Caça à Máfia Russa no Brasil

A Polícia Federal faz uma minuciosa revista para comprovar a suspeita de que a máfia russa está atuando na região Norte do Brasil. O que de fato está acontecendo?

Separando o joio do trigo, os turistas dos mafiosos

A existência de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro da Máfia Russa no Brasil, até o momento, não passa de uma suposição que transformou nossos policiais federais em agentes “russofóbicos”.

O repórter Allan de Abreu nos conta como doleiros como Dalton Baptista Neman lavam o dinheiro da facção através de uma operação casada : um comerciante paga um fornecedor na China em Dólar convertido de criptomoeda disponibilizada por um comprador de cocaína na Europa, daí, esse comerciante recebe pela venda da mercadoria vinda da China no Brasil em Reais e então paga o traficante brasileiro que vendeu a droga na Europa.

O chinês Jiamin Zhang se estabelecer no Brás no centro de São Paulo e é o líder de um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de criptomoedas que pode ter movimentado bilhões de reais. Ele é acusado de trazer ao Brasil toneladas de cocaína vindas da Colômbia, Bolívia e Paraguai. Do território brasileiro, a droga era enviada para a Europa por portos da região sul do país.

Thaís Nunes detalha e dá nome aos bois

No entanto, a Polícia Federal brasileira ainda procura dinheiro nos bolsos, em uma verdadeira caça às bruxas, por vezes, transformando a vida dos turistas russos em um inferno — é o que afirma o empresário e aventureiro Artemiy Semenovskiy (Артемий Семеновский), que se autodenomina representante do CPLCRB (ОКОРГБ), autor de uma pérola sem preço: Рycckий Кokaиh b Бpaзилии – Рaзoблaчaem ЛoжЬ (Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras).

Em um mundo onde as criptomoedas são utilizadas para lavar do dinheiro até dos crimes domésticos, como se comprovou com a Operação Mamma Mia da Polícia Federal e da Receita Federal ao investigar uma pizzaria comandada pelos integrantes do Primeiro Comando da Capital que além de massas e queijo para pizzas, comprava criptomoedas e ouro para lavar dinheiro e financiar atividades da facção. — Lucas Caram para o Cointelegraph

Sei que você sabe que o CPLCRB é o Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil, então nem preciso te dizer.

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O russo, a Polícia Federal e o PCC

A maneira como Artemiy escreve me agrada, é como se ele estivesse contando um caso sobre algo que para os russos pode ser uma novidade, mas, para nós, é uma história conhecida: o que é e como nasceu o Primeiro Comando da Capital.

Artemiy Semenovskiy não economiza tintas de cores fortes para descrever a facção criminosa PCC 1533, o sistema carcerário brasileiro e a Polícia Federal:

“Paroxismo engraçado: o próprio poder gerou e criou seu inimigo mais terrível, porque o PCC surgiu como uma reação ao caos da polícia, à desumanidade do sistema prisional, à indiferença de juízes e funcionários.”

Por que os brasileiros querem insistir no mesmo caminho para ver se chegam a um destino diferente? Estranha o estrangeiro que se interessa pela política brasileira, apesar de parecer não ter uma ideia muito clara do que realmente acontece por aqui.

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Política como forma de diminuir a perseguição

Artemiy tenta criar um canal entre os governos brasileiro e russo para diminuir o preconceito das autoridades policiais tupiniquins, mas a instabilidade política dificulta o diálogo a longo prazo.

Com um governo sem rumo e uma polícia perdida e desmotivada não é possível controlar a criminalidade — retiram-se criminosos das ruas para colocá-los em universidades do crime.

Dentro do sistema prisional, o preso pode mandar matar o policial que o prendeu, e é assim em todos os estados, só muda a sigla da facção e a virulência da gangue, avalia Artemiy.

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As facções criminosas como desculpa

Nós brasileiros não aprendemos com o passado, mas Artemiy Semenovskiy, que é russo, vê aqui o que já aconteceu em sua terra com Lênin, ou na Alemanha com Hitler: a necessidade de nomear um bode-expiatório.

Para Artemiy, a bola da vez são as facções criminosas, de preferência o PCC, mas para que o plano seja perfeito é preciso que o inimigo seja externo.

A Máfia Russa cumpre duas funções: a de inimigo externo, que não pode ser tocado e nem mensurado, e a de símbolo de descrença na oposição política, uma vez que o atual governo brasileiro ainda pode acusar o anterior de conspirar com a Rússia.

O inimigo perfeito, pois até os PCCs, por fazerem parte da sociedade brasileira, são parte integrante da corrente de “cordialidade”, nos termos do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda.

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Nas eleições vale tudo

O mérito das propostas dos candidatos não faz diferença em campanha eleitoral, o que vale é o poder de vender a ilusão que o inimigo, real ou imaginário, possa ser contido, mesmo que para isso o governo escolha atacar grupos minoritários.

