Recebia para o jantar a família do Drº. João Dias Ferraz da Luz, o pároco da igreja (1) de quem era amigo, e de quem ouvia conselhos sobre problemas e talvez conflitos da própria vida.
Viera o pároco, ansioso e preocupado em evitar que o médico comprasse de uma família amiga, um escravo chamado Nazário.
Disse que este escravo devotava ódio aos senhores, e que prometera matar o primeiro e novo dono que tivesse, diziam ser transtornado das idéias.
Povo sofrido, os escravos sonhavam com a liberdade que vive tão dentro dos humanos e que por ela, tudo fariam.
Porém, apesar do aviso, estava o médico decidido a comprar o escravo, porque já dera a sua palavra e a cumpriria.
Veio então Nazário, para a sua casa assobradada, cheia de janelas que davam para o largo, em frente ao cruzeiro da cidade.
Seu serviço era na estrebaria do quintal, cuidando dos animais, carruagens, as vezes rachando lenha e cuidando do jardim.
Sempre soturno e carrancudo, Nazário era tratado como os outros escravos, com amizade e afabilidade, tanto que vinda a abolição da escravatura, alguns ficaram com a família.
Na tarde do dia 8 de fevereiro de 1879, a tragédia rondava a casa do Dr. João Dias Ferraz da Luz.
Sua esposa D. Balbina de Barros Ferraz da Luz, encontrava-se em Pouso Alegre, visitando parentes, acompanhada de duas filhas menores.
O médico chegara mais cedo da Santa Casa de Itu, preocupado com as filhas Balbininha e Terezinha, doentes de tuberculose, devido a ingestão de vidro moído na alimentação, colocados pelos escravos.
Ao apear-se do cavalo, entregou as rédeas a Nazário que rachava lenha e perguntou-lhe se havia arranjado duas varinhas para apoio das roseiras, e seguiu em direção à casa.
Mal havia dado os primeiros passos, foi abatido a machadadas pelo escravo furioso.
Nazário correndo para dentro da casa com o machado nas mãos, abateu uma velha senhora que ali passava roupas e uma escrava que o interpelara dizendo: Que fizestes?
As duas filhas, Terezinha e Balbininha, acamadas, foram também abatidas sem piedade.
Semíramis, uma sobrinha, irmã de criação de minha avó, escondeu-se num cesto de roupas.
O escravo viu-a , ela então implorou -lhe que não a matasse e milagrosamente, conseguiu ser atendida.
Nazário correu para a rua e chegando a um boteco de esquina, bebeu aguardente, comprou cigarros, bateu no balcão e disse:
” Acabei com a família do Dr. João Dias! “
Preso, confessou cinicamente os crimes e três dias depois, o povo de Itu, reunindo-se à noitinha na Praça do Carmo, retiraram-no da cadeia, sendo linchado e seu corpo arrastado pelas ruas de Itu, pela população revoltada. (2)
Dr. João Dias Ferraz da Luz e as duas filhas foram enterrados no cemitério de uma igreja local. D. Balbina, sua esposa chegou três dias depois e já encontrou o esposo e filhas sepultados. Ficou tão traumatizada com o acontecido, que anos depois, até a sua morte, cuidada pela filha Josefina, levantava-se de madrugada, ia para o piano e tocava música clássica, árias conhecidas de óperas e operetas até altas horas.
A família abastada, seus filhos estudando, não tendo o pulso forte do pai, foram empreendendo maus negócios e ficaram reduzidos a nada e minha avó até como dona da pensão trabalhou aqui em São Paulo, para sustentar os filhos.
Contava minha avó, que certa vez, durante uma das epidemias que assolavam São Paulo, naquele tempo, carregou nos braços um negro que estava com a bexiga, pois os que o haviam vindo buscar para tratamento, não tiveram coragem de carregá-lo. Não foi infectada.
