que a causa do problema pode estar na procura da afirmação e da satisfação da libido.

A afirmação de masculinidade, que tanto orgulho traz aos membros da facção PCC 1533 e das corporações policiais, nada mais seria que respostas irracionais, que objetivam resolver seus conflitos pessoais, descarregando, assim, suas tensões e frustrações.

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Você acha que todo preso é infame?

Os pesquisadores quase caíram na arapuca que tanta dor de cabeça deu à Sérgio Buarque de Holanda: chamar os presos de infames ― mas o velho mestre lhes mandou alguém para demovê-los desse intento.

Infames, pela ótica foucaultiana, são as pessoas que tornam-se invisíveis para a população ― como é o caso das pessoas que estão presas. Tudo bem, mas o brasileiro age de forma cordial, na ótica de Sérgio Buarque, e dessa forma desceriam o pau nos pesquisadores antes que eles tivessem tempo de se explicar.

Vale o que parece ser, e não o que realmente é. Até hoje, os estudos sobre a relação entre a masculinidade e os crimes se restringem às questões de gênero e violência doméstica ou contra a mulher ― vemos apenas o que nos interessa ver.

“Todavia, a partir de nosso referencial teórico e das entrevistas realizadas com os sentenciados, acreditamos que as definições do que é ser homem em nossa sociedade tem grande importância quando se pensa nos motivos da entrada para o ‘mundo do crime’.”

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Qual é o seu tipo de macho predileto?

“Muhammad Ali dava entrevista assim, ó! Era um nego folgado, brother! Ele dava entrevista, ó, era forte, brother! Ele insultava outros negros, ele confrontava outros boxeadores que não se posicionavam em relação às questões raciais da época. Então imagina isso na alma feminina? Negão assediado, heroísmo desperta libido!”

Não tem a menor importância qual o tipo de homem que você considera macho, pois Georges Daniel Janja Bloc Boris afirma que cada um de nós terá um conceito diferente sobre a masculinidade ― mas é interessante saber a imagem idealizada nas periferias.

Se aquele ambiente estiver vinculando a imagem do “homem viril” ao profissional do crime, os garotos tentarão se integrar aos grupos criminosos. Por essa razão, André e Wiliam buscam alertar para esse ponto da construção do imaginário.

Nas periferias, o macho procurado pelas arlequinas e pelas novinhas não é “o homem branco, de classe média, heterossexual, viril, procriador, cristão e impenetrável”, como nos fez crer “Robert Connell”; é o ladrão, é o Muhammad Ali tupiniquim.

… meninos entram para o tráfico e meninas pegam uma barriga deles. Quanto mais poderoso e rico é o menino, mas elas disputam entre si pra ver quem vai engravidar dele primeiro. Estamos falando de meninos e meninas de 16 a 20 anos.

Luiz Felipe Pondé

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Aprendido em casa e nas ruas, e reforçado atrás das muralhas

Simone de Beauvoir afirma que o conceito do que é ser homem e do que é ser mulher é um padrão comportamental construído através da cultura, e temos um ambiente extremamente machista dentro das muralhas.

Nas prisões, cada momento do dia é um “exercício de rivalidades e confrontos de forças entre machos, sobre machos, que garantiam a sobrevivência e o privilégio de deter o poder, dentro do presídio, sobre os outros presidiários; dupla penalidade: do estado sobre seu corpo enquanto criminoso, do líder da prisão sobre seu corpo enquanto inferioridade e submissão.”

A hegemonia do Primeiro Comando da Capital suavizou as relações. Antes do domínio da facção paulista, o homem que não conseguia se garantir, através da força ou do dinheiro, virava “mulherzinha” ou escravo sexual ou laboral atrás das grades.

No entanto, ainda hoje, o interno, seja um menor em uma fundação socioeducativa ou em uma prisão de segurança máxima, seja um primário que acaba de chegar ou o líder da organização criminosa paulista, todos têm que garantir seu lugar dia a dia.

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É assim que funciona — é mais não é

Os pesquisadores concluem, então, que os homens envolvidos no tráfico de drogas são pessoas que têm propensão a atitudes machistas; no entanto, os estudiosos lembram que não é essa a razão de haver crimes ou tráfico de drogas.

Dentro das organizações, não se questionam as razões do ambiente ser homofóbico, machista e conservador. Pode-se dizer que discussão se restringe sociedade extramuros, mas nem os pesquisadores conseguiram achar uma literatura consistente a esse respeito.

Uma visão utilitarista pode argumentar que os facciosos se protegem ao criar mecanismos contra o abuso sexual dentro dos presídios, muito comum antes da hegemonia da facção Primeiro Comando da Capital nas penitenciárias.

Dicionário do PCC 1533 — Regimento interno da facção

36. Pederastia:
Se caracteriza quando se pratica sexo com pessoas do mesmo sexo, difere do homossexualismo porque o praticante é ativo somente e não passivo.
Punição: Exclusão e é cabível cobrança com análise da sintonia.

Para conhecer melhor os argumentos dos pesquisadores, só acessando o trabalho. Destaco, no entanto, um trecho de suas conclusões:

“Desmistifica-se a ideia de que todos trabalhadores do comércio de drogas ilícitas (do dono da boca até o vendedor) são os “terroristas brasileiros”, um olhar alimentado pela “mass media” e que sempre se atualiza no imaginário social. Propomos a ampliação desses olhares para as histórias de vidas destes sujeitos, não os colocando como coitados ou coitadas, mas que a desigual realidade social brasileira fique clara, assim como as normatizações de classes, gêneros, raças e cores que se tem em nossa sociedade e que participam da construção de desejos que inserem esses sujeitos aos contextos demarcados pelo comércio e outras atividades ilegais.”

Onde citei neste site o Tribunal do Crime → ۞