Para Artemiy a escolha já foi feita: as pessoas encarceradas e os russos.

Quando me deparei com o texto desse russo, achei que era um garoto que estava criando uma teoria da conspiração com o seu Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB), mas depois de dois dias de intensa pesquisa, vi que realmente o cara ficou preso em Manaus e tem conhecimento de causa.

Agora, cabe a você analisar a situação com o seu conhecimento, somado aos dados compartilhados por Artemiy, e concluir se ele realmente tem razão, total ou parcial, nas conclusões às quais chegou.

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O preconceito pode mudar de lado

PCC se benefica contra preconceito contra venezuelanos

Você não pode dizer que um negro ou um bicha te assaltaram — ou qualquer outra forma politicamente correta ou não para descrever alguém que seja de outro grupo social.

Todo preconceito é desprezível…

… ou melhor, todo preconceito contra nossos iguais, contra os que não pertencem ao nosso grupo pode:

“Quando alguém relata um assalto em Boa Vista-RR, as outras pessoas logo perguntam: “O bandido era venezuelano?”. Os imigrantes estão na boca de quem reclama do crescimento da criminalidade e também do aumento da demanda por serviços essenciais, como saúde e educação.”

Enquanto isso, no mundo real, que não está nem aí para nossos preconceitos:

“Tem havido um crescimento da violência no Estado por causa do rompimento do acordo entre as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Amigos do Norte, causando assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios, mas isso é na grande criminalidade. As infrações cometidas por venezuelanos não são a maioria, e geralmente são de menor potencial ofensivo: furtos de pequenas posses, como alimentos e celulares.”

Há pouco tempo, os caminhoneiros e aqueles que eram a favor da intervenção militar eram aplaudidos pelas ruas, bastaram alguns dias para que o preconceito contra esses dois grupos os jogassem pelo menos parcialmente na lama — cuidado você pode ser o próximo.

Turistas russos pedem indenização de 7,7 milhões

O PCC e a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)

Renata Siuda-Ambroziak analisa a evolução social brasileira pós-regime militar e associa religião, política, economia, PCC e IURD.

Religião, política e futebol não se discutem, mas se misturam

Não foram poucos os trabalhos que apresentei a você mostrando a forte influência da religião no Primeiro Comando da Capital. Aquele que mais me marcou foi o MATA-MATA: reciprocidades constitutivas entre classe, gênero, sexualidade e território.

Roberto Cordoville Efrem de Lima Filho demonstra brilhantemente que não se pode analisar o fenômeno Família 1533 sem levar em conta o ambiente histórico, comportamental e religioso da sociedade carcerária brasileira.

Da mesma forma, a pesquisadora Renata Siuda-Ambroziak busca fazer uma análise global no seu artigo Política das igrejas neo pentecostais durante a transformação política no Brasil publicado pela Uniwersytet Marii-Curie Skłodowskiej (UMCS).

É fato que, ao contrário de Roberto, Renata cita a facção paulista apenas de passagem, para ilustrar o inferno no qual o bispo Macedo foi jogado ao ser preso:

“… a Polícia Militar, realizou o assassinato em massa de mais de uma centena de prisioneiros, matando presos deitados com tiro na parte de trás da cabeça. (…) aqueles que sobreviveram ao massacre criaram no final dos anos 90 a maior organização criminosa do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC), responsável, entre outras coisas, pelo tráfico de drogas, sequestro e extorsão — enquanto Macedo estava preso, pessoas estavam sendo mortas no Carandiru atrás dos muros da prisão.”

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A fonte que sacia a sede da IURD sacia também o PCC

Há uma forte relação entre a expansão do Primeiro Comando da Capital e da Igreja Universal do Reino de Deus. Ambas são consequência da busca pela satisfação da demanda por segurança da sociedade brasileira redemocratizada após duas décadas de Regime Militar.

As igrejas neopentecostais e a facção paulista cresceram atreladas às mudanças culturais, políticas e sociais dessa nova realidade, em que parte da população buscou abrigo em grupos desvinculados aos antigos detentores do poder, como a Igreja Católica ou a polícia.

Quem conheceu ou vivenciou as demonstrações de fé dos integrantes do PCC conhece a forte influência dos grupos pentecostais e neopentecostais na facção, apesar de vivermos em uma nação de maioria católica e com forte influência das religiões afro-brasileiras.

Renata foi a primeira a me explicar a razão da disparidade entre o quadro esperado e a realidade dos fatos. Ambas as estruturas sociais cresceram simultaneamente, captando pessoas que buscavam novos caminhos após a queda do Antigo Regime.

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Melhore de vida sendo nosso irmão

A Igreja Universal do Reino de Deus e o Primeiro Comando da Capital traziam em sua essência promessas de aceitação e ascensão social, melhora do poder de compra, esperança de enriquecimento e, de quebra, esclarecimento moral e espiritual para a vida de seus integrantes.