Os filhos de João Dias Ferraz da Luz casaram, vieram para São Paulo, Rio de Janeiro, e Minas Gerais e até hoje eu me pergunto, porque tanto sofrimento? Porque o ato de uma só pessoa, trouxe tanta dor e luto a uma família respeitada e bondosa como era a do Dr. João Dias Ferras da Luz?
E é tão verídica esta narrativa que minha mãe, estudante interna de favor, graças ao meu bisavô, no colégio das Irmãs de São José, que havia na Consolação, colégio que há muito não existe e que ficava onde é a igreja da Consolação; ouviu quando foi apresentada a Madre Teodora Voiron, beatificada há poucos anos pelo Papa João Paulo II, estas frases: “Esta é a netinha do Dr. João Dias!”
“Ah, minha filha, seu avô era tão bom!”.
É o que contava mamãe.
A morte do Dr. João Dias Ferraz da Luz , não teve explicações plausíveis, permanece como uma tragédia, pois nada o desabonava, era pessoa íntegra e benquista em Itu.
Uma das explicações ou versões, é de conotação política, pois o escravo havia sido vendido com ocultação de seu feito, pela família amiga que também possuía um membro que como o Dr. João Dias se candidataria a Deputado pelo partido conservador monarquista, que ele era.
E terminando Dona Balbina e filhas mudaram-se para Pouso Alegre e viviam às expensas dos irmãos, os Barros, que eram muito conhecidos e ricos, e de uma pensão dada a funcionários federais, pois fora Deputado.
Em Itu, cidades vizinhas e quiças no Brasil, foi grande a repercussão da tragédia. É o que contava Maria, minha avó, chamada pelos familiares carinhosamente, de Mariquinha.
São Paulo , 06 de dezembro de 1997.
Este texto de autoria de Liana Prado Passos conta passo a passo a tragédia da família do médico João Leite Ferraz da Luz assassinado em 1879 em Itu, no interior paulista.
(1) O mais provável é que a autora esteja se referindo ao padre Pe. Miguel Corrêa Pacheco que foi pároco da Igreja Nossa Senhora da Candelária entre 1856 e 1892. Este benemérito foi o grande incentivador da vinda das irmãs de São José de Chambery da Congregação de São José para o Patrocínio.
(2) Isabel Cristine Jerônimo anexou em seu trabalho um documento com o seguinte trecho:
A tragédia da família Ferraz da Luz, ocorrida em Itu no ano de 1879, é um episódio que, quando analisado sob o ponto de vista histórico, revela um emaranhado de tensões sociais, políticas e culturais do Brasil do século XIX — particularmente no período de transição entre o regime escravocrata e o advento do trabalho livre, marcado por ressentimentos profundos, fragilidade institucional e conflitos de classe e raça ainda mal resolvidos.
O assassinato do Dr. João Dias Ferraz da Luz e suas filhas ocorreu durante o Segundo Reinado (1840–1889), sob D. Pedro II. Era um período em que o império brasileiro enfrentava forte pressão interna e externa contra a escravidão, que seria oficialmente abolida nove anos depois, em 1888. A Lei do Ventre Livre (1871) já indicava o caminho rumo à abolição e colocava em xeque a autoridade senhorial e o controle sobre os cativos.
A narrativa insinua que Nazário era um escravizado recém-adquirido, vendido a despeito de alertas quanto à sua rebeldia e ódio declarado aos senhores. Isso evidencia a crise do sistema escravocrata, onde as relações entre senhores e escravos deixavam de ser apenas baseadas na dominação unilateral e passavam a conter elementos de ressentimento latente, prestes a explodir. Nazário aparece como uma figura alegórica desse acúmulo de tensões.
A resposta popular à chacina — o linchamento do escravizado Nazário por uma turba enfurecida — revela mais do que mera comoção. Mostra o funcionamento da justiça paralela e racista, que recorre ao justiçamento quando a legalidade parece proteger o “inimigo”.
