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A chegada de um preso no CDP de Sorocaba.

Não estava totalmente escuro, pelos vãos do corró entravam resquícios de luz. Alguns de nós já passaram por isso antes, mas eu vivia tudo aquilo pela primeira vez. Estávamos os seis sentados no chiqueirinho de uma veraneio preta e branca, velha e fétida. Os solavancos faziam nossos corpos baterem com força na lataria, dor maior que das algemas de pés e das mãos que nos apertavam. É estranho, mas parecia que a cada parada ou curva aconteceria um acidente e que todos morreríamos lá, no meio das chamas.

Quase não conseguia mais respirar aquele ar abafado e fedorento, quando, finalmente, o motor foi desligado. Eis-nos aqui, no CDP de Sorocaba. Chegamos em pleno dia, uma sexta-feira, 21 de maio do Anno Domini de 2010. Presenciamos, a princípio, exatamente o contrário do que esperávamos.

Mal passamos o portão principal e vimos dois bandos de espectros, ambos vestindo camisetas brancas e calças cáqui. Estávamos deles separados por uma cerca, mas um desses bandos marchava lado a lado com o nosso grupo, gritando ameaçadoramente em nossa direção; as pessoas no outro, muito maior, cuidavam de suas vidas, conversando em pequenos grupos, mal olhando para nós.

Quando nosso grupo finalmente atravessou um novo portão, alguém gritou no meio da massa: aqui é o inferno.

Éramos os presos que chegávamos naquela tarde procedentes de Itu. Já nos conhecíamos, seja da vida, seja do pouco tempo que ficamos juntos na cela da delegacia da cidade, um lugar que tiraria noites de sono do próprio Dante. Os policiais civis que nos levaram até ali ficaram para trás.

Um funcionário mandou que tirássemos nossas roupas e que as colocássemos ao nosso lado. Todos nus, andamos alguns metros e ficamos encostados em uma parede. O funcionário, que antes falava suavemente dando instruções, muda o tom, grita, chamando-nos de vagabundos e outras palavras impublicáveis. Um jato de água fria é jogado sobre nós – para lavar nossa alma.

Ainda nus, recebemos as boas-vindas do Sistema Penitenciário. As regras de conduta nos são explicadas, pancada à pancada, e vamos ouvindo cada explicação. Alguns caem de joelhos, outros curvam-se, colocando a mão na barriga. Houve quem esboçou um choro, mas todos, aparentemente, entenderam todas as regras, pois nenhum de nós pediu para explicarem de novo.

Recebemos o uniforme e fomos colocados no pátio. Eu estava sozinho na fita, enquanto os outros se afundam e se mesclam no meio daqueles dois bandos que vimos assim que chegamos ao CDP. Um grupo se aproxima de mim. O homem que vem à frente diz que vai me arrebentar, os outros apenas olham. Chegou alguém que conheci um dia no Bar do Gordo, e diz a todos que sou firmeza e que ninguém deve mexer comigo. O grupo se afasta.

Vírgilio me leva até o X (cela) em que vou ficar. Inicialmente dormirei na praia (no chão). Naquele barraco (cela), não existe briga e também não há hierarquia rígida; ninguém manda em ninguém, não tem um disciplina (pessoa encarregada da ordem interna, em geral nomeado por uma facção). O CDP é dividido em quatro blocos, um para o CRBC, outro para o PCC, e dois para a população (sem partido), e eu estava neste último.

Bem, essa foi minha chegada ao inferno. Meu nome não falarei aqui, não por temer represálias, pois só Deus pode me punir, mas para não prejudicar aqueles que convivem comigo. Tendo notícias, lhes enviarei, direto do Antro Maldito.

Ricard Wagner Rizzi

O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)

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  • isso é um absurdo apesar de tudo são seres humanos e eu sei que os policiais os tratam como animais é meio dificil sair dali transformado só deus mesmo.

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