Renata denomina esses como “fatores de eliminação psíquica do risco e a redução do estresse”, que são utilizados pelas lideranças desses grupos para otimizar seus resultados, concentrando esforços em áreas em que há maior carência desse serviço.

A insegurança e as desigualdades sociais ostentam-se no Brasil redemocratizado — mais de 50 milhões de pessoas vivendo na faixa da pobreza e meio milhão presos, sofrendo atrás das muralhas todo tipo de violência e humilhações.

As pessoas que sentem alguma forma de privação grave ou ameaça imediata à vida ou à saúde se apegam a alguma crença a fim de mudar a situação — o engajamento em causas religiosas e em outras alternativas precárias é duas vezes maior entre a população mais pobre.

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Avançando sobre as classes média e alta

Após dominarem os cárceres e as periferias, as duas organizações continuaram a crescer, infiltrando-se em outras camadas sociais — Renata diz que esse comportamento já era esperado e é reflexo da busca pela diminuição da desigualdade social.

Na América do Norte, os cidadãos têm um bom poder aquisitivo; porém, a insegurança sobre a estabilidade econômica individual e a percepção das diferenças do poder de compra são marcantes, o que faz com que o fenômeno também ocorra lá.

Quanto mais rica é uma pessoa, menos ela sente os efeitos da desigualdade social e da insegurança, tendo, assim, menor necessidade da religião ou da participação em grupos para garantir sua sobrevivência — no entanto, ainda assim esse indivíduo não é uma ilha.

Dessa forma, as gangues e as igrejas neopentecostais ganham espaço em território americano e por aqui, recebendo jovens das classes média e alta, levados pela insegurança quanto a um possível fracasso econômico ou pelo interesse em proteção contra seus inimigos.

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Próximo passo: as eleições

A organização criminosa e a religiosa se articularam em todas as eleições, utilizando, assim como outros entes da sociedade, seus nichos para tentar colocar representantes nas casas legislativas — e até no executivo —, e esse ano não será diferente:

“Já fizemos as contas e temos a certeza de que vamos conseguir de 400 a 500 mil votos de familiares dos 150 mil presos de São Paulo e isso é suficiente para eleger não só um deputado federal, mas deputados estaduais e dar muita força a qualquer legenda que nos abrigar.”

”Líderes de igrejas evangélicas e partidos ligados a elas estão traçando uma estratégia para ampliarem suas bancadas na Câmara e no Senado a partir de 2019. O objetivo é aumentar de 93 para cerca de 150 o número de deputados federais e quintuplicar, de três para 15, o total de senadores.”

Ambos os grupos, no entanto, estão infiltrados dentro de diversos partidos políticos e linhas ideológicas, já que a política é o caminho natural para lutar contra as injustiças a crescente frustração econômica e a falta de perspectivas de solução para a questão carcerária.

Ao analisar o trabalho de Renata Siuda-Ambroziak, não temos como não ver similaridade nos percursos das duas organizações. Quem sabe essa eleição não possa ser o ponto em que ambas seguirão seus próprios caminhos?

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A IURD, o PCC e a advertência de Freud

Não é só no escrutínio eleitoral que a facção Primeiro Comando da Capital e a Igreja Universal convergem, ambas organizações são conservadoras nos costumes.

As rígidas regras de comportamento sexual impostas a seu adeptos, onde a masturbação, a homosexualidade, as relações fora e antes do casamento, e até a ereção sob a calça são severamente punidas — aqui nesse mundo pelo PCC e no outro mundo pela IURD.

Freud adverte: um ambiente que reprime o libido “produz uma necessidade de descarga, a fim de reduzir a tensão”.

Rícard Wagner Rizzi

O Sistema Prisional e as soluções estrangeiras

Adaptar a solução jurídica escandinava à realidade latino-americana é a proposta de dois professores chilenos que estudaram o sistema nórdico de penalização.


Você acredita que não seria possível adaptar para o Brasil a experiência nórdica?


Podemos nos comparar com os outros?

Concordo com você, não tem como comparar uma coisa com a outra: nem o sistema prisional escandinavo, nem o americano podem ser usados como modelo para o latino-americano. As condições econômicas e a forma de organização social são diferentes e impedem que utilizemos aqui essas experiências que foram aplicadas com sucesso lá.

Ana María Munizaga e Guillermo Sanhueza, no entanto, acreditam que é possível o modelamento escandinavo. É o que afirmam no artigo Una revisión del modelo carcelario escandinavo con notas para Chile, publicado na Revista TS Cuadernos de Trabajo Social, da Facultad de Ciencias Sociales y Humanidades, da Universidad San Sebastián.

Talvez seja difícil trazer para nossa realidade a experiência escandinava, mas a chilena, nem tanto.