A notícia transcrita pela autora, tirada da Tribuna Liberal, dá conta de uma tentativa frustrada de invasão à cadeia, a morte de um soldado e a promessa de novo ataque por 150 pessoas armadas. É um claro sinal de que a autoridade policial e o aparato legal estavam em xeque, incapazes de conter uma população movida pela emoção e por um sentimento coletivo de revanche racial e de classe.
A imprensa liberal, mesmo recomendando “prudência” por parte da polícia, sugere que a “proteção legal” ao assassino pode piorar a situação, o que mostra como, na prática, o Estado de Direito era frágil diante da comoção popular, sobretudo quando envolvia um negro e ex-escravo como autor de crime contra uma família branca e de prestígio.
O Dr. João Dias Ferraz da Luz aparece como um representante típico da elite abastada provincial, um médico honrado, amigo do pároco, tido como bom e íntegro. O fato de manter sua palavra na compra de um escravo, mesmo após o aviso, é narrado como um valor moral elevado — embora, aos olhos contemporâneos, isso possa soar como uma forma de imprudência travestida de honra.
A elite oitocentista brasileira, especialmente no interior, era regida por valores como prestígio social, vínculos familiares, educação formal, religiosidade e influência política. A tragédia que se abateu sobre a família é descrita como um abalo à ordem simbólica que sustentava essa elite.
A hipótese de que a venda do escravo teria tido motivação política — para sabotar a candidatura do médico ao Parlamento — também aponta para um cenário de disputa oligárquica, onde as famílias locais se enfrentavam dentro de um ambiente de clientelismo, traições veladas e instrumentalização de vidas humanas como peças no tabuleiro político.
É notável como o texto constrói uma imagem idealizada da família Ferraz da Luz: bondosa, instruída, cristã, generosa com os escravos, amiga dos pobres e até caridosa com os doentes em epidemias. Este recurso narrativo — ainda que emocionalmente compreensível — tende a apagar as contradições de classe e os conflitos inerentes à ordem escravocrata, onde até o “melhor dos senhores” sustentava um sistema de brutalidade estrutural.
Ao mesmo tempo, a tragédia serve como fundamento simbólico para a decadência posterior da família, agora pobre, trabalhando em pensão, vivendo da ajuda de parentes. Há uma dimensão quase bíblica ou fatalista nesse destino: o sofrimento como castigo inexplicável ou prova moral, em uma narrativa onde o sofrimento parece ter mais valor do que a compreensão histórica dos mecanismos que o produziram.
O texto de Liana Prado Passos, escrito em 1997, é também um exercício de memória familiar. Carrega o tom emocional de quem deseja honrar a história de seus antepassados, ainda que misture memória oral com suposições e conclusões frágeis do ponto de vista documental.
A referência à madre Teodora Voiron e o comentário “Ah, minha filha, seu avô era tão bom!” reforça a tentativa de canonizar o personagem. Por outro lado, a narrativa também é um exemplo do que alguns chamam de “mitologia das famílias fundadoras” nas cidades do interior paulista: famílias vistas como pilar moral e social, cujos infortúnios são tratados quase como tragédias gregas — inexplicáveis, irreversíveis e solenes.
Sob o ponto de vista histórico, a tragédia da família Ferraz da Luz expõe:
A história, longe de ser apenas um caso isolado de violência, serve como espelho dos dilemas do Brasil oitocentista — entre a tradição senhorial e a modernidade republicana que se anunciava, ainda que cheia de contradições e injustiças não resolvidas.
Excelente observação, Wagner. A menção ao Haiti, sobretudo à revolta de escravizados que culminou na independência do país em 1804, teria sido extremamente pertinente — não apenas como pano de fundo histórico comparativo, mas como fantasma latente no imaginário das elites escravistas brasileiras do século XIX.
Embora o episódio ocorrido em Itu, em 1879, pareça um caso isolado e local, ele se insere num contexto atlântico mais amplo, onde a elite branca escravocrata do Brasil vivia sob o trauma não declarado da Revolução Haitiana.