“[…] as deploráveis condições de vida nos estabelecimentos penitenciários do país, aliadas à falta de uma política carcerária, não permite a reinserção social dos internos; […] celas abarrotadas, sem higiene, ventilação, e luz; […] os tratos cruéis e as situações indignas a que são submetidos os reclusos […]”

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Segurança para os Aspen e para os internos

Essa descrição feita pela fiscal da Suprema Corte chilena, Mónica Maldonado, poderia ser utilizada para qualquer instituição carcerária brasileira, então, realmente, não somos tão diferentes de nossos irmãos andinos — a opressão do Sistema não respeita fronteiras.

Os articulistas ressaltam que a busca pela adaptação ao modelo externo tem como finalidade não apenas o aumento do índice de ressocialização e das condições dos internos, mas também elevar a segurança e melhorar as condições de trabalho dos agentes penitenciários, além de beneficiar toda a sociedade. Pode ser que estejam sonhando de mais, pode ser que não.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, no entanto, acredita que é possível o modelamento segundo o sistema americano, por meio de sua proposta de introdução, aqui, da visita monitorada: o preso fala com seu advogado, parente, ou visita autorizada, separados por um vidro, através de um telefone, com a conversa gravada.

Se você acredita que não é possível adaptar a nossa cultura àquilo que foi utilizado com sucesso pelos nórdicos, deve pensar também que não é possível adaptar a nossa cultura àquilo que foi utilizado com sucesso pelos americanos.

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Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, ressaltou nossa característica cultural de agirmos com emoção. Emoção essa que faz com que eu e você nos decidamos se devemos ou não aceitar como possível a utilização, em nosso país, de uma experiência estrangeira deixando de lado uma análise racional, afinal, somos culturalmente emotivos.

A proposta escandinava, se bem aplicada e fiscalizada, economizaria rios de dinheiro para os cofres públicos ao colocar em liberdade uma massa de presos, que é o sonho do PCC 1533, sua proposta de vida, mas também é o seu maior pesadelo, pois ele se fortalece e se reproduz dentro das prisões superlotadas — quanto mais duro o sistema, mais forte ele fica.

A proposta americana, por sua vez, se bem aplicada e fiscalizada, economizaria rios de dinheiro para os cofres públicos ao evitar os crimes que ocorrem fora dos presídios, e também tornaria mais dignas as visitas, que não teriam que passar pelas vexaminosas revistas íntimas, que é outro sonho do PCC 1533 — mas que, assim, deixaria a facção sem as drogas e os celulares trazidos pelos visitantes.

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Somos brasileiros e não agiremos com a razão, e sim com a emoção

Aqueles que acreditavam antes de ler esse texto que o melhor é endurecer as penas e isolar os presos, acreditará que a solução americana será a melhor e deverá ser aplicada em nosso país — mesmo que os pesquisadores chilenos e a experiência escandinava provem o contrário.

“A superlotação de presídios alimenta o grupo, segundo apontam especialistas em segurança pública.”

Aqueles que acreditavam antes de ler esse texto que o melhor é humanizar as penas e socializar os presos, acreditará que a solução escandinava será a melhor e deverá ser aplicada em nosso país — mesmo que o atual governo e a experiência americana provem o contrário.

“No sistema tradicional, a sociedade já perdeu a guerra contra o crime. O sistema prisional comum é uma grande universidade, onde os antigos no crime ensinam os mais jovens e vão utilizá-los lá fora. O melhor local para se fazer um exército de marginais, de pessoas carentes e sem perspectivas, é a cadeia.” — Marcos Valério Fernandes

Curiosidade: os chilenos utilizaram a dissertação Da pulverização ao monopólio da violência: expansão e consolidação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema carcerário paulista, da doutoranda Camila Caldeira Nunes Dias, na elaboração de seu artigo, afinal, eles são chilenos, e não têm que se basear em suas emoções, e sim em sua razão.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

A companheira PCC e o sistema prisional feminino

O nascimento de uma companheira do Primeiro Comando da Capital dentro do sistema prisional feminino brasileiro e sua morte por decisão do Tribunal do Crime da facção.

Nós fomos presos, mas só a arlequina do PCC morreu

Eu, Egeu e Berenice somos primos e crescemos juntos. Ela foi uma companheira do Primeiro Comando da Capital, e isso Egeu não postou, mas não foi ele quem a matou — afirmo com certeza pois a vi morrer.

Egeu se incriminou e foi preso pela morte de nossa Berenice, e eu não o desmenti. Agora, Raíssa tocou em um assunto que se entrelaça com a nossa história, por isso, e só por isso, venho contar para você o que realmente aconteceu.

Há muitos anos, Egeu me disse que “é da alegria que nasce a tristeza, e a felicidade passada é a angústia daquilo que podia ter sido e acabou não sendo” — parece que ele estava prevendo nosso futuro.

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Não devíamos ter sido tão felizes e com tantas esperanças no futuro

Nós três, quando crianças, estávamos sempre juntos. Nossos pais trabalhavam fora e as casas ficavam só para nós, sem ninguém para nos dizer do que podíamos brincar ou não, e assim tivemos todas as aventuras que queríamos.

Também não havia limites fora de casa. As ruas, as praças e até a estrada de ferro eram também parques de diversões, eram palco para nossas apresentações e aventuras — felicidade e aventuras sem limitações.

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Diferentes caminhos para a prisão e para a morte

Após nossa separação, apenas Berenice continuou vivendo, se aventurando e sorrindo; mas se eu e Egeu deixamos de viver, ela, sem perceber, rumou para uma morte cruel em uma véspera de Natal.

Toda vida e alegria que Berenice até então reservava para nós passou a ser entregue aos garotos do bairro, e ela aprendeu rapidamente a se aproveitar das vantagens de ser uma novinha da quebrada.

Eu ainda os via ocasionalmente: Egeu cada vez mais nerd e com o pensamento fixo nela; e ela cada vez mais feliz e pensando em qualquer um menos nele — ela deixou de ser nossa Berenice para ser a Nice Loira.

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Nice Loira presa por tráfico de drogas

Não acredite nas manchetes dos jornais, nossa Berenice nunca foi traficante. Um dos garotos com quem ela andava era um vaporzinho, e ela às vezes guardava para ele a droga no sutiã.

Pela letra fria da lei ela foi considerada tão culpada quanto seria o dono da biqueira ou o distribuidor do bairro. Se você considera que ela mereceu o que recebeu, eu respeito seu ponto de vista, mas garanto que nossa Berenice não mereceu.

Ficou quase dois anos presa até conquistar o direito à saidinha: a primeira foi no Dia das Crianças; a segunda no Natal, apenas para ser morta ao entrar na casa de seus pais, que estavam como sempre trabalhando.

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O sistema prisional feminino e a facção paulista

Raíssa Tavares de Araújo apresentou a tese Privatização do encarceramento da mulher: a inaplicabilidade do contrato de parceria público-privada aos presídios femininos no estado do Rio Grande do Norte à luz da criminologia ao Centro de Ciências Sociais aplicadas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Raíssa contou como as coisas funcionam dentro de um presídio feminino e esclareceu a morte de nossa Berenice.

“Antes do surgimento do PCC, os presídios […] eram conhecidos por suas barbáries entre os próprios apenados. Surge, então, para estabelecer regras de Conduta e solidariedade entre os que se encontram com a liberdade privada. Quem ousasse desestabilizar a ordem imposta, podia ser penalizado com a morte.”

E nossa Berenice foi morta por ordem da organização criminosa, não pelas mãos de Egeu, que nunca foi do mundo do crime — ele confessou um assassinato que não cometeu por amor, amizade e burrice.

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Por que nossa Berenice entrou para o PCC 1533?

“A inércia do executivo e a conivência do Judiciário […] provocam o surgimento de escolas do crime. […] Como consequência, aumenta a criminalidade fora dos muros da prisão. Torna-se um círculo vicioso, em que o Estado ainda não encontrou uma forma de rompê-lo.

A ausência da presença pública gera um vácuo tanto nos presídios como em áreas periféricas São nesses lugares que se legitima essa força paralela, ao passo que prestam serviços assistenciais à comunidade e impõe suas leis. Ainda utilizam-se da miséria desse povo para renovar o quadro de membros de sua facção e se perpetuar no poder.”

A pesquisadora do Rio Grande do Norte disse tudo. Nossa Berenice, alegre, comunicativa e cheia de vida, também era a Berenice aventureira, guerreira e audaz, que aproveitaria a situação para se juntar, dominar e quem sabe liderar as feras.

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A arlequina volta para casa para morrer

Eu não cheguei a ver a nossa Berenice quando ela veio na saidinha do Dia das Crianças, mas Egeu me mandou uma mensagem contando que ela estava irreconhecível.

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“Ela está sofrendo de alguma doença que está tomando conta de seu espírito e invadindo a sua mente. Ela mudou, não é mais aquela Berenice que nós conhecemos. É terrível e está mudando sua personalidade quase não se dá para a reconhecer.

Eu choro ao lembrar daquela sua vida alegre e doce, e agora ela vivendo na ruína total, enquanto nós, que nunca levamos alegria para ninguém estamos aqui vivos e com saúde.

Quando ela chegou, sua magreza era excessiva é nada lembrava aquela garota ardente que nos fazia rir o tempo todo. Nunca imaginei que poderia ficar tão pálida e seu cabelo que sempre foi de um castanho quase ruivo que vivia caindo na testa da onde ela tirava sempre com um sorriso, agora estava de um loiro aguado amarrado em um coque.

Por Deus, preferia ter morrido do que vê-la assim. Que agonia ela está passando!”

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A beleza da vida — a beleza como razão de vida

Raíssa me mostrou a razão do porque nossa Berenice se deixou definhar:

“A prisão neutraliza a pessoa, principalmente as que pertencem às minorias, como é o caso das mulheres, que sempre foram subjugadas e castrados de suas vontades e em uma prisão a realidade da massa carcerária feminina chega a ser próxima à exploração em razão das características que apresentam: mulheres jovens, condenadas por crimes sem violência ou grave ameaça e penas longas.