Desde o início do século XIX, o Haiti havia se tornado um símbolo ambíguo: esperança de liberdade para os cativos e horror para as classes dominantes escravistas, especialmente no Brasil, Cuba e nos estados escravistas do sul dos EUA. O medo de um “haitianismo” tropical pairava como uma sombra nas senzalas, nos cafezais e nas casas-grandes — e essa tensão se intensificou conforme cresciam os debates abolicionistas e os sinais de colapso do sistema escravocrata.
Nazário, nesse contexto, pode ser lido — não como sujeito isolado e “louco” (como o texto tenta insinuar) — mas como expressão individual de uma revolta coletiva abafada, um corpo que, sozinho, realiza o que milhares sonhavam em silêncio. Não é difícil imaginar que, para muitos brancos daquela época, ele encarnava o medo arquetípico do “escravo vingador”.
Inclusive, o fato de os jornais da época falarem em ataques organizados à cadeia, do povo querer o linchamento imediato e da polícia hesitar em protegê-lo, pode ser interpretado como uma reencenação preventiva de pânico colonial: o desejo de restaurar a ordem simbólica que foi violentamente rompida por aquele gesto de revolta.
Assim como no Haiti, onde as primeiras revoltas começaram com assassinatos de senhores e incêndios em propriedades, o episódio de Itu reativa esses fantasmas coloniais — e revela como o Brasil escravocrata tinha consciência (ainda que inconsciente) da fragilidade de seu regime.
É curioso (e sintomático) que esse caso brutal, ocorrido já tão perto da abolição formal, não tenha se tornado um símbolo nacional como outras histórias de martírio ou heroísmo — talvez porque desafia a narrativa “civilizatória” da transição pacífica brasileira para o trabalho livre. O caso de Nazário, como o de Zumbi ou de Luís Gama, contraria a tese da abolição “sem sangue”, tão cara à memória oficial da nação.
Mais do que isso: o silêncio em torno do Haiti nos discursos brasileiros da época (e em parte da historiografia posterior) é um silêncio estratégico. Falar do Haiti era lembrar que a ordem escravocrata podia ruir de forma violenta. Nazário, mesmo com todas as tentativas de retratá-lo como um monstro solitário, interrompe esse silêncio — ainda que brevemente — com o machado nas mãos.
Três meses após o assassinato de Ruy Ferraz Fontes, o texto analisa como do PCC,…
A aliança entre o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) e clãs balcânicos na…
O pesquisador italiano Francesco Guerra e suas análises sobre o Brasil e a América Latina,…
O artigo reconstrói a trajetória do Estatuto do PCC 1533, revelando sua origem como pacto…
Este artigo analisa como a imprensa europeia retrata a facção PCC 1533 sob clichês datados,…
O texto narra o impacto do rompimento entre PCC e CV na Amazônia e revela,…
View Comments
Que história triste. Obrigada por contá-la. Estou pesquisando para minha tese os nomes de quatro pessoas da família Ferraz da Luz. São eles: Alvaro Dias, Antonio Dias, Julio Dias e Otavio Dias. Todos estudaram no Colégio São Luís de Itu. Se tiverem alguma informação, agradeço imensamente. andreacolsato@gmail.com (Pesquisa USP - FFLCH)
Não tem de quê Ms.Colsato, essa história foi me repassada por uma descendente de tua família, só a dividi, pedi ao meu colega Tibúrcio que ilustrasse. O agradecimento fica por minha conta, e lamento o ocorrido na história de tua família.
Vi seu post sobre o assassinato do Dr João Dias Ferraz à machadadas dadas pelo escravo Nazário. Fato ocorrido em 1879.O fato realmente ocorreu - trabalho em uma empresa que - na época - era O montepio geral de economia dos servidores do estado e tem um dossiê da pensão que foi paga a esposa do Dr. João.No dossiê tem documentos narrando os fatos.