Essas mulheres são fáceis de serem domadas em razão da vulnerabilidade que apresentam em decorrência do abandono por parte da família.

As prisões não estão preparadas para resolverem os problemas próprios das mulheres como gravidez, cólicas, higiene, limpeza e o cuidado com a beleza para elevação da auto-estima no cárcere.”

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Nice Loira julgada pelo Tribunal do Crime do PCC

Raíssa matou a charada, nossa alegre Berenice não sobreviveria a falta de cuidado pessoal, mas a facção não esperou a morte levá-la aos poucos.

Ao contrário do que Egeu declarou, ele nada teve a ver com a morte de Berenice — por mais que eu gostasse dela, Nice Loira não seguiu as regras de conduta e entregou uma colega para uma agente penitenciária.

Mesmo no lado errado da vida é preciso correr pelo lado certo, pois o errado é cobrado.

Esse texto foi baseado no conto Berenice, de Edgar Allan Poe.

Rícard Wagner Rizzi

O PCC, a pacificação e a eleição de 2018

A estratégia do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) para as eleições de 2018 – o preço da pacificação.

A organização criminosa agirá nas eleições?

Há uma semana nada publico; não foi por desleixo, mas pela dúvida: será que eu poderia contar a você sobre a estratégia do Primeiro Comando da Capital para as eleições de 2018?

Você que já me conhece sabe que prefiro não me arriscar, ainda mais quando a vida de dezenas – senão de centenas – de pessoas estão em risco, mas Melina me convenceu a quebrar o silêncio.

Para você que não a conhece, eu a apresento: Melina Ingrid Risso é autora do trabalho Da prevenção à incriminação: os múltiplos sentidos da abordagem policial apresentado à EAESP-FGV.

Para relaxar depois de cumprir com minhas obrigações, dei uma lida no texto de Melina e garanto a você que valeu a pena. Ela apresenta e analisa a abordagem policial com dados inéditos, entrevistas e pesquisa de campo, e só então coloca em discussão a política de Segurança Pública e sua relação com a comunidade.

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Conhecer o perigo pode poupar vidas

Você sabia que são feitas mais de 14 milhões de abordagens policiais por ano? Pois é, mas o trecho que me convenceu a apresentar a você a possível estratégia de ataque da facção paulista foi outro:

“O ‘Salve Geral’ dado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) em Maio de 2006, isso é, a ordem para que policiais fossem assassinatos […] 23 policiais militares, 8 policiais civis, 8 agentes penitenciários, 3 guardas civis municipais e 1 bombeiro, além de 2 familiares de policiais – a noiva de um policial civil e o filho de outro […] a cúpula do governo sabia que o PCC havia dado o ‘Salve Geral’ mas optou por não alertar os policiais.”

As escaramuças de maio de 2006 deixaram um saldo de mais de 600 mortos, vidas que talvez tivessem sido poupadas se as forças policiais fossem alertadas a tempo.

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Aprendendo com o passado

Eu não sei onde você estava no dia 11 de Dezembro de 1989, mas sei que o empresário Abílio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, foi sequestrado em São Paulo nesse dia.

Eu não estava envolvido naquele sequestro, e pelo que me lembre, você também não, mas o que eu sei com certeza é que em 2018, assim como 1989, há uma eleição presidencial e que o sequestro de Abílio Diniz foi a pedra que fez Lula tropeçar e não ser eleito naquele ano.

Apenas alguns homens e o boato que estariam ligados ao partido de Lula fizeram com que ele tivesse que esperar a próxima eleição para poder ser eleito.

O estado de São Paulo, hoje, apresenta o menor número de homicídios de sua história recente graças à pacificação imposta pelo PCC.

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Os Catorze do PCC decidirão a eleição

Você, eu e os Catorze sabemos disso, mas são esses últimos que decidem dentro do Primeiro Comando da Capital até quando a pacificação do estado de São Paulo se manterá – e a que preço.

Márcio Sérgio Christino e a antropóloga Karina Biondi que me perdoem, mas não é possível entender a facção criminosa PCC estudando seus livros – a gangue evolui em nossa sociedade com a eficácia de um vírus, e enquanto se desenvolve uma vacina o imbróglio já evoluiu.

Ao contrário do ocorrido em 1989, hoje a facção entende que o termo comando da capital que traz em seu nome não é apenas um grito de guerra, mas uma realidade indubitável. O PCC 1533 decidirá se Geraldo Alckmin e João Dória Júnior serão ou não eleitos – e a que preço.

Não se iluda com os discursos da direita ou da esquerda que alegam que a negociação do PCC é com o PSDB: as melhores ofertas são daqueles que querem chegar ao poder derrubando o acordo tácito que atualmente mantém a pacificação – e ofertas não faltam.

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A demonstração de poder será pontual

Quanto custaria e quanto valeria para um partido político comprar a instabilidade de São Paulo, mesmo que o preço fosse a morte de policiais e civis? Bem pouco para quem almeja conquistar os governos Federal e estaduais.

Ao contrário de 2006, a cúpula da Polícia não terá a oportunidade de omitir a informação da tropa, pois a facção recrutou voluntários entre criminosos sem ligação com a organização criminosa, cada um tendo se comprometido a matar cinco policiais, e não haverá um Salve Geral antecedendo o ataque.

A evolução dos métodos operacionais dentro da organização criminosa sempre me surpreendem, e desta feita o mecanismo de detonação não poderá ser rastreado: o irmão responsável pela ação irá ao local onde o ataque será ordenado e coordenará os voluntários que já têm seus alvos escolhidos por eles mesmos – não há listas, cada célula escolhe sua missão para cumprir a meta.

Sem aviso e sem rastros

Não pense que será feita alguma ameaça. Uma ação como essa, para ser efetiva, deve excluir qualquer chance de risco para a facção e para os políticos envolvidos na negociação, e, portanto, virá mascarada como vingança contra um ato de abuso de força policial que venha a acontecer, o que não é difícil.

Um incidente que em outra situação não teria relevância servirá para justificar perante a sociedade a realização do ataque, mantendo as verdadeiras razões ocultas e restringindo a zona de vingança por parte dos agentes policiais.

“Desculpa, mas as facções só vão crescer e se tornar mais fortes. Não se iluda. Tem político eleito com dinheiro das organizações [criminosas]. Elas estão dentro dos partidos políticos.” Marcos Valério Fernandes

Esse texto foi baseado no conto O barril de Amontillado, de Edgar Allan Poe.

Rícard Wagner Rizzi

A lista tríplice do MP-SP, o carcereiro e o PCC

A força do nome do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é incontestável — vincular-se a esse nome pode ser para muitos um problema, mas para outros pode ser a tábua de salvação.

Aquele que não se pode nomear

Poder, medo, respeito e admiração acompanham o nome Primeiro Comando da Capital; quando de meu depoimento na delegacia de polícia sobre este site, meu inquiridor insistiu que “não pode usar esse nome, assusta as pessoas!”.

O que eu deveria fazer então? Mudar para “site sobre aquele que não se pode nomear”?

O medo de enfrentar o problema de frente nos trouxe até esse ponto. O presidente da Comissão de Segurança Pública do Ceará, Leandro Vasques, afirmou ao repórter Carlos Madeira da UOL Notícias:

“… eles partiram do diagnóstico de que não havia facções, que elas não atuavam. Com essa premissa falsa, todo o projeto está comprometido, faliu em finalidade. A partir do instante em que o estado escondeu da própria população de que o crime estava por aqui, o governo decretou a sua perda de controle”.

O Ceará passava por uma fase menos violenta, as facções haviam decretado a pacificação, mas o governo aproveitou para vender a imagem de que a polícia havia colocado ordem na casa, negando que a diminuição das mortes era fruto de acordo entre as gangues rivais.

O que falei neste site sobre a pacificação em Fortaleza → ۞

A coragem de falar o nome da Besta — e enfrentá-la

Os primeiros escritos da humanidade registraram as antigas tradições orais, e a coragem, tal como hoje, era a rainha das virtudes — enfrentar leões em uma cova, dragões alados que cuspiam fogo, reis déspotas ou tribos de ladrões garantia a glória aos heróis.

Apesar da evolução tecnológica, continuamos sendo motivados pelas mesmas sinapses neurais de quando vagávamos pelos desertos asiáticos ou savanas africanas, contando histórias, criando mitos e forjando heróis.

Hoje, poucos se apresentam dizendo que enfrentaram dragões ou animais selvagens, mas a criação do mito do herói se mantém, e o dragão que cospe fogo se chama Primeiro Comando da Capital (PCC).

Fábio Abreu, Vitor Valim, Marcio Sergio Christino e Diorgeres de Assis Victorio se colocaram em uma posição única, e, sendo época de eleições, deixo que você analise cada um dos candidatos a paladino. Mito ou realidade? Faça sua escolha.

O que falei neste site sobre mitos e realidades → ۞

Falarei sobre três e nada direi sobre o quarto

  1. O secretário de Segurança Pública do Piauí, Fábio Abreu, chamou a imprensa e informou que, devido ao seu combate ferrenho ao PCC, havia sido jurado de morte pela facção — o anúncio foi feito no dia seguinte à publicação pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública dos péssimos resultados do seu estado no ranking nacional;
  2. O apresentador de televisão Vitor Valim, digo, o deputado federal, não está participando de nenhuma comissão que apresente resultados no combate ao crime, tampouco elaborou alguma lei mais rígida, mas alega que está incomodando pelo que fala em seu programa de TV, e por isso estaria sendo ameaçado pela facção — ele de fato chegou ser atacado, no entanto, foi por militantes do Partido dos Trabalhadores PT;
  3. O procurador de Justiça Marcio Sergio Christino, candidato à lista tríplice do cargo de Procurador-Geral de Justiça do Estado de São Paulo e que aposta todas as suas fichas em seu trabalho de combate à facção paulista.

As eleições gerais de 2018 terão uma prévia com a eleição dos membros que comporão a lista tríplice do Ministério Público de São Paulo. A força do candidato ligado ao combate à organização criminosa PCC dará uma ideia do poder que esse nome agrega.

Essas três personalidades públicas vincularam sua a da facção, alegando que se arriscaram ao enfrentar o perigo, mas, para ter valor, esse autossacrifício deve ser feito por alguém que se coloque a serviço do outro ou de uma causa, sem uma motivação egoísta, e, principalmente, esse risco deve ser real, e não apenas uma suposição.

Onde citei neste site o Ministério Público → ۞

Quanto ao quarto elemento nada falarei

Diorgeres de Assis Victorio, do Canal Ciências Criminais, é um crítico do meu site e do meu trabalho e, de quando em quando, deixa uma mensagem privada me informando que cometi algum erro ou omiti algum dado — por isso me recuso a falar sobre ele.

Farei como o repórter Guilherme Santana e deixarei que Diorgeres fale por si. Caso alguém queira ler a reportagem completa, na qual o estudioso conta sobre a origem da Seita Satânica SS, que vivenciou no berço do PCC, é só ir para o The Intercept Brasil.

“Em 1994, quando eu era um novato, os presos falavam comigo sobre um tal “Partido do Crime”. Eu falava ‘tá bom’, fingindo que estava entendendo, pois não é bom demonstrar dúvida perto dos detentos…

Só depois, eu e o restante dos agentes fomos descobrir que o tal partido era o Primeiro Comando da Capital, que alguns também chamavam de “Sindicato do Crime”. Para nós, os agentes penitenciários, era evidente a força que o grupo estava ganhando, mas, durante muito tempo, o governo negou a sua existência…

Foi nesse caldeirão que, no início dos anos 2000, o conflito explodiu: … o PCC agora mandava no lugar…

O conflito de poder deixou muitos mortos no Carandiru, …

Mesmo que a megarrebelião tenha deixado uns 16 mortos, o objetivo maior do PCC era mostrar o seu poder, aparecer pela primeira vez em todos os meios de comunicação do Brasil e mostrar que ele existia. Foi algo grande. Por pouco não entrei na contagem do número de mortos…

Realmente, eu sabia como era… aquilo era sinal de que a coisa estava esquentando. Nos dias que se seguiram, a cadeia ficou silenciosa e, é como o Drauzio Varella escreveu no livro Carandiru: quando a cadeia está silenciosa, é porque alguma coisa vai acontecer…

De repente, aparece um preso na minha frente, me rende … No caminho, vi que eles já estavam por todo lugar e haviam tomado o presídio…

… fui derrubado de barriga pra baixo ao lado dos outros agentes e funcionários que também haviam sido rendidos. Eu achei, na verdade tive certeza, que iriam nos matar ali mesmo. Pensei quem seria o primeiro a ser cortado, decapitado e ter as orelhas jogadas para os jacks [gíria para estupradores] comerem à força. Também passou pela minha cabeça os Satanistas negociando com o PCC alguma morte ou sangue para os rituais deles. Pensei em várias maneiras de morrer. Desejei que eu fosse o primeiro. Não queria ver o resto dos meus colegas morrerem na minha frente…

Presidiário seita satânica SS Bauru

Então um dos detentos que parecia um líder disse que precisava de dois reféns para ir com ele até a muralha do pátio. Era ali, na frente de todo mundo, que eles costumavam matar os reféns. Como na época do Exército eu havia tido aulas de prisioneiro de guerra, com porrada, tapa na cara etc., concluí que poderia estar mais preparado do que os outros para ir, então eu acenei com a cabeça para um colega que achei que tinha mais frieza e nós dois dissemos que iríamos…

Chegando lá, os caras estavam todos drogados, tomando tudo quanto era tipo de remédio com álcool, maria-louca, cocaína, fumando maconha…

Em seguida, tivemos nossas mãos amarradas umas às outras, um de costas para o outro, e fomos envolvidos por dois colchões, com as nossas cabeças de fora. Jogaram álcool em nós, pegaram um cilindro de gás industrial e abriram a válvula na nossa cara. Um deles estava com um isqueiro na mão, fazendo ameaças…”

… a história continua no The Intercept Brasil.

Fábio Abreu, Vitor Valim, Marcio Christino e Diorgeres de Assis Victorio se colocaram em uma posição única, e, sendo época de eleições, deixo que você analise cada um dos candidatos a paladino. Mito ou realidade? Faça sua escolha.

Escolha você em quem prefere acreditar, e escolha apenas um.

O que falei neste site sobre Diorgeres → ۞

Rícard Wagner Rizzi
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